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O gordão reclamão

Postado em 14 julho 2009 Escrito por Izzy Nobre 120 Comentários

Este é o primeiro post da recém estreada categoria “Contos da porn shop”. Os tipinhos com quem eu interajo no trabalho são surreais demais pra que eu mantenha essas histórias apenas pros meus seguidores no twitter.

Então, hoje à noite (redijo-vos este texto ainda no balcão da loja) tive um leve desentendimento com um cliente que vem aqui praticamente toda noite.

Chamarei-o de Bob porque, bem, esse é o nome dele. Bob é ex-colega de trabalho de uma tiazona que trabalha aqui comigo, e a despeito disso (quem sabe, JUSTAMENTE por isso) o cara escolheu a minha loja pra comprar seus acessórios masturbativos. Aparentemente eles trabalhavam juntos numa empresa de fretagem, sei lá. Ambos já me explicaram sua conexão anterior mas eu fiz o máximo para ignora-los sumariamente, então nem lembro.

Poizé. O Bob é daqueles chatos chatíssimos que sentem uma compulsão de te contar minúcias da vida dele que você de forma alguma se importa em saber. Sabe aquele cara que você vê na rua e, conhecendo o naipe, tu finge que não o viu? Mas aí o feladaputa te vê, atravessa a rua acenando pra vir falar com você, e te conta alguma babaquice que está acontecendo atualmente na vida dele? A empolgação do sujeito em te dar um relato apurado de suas idas e vindas é diretamente proporcional à sua falta de interesse em ouvi-lo.

Agora imagina um sujeito que até aquele cara do exemplo acima acharia chato. Em seguida imagine que o sujeito hipotético tem um peso que só pode ser escrito usando três dígitos.

Então, esse é o Bob.

O Bob chega aqui toda noite me falando sobre alguém que o cortou no trânsito, sobre um velho amigo de faculdade com quem ele esbarrou na seção de legumes do supermercado local, sobre uma verruga que ele achou embaixo do suvaco, e por aí vai. Nenhum assunto é trivial o bastante pra não ser compartilhado pelo infeliz, e ele não apenas te conta o básico da história. O desgraçado conta uma backstory de 20 minutos antes de chegar no assunto com o qual ele quer te encher o saco. Nem minha mulher consegue ser tão tolkeniana ao contar uma história!

Chegou a um ponto que só de ve-lo entrando na loja eu já soltava um “putaquepariu” baixinho e fechava a tampa do netbook ou jogava o livro embaixo do balcão, supondo que pelo desgraçado ser um freguês, bons modos ditam que eu deveria dar a ele minha atenção inteira. Hoje eu descobri que tirando os olhos do computador/livro ou não, isso não afeta em nada a capacidade do Bob de me encher o saco desfiando minuciosamente acontecimentos sem qualquer importância.

Hoje o Bob chega aqui na loja comentando que o clima em Calgary anda louco, e que em Halifax o clima é um pouco parecido mas blá blá blá blá blá blá blá blá. Cinco minutos depois eu estava completamente perdido nos meus pensamentos e o filho da puta continuava tagarelando. Eventualmente ele se calou e voltou-se às estantes dos DVDs. Minutos mais tarde o gordão reaparece com um filme na mão.

“Oh, verificaí o sistema porque eu tou com um crédito de cinco dólares por causa de um engano nas fitas.”

Há um caderno onde anotamos todos os avisos relevantes, pra que a turma do próximo turno esteja a par dos eventos. Verifiquei as últimas páginas do caderno e lá estava a anotação de uma colega de trabalho.

A notinha explicava que na noite anterior o Bob havia alugado um DVD que se tratava de um double feature (ou seja, uma caixa com dois discos), mas que ao chegar em casa ele notou que havia apenas um DVD na caixa. A minha companheira havia prometido um crédito na conta dele por causa do engano.

E logo abaixo da nota, vi uma segunda mensagem. E essa mensagem não iria deixar o Bob feliz.

Reconheci no ato a letra da gerente. A nota da chefia justificava o engano dizendo que o DVD trazia dois adesivos claramente visíveis avisando que havia apenas um disco na caixa. Como o DVD contido tinha um filme completo, o sujeito não tem do que reclamar. A última linha era enfática.

“NÃO DÊ CRÉDITO A ELE”, lia o veredito da gerente. Eu engoli a seco, imaginando como passar a notícia pro balofo que, a essa altura, já suava profusamente como todo gordo.

“Errr, então né. Tou vendo uma nota aqui no nosso caderno… e o que acontece é que…”

A cara do Bob fechou subitamente. Sem dúvida naquele momento ele não queria compartilhar nenhum momento trivial da vida dele comigo.

“Ahhhh era só o que me faltava” ele jogou o celular, o cartão de crédito e a chave do carro em cima do balcão, e espalmou as mãos no mesmo “o que foi agora? Vai me dizer que negaram meu crédito?”

Engoli em seco outra vez.

“Não, é que… bom, sim. É que a caixa do DVD tinha um adesivo explicando que só havia um filme na caixa, e…” antes mesmo de terminar minha frase, eu já estava ciente do que eu estava fazendo – por mais diplomático e não-confrontacional que fosse meu discurso, a mente do sujeito filtraria a mensagem e tudo que ele entenderia é “não vamos dar o crédito porque você é burro”.

O gordão se espevitou todo, com o dedo erguido no ar.

“Mas que putaria é essa? Eu alugo filme aqui praticamente todo dia, e agora vão querer me sacanear?!”

“Bom senhor, a decisão não é minha, estou apenas lendo o que a gerente escreveu aqui” apontei pro livro. Talvez não tenha dado certo pros oficiais nazistas em Nuremberg, mas “eu estava apenas seguindo ordens” era minha única defesa.

Não quero saber” berrou o gordo “Isso é fraude. É fraude”.

Imagino que meu rosto esboçou exatamente a reação que um estudante de direito esboçaria ao exposto a tamanho disparate. O gordo decidiu se explicar melhor.

“Se você paga alguém e eles não te dão nada em troca, isso é fraude!”

Curiosamente meu livro de direito criminal estava na mochila. Por mais que me desse vontade de dizer “ahh, não, isso não é nem de longe a definição de fraude, ou tampouco a definição desta situação em particular”, e puxar o livro pra fora e ler em voz alta a definição de “fraude” do glossário, é óbvio que peitar o cara só pioraria a situação.

Tentei dar ao gordão uma explicação a respeito da falta do segundo DVD, de repente ele entenderia que não houve malícia da parte da loja, e sim jumentice da parte dele.

“Bom senhor, é que é o seguinte – quando recebemos esses filmes de disco duplo, alugamos os filmes separadamente. Não faria sentido cobrar um valor X por aluguel de filme, e ao mesmo tempo oferecer dois discos pelo preço de um. A lógica é que se você quiser assistir ambos os discos, terá que alugar ambos, pagando 2X. É o met…”

“Não quero saber. Isso é uma putaria. Uma PUTARIA! Eu tenho um blog, sabia? E se me sacanearem vou escrever tudo isso no meu blog!”

Eu pisquei estupefato. Os cinco ou seis segundos de silêncio foram finalmente quebrados pela minha pergunta.

“O senhor… o senhor tem um blog?” imediatamente eu me dei conta que a surpresa era totalmente sem motivo. Pra um cara que gostava tanto de falar da própria vida, manter um blog deveria ser uma atividade tão comum quando respirar ou alugar esses filmes de traveco que o Bob aparentemente gosta tanto.

“Tenho. Escrevo sobre um monte de coisa, e faço DENÚNCIAS também. O nome é INTERNET meu amigo, um monte de gente lê essas coisas, ativismo do consumidor! Se me sacanearem vou escrever no meu blog hoje mesmo!”

Controlei a curiosidade de perguntar a URL do blog do cara. Respirei fundo.

“Bom senhor, talvez o senhor queira voltar durante o dia, pra falar com a minha gerent…”

O gordão estava empolgado e não me deixou continuar.

“E depois que eu espalhar isso pra internet inteira, vou escrever pro Calgary Herald também! Aí eu quero ver! Ninguém vai mais alugar nada nessa porra dessa loja!”

E eu fiquei pensando quem diabos o cara acha que é, pra destruir completamente um estabelecimento comercial sinmplesmente por postar uma posição negativa que era inteiramente resultado da própria burrice dele de não verificar atentamente o que ele estava alugando. Pisquei novamente, encarando o cara com uma expressão neutra no rosto, sem saber o que dizer.

E, acima de tudo, curiosíssimo sobre o tal blog dele.

“Isso é uma palhaçada. Uma putaria! Como é que vocês me alugam só uma fita quando era pra ter duas na caixa?”

Foi só nessa hora eu atentei que o tempo INTEIRO o cara tava se referindo aos DVDs como “fita”, o que talvez seria normal dez anos atrás quando o novo formato havia começado a se popularizar. Me deu uma grande vontade de alopra-lo ou ao menos corrigi-lo de forma sarcástica (“fitas? Me desculpe senhor, deve haver algum engano, não alugamos fitas”), mas assim como um documentarista do Discovery Channel não interfere no comportamento dos animais que ele observa, decidi manter o hábito do Bob inalterado.

Ele continuou bufando e explicando pra mim, nerd-mor que passa 10-12h por dia na internet, como é que redes sociais e blogs funcionam. Deu vontade de dizer “dotô, eu já blogava quando sua próstata ainda tinha tamanho saudável”, mas mantive silêncio monástico.

“E aí vou mandar carta pro Sun também, e aí eu quero ver! Ninguém mais vai alugar filmes nessa joça e vocês vão se arrepender muito de me sacanear. Vocês não sabem quem eu sou!”

Uma rápida olhada no sistema e eu poderia responder “sim, sei exatamente quem você é. Você é o Robert de Tal, morador da rua tal, casa tal, que tem conta conosco desde 2007 e alugou quase trezentos filmes de travecos só no ano passado”. Ele nem me deixou terminar o pensamento:

“Fodam-se vocês e foda-se essa loja de merda. Deixa eu chegar em casa e vocês vão ver só o poder de um consumidor revoltado!” O gordão apanhou as tralhas e saiu pisando duro até à porta.

E eu percebi quase imediatamente que na sua pressa indignada, o balofo havia deixado seu cartão de crédito em cima do balcão. SEM QUERER deixei o cartão cair no cesto de lixo.

Aparentemente o balofão voltou no dia seguinte pra alugar outra “fita” (felizmente, ele apareceu em outro turno), e qual não foi sua surpresa ao descobrir que ALGUÉM havia deletado sua conta na loja por maus tratos aos funcionários.

E o meu colega de trabalhou que o atendeu disse que não, infelizmente no nosso achados-e-perdidos não havia nenhum cartão de crédito, talvez ele tenha perdido em outro lugar.

A lição de moral é, não seja escroto com alguém que lida com seus filmes pornôs e seus vibradores. Considerando que boa parte do que eu vendo naquela loja vai dentro do seu corpo, ter seu cartão perdido e a conta cancelada não é nem de longe o pior que eu poderia aprontar.

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Categorias: Contos da porn shop

120 Comentários \o/

  1. Enrico disse:

    Bem, já que ele admitiu que jogou o cartão do cara no lixo… Colocar aqui a url dele não seria muito esperto mesmo!

  2. Darox disse:

    Bem feito.

  3. opivm disse:

    Pqp, finalmente um post com a cara do Hbdia!

    Demais, parabéns! :)

  4. Nick-kun342e disse:

    PQP foda!Vc se superou nessa se vingou dando um OWNED, bem feito isso q deu o kra ser um chato punheteiro de filmes com travecos.

    …RONALDO!

    Bem amiguinhos aki vai a minha parte favorita: “A lição de moral é, não seja escroto com alguém que lida com seus filmes pornôs e seus vibradores.” -> ri alto

  5. wodexiaodidi disse:

    我不明白你写什么

    also, cartao de credito no lixo? Clerks 1

  6. kent disse:

    O Kid tá quase virando o Randall do filme Clerks!

  7. tio disse:

    auhsaushauhush q gordo escroto..
    Rachei de rir com o final auhsauhs
    ainda tem q aprontar muito ocm esse cara xD

  8. Guilherme disse:

    ahahuauhauhauhauhauhauahuha gordo so faz gordisse é a lei.

  9. algust21 disse:

    putz, eu queria ver o blog do cara.. [x+1]

  10. Nailson disse:

    Izzy Ruleia!!!

  11. Vitor disse:

    Talvez ele nem volte mais no seu turno, só pra não te dar o gostinho de vc ver ele de novo lá e saber que ele não podia fazer merda nenhuma do que disse! huahuaha
    Mas tente descobrir qual é a URL do blog dele, vai que alguem da loja conhece…

  12. lucsa disse:

    se o cara botar adsense no blog dele no dia que você postar aqui o endereço ele fica rico

  13. Vini Cabral disse:

    Septuagésimo – oitavo?? Wow!!!…

    Odeio esse comentários idiotas…

    Pessoal comenta antes mesmo de ler… aff

  14. Eduardo disse:

    KID,fikei sabendo pelo Matando Robos Gigantes assaltaram a sex shop conte me essa historia rapaz ?

  15. Leo disse:

    Pelos 2 anos que eu estou sem fazer nada e leio essa porra, sei que é obvio que Kid perguntou a Url, contudo o Gordão escreveu algo tão ofensivo que o Kibe resolveu omitir. hahah

  16. Carol Animaker disse:

    “…siNmplesmente por postar uma posição negativa…”?

    Eu conheço pelo menos umas 30 pessoas assim. Quando elas atacarem, é só você ficar sorrindo e balançado a cabeça, ou então enfiar uma faca em um dos rins delas.

    Nunca tentei a segunda opção, mas ando pensando seriamente.

  17. Márcio disse:

    A analogia com o documentarista foi excelente, utilizarei-a no trampo a partir de agora. O gordo descrito aqui fez lembrar dos que eu sou obrigado a atender pra pagar minhas contas, acho que por isso gostei ainda mais do post. Lá no trabalho a gente criou uma espécie de “top 10″ interno, reservado a seletos clientes. Só entra gente, digo, seres desse naipe.
    Por obséquio, favor criar um post com a URL do blog do gordo quando o achar, se achar. Grato.

  18. Rafael disse:

    era o bob sacamano.

  19. m4kin disse:

    uhAUAHUhAU foda isso, o triste é qdo o cara da loja te trata mal e vc mantem a pose pra nao falar merda… qdo a situacao inverte tb nao é nd bom

  20. Pedro disse:

    HAHAHAHA!
    BOB FAIL

    Sempre trate bem todos, independente da profissão ou posição social.