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A polêmica do podcast Angry Mac Bastards — às vezes a “zuera” sai pela culatra

Postado em 24 December 2013 Escrito por Izzy Nobre 22 Comentários

Screen Shot 2013-12-22 at 11.39.34 AM

Eu estava conversando esses dias no Twitter (onde mais, né?) ontem sobre as palavras que o hivemind internético brasileiro costuma estragar com sua fascinação obcecada/abuso descontrolado.

Em 2011, tivemos o “MAMILOS“. A expressão virou sinônimo de “polêmica” por causa de um vídeo memético particularmente idiota. E olha, a maioria de vídeos-meme são idiotas quase por definição, e ainda assim o “vídeo dos mamilos” se destaca no mongolismo. Veja aí, caso você tenha escapado desse vídeo durante todos esses anos.

Em 2012, me parece que a palavra da vez foi “CHORUME“. Outrora um termo que significava o nauseante líquido que escorre de um saco de lixo orgânico em estado de putrefação, “chorume” virou na internet algo (ou alguém) do qual você não gosta. Como uma criança que aprende uma palavra nova, a internet repetiu “chorume” a exaustão até que eu desenvolvi um tipo de sistema imune contra o termo — se eu vejo alguém usando a palavra eu já parto do princípio de que eu devo desgostar do indivíduo. Tipo reação alérgica mesmo.

E em minha experiência pessoal eu devo dizer que o uso de “chorume” é quase exclusivo de gente escrota.

Em 2013, estou convencido que o termo mais overused do ano — novamente, a ponto de gerar instantânea antipatia quando vejo alguém usando — foi “ZUERA” (que, informam os adeptos, “não tem limite”). “Zuera” veio substituir o “TROLL“, que também encheu o saco em anos passados.

Em 2013 a internet brasileira abraçou completamente a “zuera”. E embora tenhamos visto isso relativamente pouco (pelo menos até onde eu lembro), em algumas ocasiões a zuera backfires lindamente na cara dos zuões.

E assim começa a história do Aaron Vegh.

Screen Shot 2013-12-23 at 4.43.22 PM

Aaron Vegh, como sua bio no Twitter explica, é um programador canadense. Aliás, não apenas canadense, mas ele é praticamente meu vizinho. O sujeito mora em Whitby, que fica aqui DO LADO de Oshawa, cidade natal da minha esposa onde estamos passando o Natal com a família dela.

Bom, agora, é nossa família, né?

Screen Shot 2013-12-23 at 4.46.56 PM

O cara tá aqui do lado!

Então. O Aaron tem um blog, onde ele divulga uma página-currículo. Até aí tudo beleza.

E aí entra o podcast Angry Mac Bastards. Ou melhor, o finado podcast, eu devia dizer. No decorrer da controvérsia, o podcast bateu as botas.

O que rolou foi o seguinte: os hosts do programa (que estava em sua edição de número 235, ou seja, eles não eram exatamente novatos nessa esfera), conhecidos pelo humor ácido e irreverente, decidiram tirar o cara pra cristo. Num segmento de análise/desconstrução de quase meia hora, eles pegaram o currículo do cara e sairam esculachando basicamente tudo que acharam lá (No link você encontrará uma transcrição do programa, porque o podcast foi sumariamente deletado da internet).

Se fossem dar conselhos sobre como aperfeiçoar o currículo do sujeito, vá lá. O que eles fizeram no entanto foi escrotizar desde o fato de que o cara escreveu um livro (“grandes merdas é um livro self-published“), até a aparência pessoal dele. Nem o template do Pages que o maluco escolheu pro currículo os caras perdoaram.

E o problema com essa “zoeira”, “zoera”, ou seja lá como a turminha escreve essa porra, é que não há um real esforço humorístico em simplesmente agir com crueldade com alguém. Era bastante claro que os apresentadores simplesmente não foram com a cara do programador, e resolveram dedicar um pedaço imenso do programa espezinhando até cansar.

Já comentei aqui em outros tempos que essa galera que equivale “brincadeira de internet” (na época o termo vigente era o tal “trolls”) a esse tipo de perseguição pessoal tá, quase sempre, vacilando pra caralho. E este foi um claro exemplo disso.

Mas aí vem a parte realmente engraçada. Apesar de ter bem poucos seguidores, o Aaron foi defendido em massa pela internet.

Screen Shot 2013-12-22 at 11.37.35 AM

A internet começou a ir atrás dos anunciantes do programa, pra denunciar os bullies e força-los a remover o patrocínio. Alguém entrou em contato com o empregador de um dos caras, o excremento se propeliu em direção ao ventilador, e aí os rapazes do podcast resolveram deletar TUDO, às pressas. Abandonaram anos de programa e desligaram a porra toda.

Do podcast só sobrou o texto de despedida deles.

Como os caras estão batendo em retirada, é bem capaz que até esse link resulte num erro 404 em breve. Aqui está o registro do pedido de “desculpa” deles.

Screen Shot 2013-12-24 at 10.27.26 AM

É curioso que eles digam que não queriam “lutar contra a Máquina do Ódio/Revolta Internética”, quando a confusão inteira só existiu porque eles destilaram tanto veneno contra um cara que estava quieto na dele tentando arrumar um emprego. E ainda manipulam a situação emocionalmente, lamentando que as famílias deles não merecem isso — porque nós temos que nos compadecer dos bullies que iniciaram a porra toda, né?

E digo logo que duvido muito que as “famílias” deles receberiam algum tipo de represália por causa da história. Tá mais com cara de chantagem emocional mesmo.

O que me fode a cabeça é que a mentalidade dos caras é “bah, vocês não entendem nosso refinado senso de humor, então foda-se, somos as vítimas da situação, nossas famííííílias!!!!”, em vez de pedir desculpas genuínas pela shitstorm.

Como vocês podem ver, o problema da falta de limites da zuera é que isso significa que ela pode dar a volta e chegar em você de novo.

[ Update ] O Aaron acaba de me informar pelo twitter que a Kelly Guimont foi demitida do seu emprego por causa da polêmica.

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comments

Categorias: A internet é foda

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

22 Comentários \o/

  1. Yuri says:

    Cada ano está ficando pior..
    Imagino o que 2014 promete.

  2. Daniele says:

    É Izzy, na hora que eu vejo alguém dizendo que é da “zuera” ou “a zuera não tem limites” já sinto uma antipatia…
    Ah, e tb gostaria de comentar que adoro o seu twitter, acompanho direto, mas infelizmente não posso interagir com vc por lá pois meu twitter é trancado ;(
    Sou meio medrosa com essas coisas de buylling na internet, já vi tantos casos no twitter de gente falando uma besteira e ser “descoberto” e escrotizado pela internet toda sem dó…
    Ah, e tenha um Feliz natal para vc e a Bebba!

  3. Bruno Assis says:

    Por isso que, na internet ou na vida, vale a velha máxima: não faça com os outros o que você não gostaria que fizessem com você. Sempre funciona!

  4. IBG says:

    Um texto na véspera de Natal?? Po, Izzy, vc é foda!

    A mensagem de despedida foi patética. Humilham uma pessoa por 30 minutos, mas qualquer consequência é injusta, né? E ainda usam a mesma desculpa que a gente já ouviu milhares de vezes de gente que faz esse tipo de merda.

    Agora to torcendo bastante pro Aaron encontrar um contratante exatamente por causa disso 🙂

  5. IBG says:

    E mais uma outra coisa: estou cansado de gente usando “humor” como escudo pra maltratar quem eles querem.

  6. Elmut says:

    O mais curioso e como os caras que tem tanto tempo de podcast (235 episódios) cometerem uma mancada dessas, e em um programa patrocinado.

  7. Norimaro says:

    Engraçado que gente desse naipe que usa esse tipo de “humor” sempre tem a mesma desculpa. E ultimamente tá sendo pra pessoas formadores de opinião, geralmente esses que são as referências de ideologias estão fazendo a mesma coisa: fazem merda e dizem que quem não entendeu é burro porque é humor.

  8. Z3MF1R4 says:

    Coitado do cara.

  9. O curioso é que este é mais ou menos o argumento padrão dos bullyies -- ops, comediantes -- brasileiros, que esculhambam abertamente com as pessoas por questões claramente risíveis, como opção sexual, política ou etnia, e depois, quando a reação dá as caras, eles respondem com um “ah, gente, foi só uma brincadeira! Que culpa tenho eu se vocês nasceram sem senso de humor?”

  10. Richard says:

    Caraca, muito tempo que não entro aqui… Mudou pra caramba o blog! Mas deixo os parabéns pelo 99 vidas.

  11. Murdock says:

    Há pouco tempo um dos “humoristas” mais famosos do Brasil detonou a maior doadora de leite do país só pela “zuera”. Tipo, chamar a mulher de vaca ou compará-la ao Kid Bengala certamente é humor muito refinado, por isso teve muita gente defendendo o cara. Particularmente acho só babaquice mesmo.

  12. André says:

    Eu vi uma palestra desses cara no Youtube. Eles são bem ignorantes mesmo.

    Engraçado é que eles reclamam no visual do cara, sendo que eles são infinitamente mais escrotos…

  13. Thomas says:

    Não tenho nada contra quem se diz da zuera. Até uso o termo. Acho que isso de ficar com raiva de certo termo ou expressão deve ser tratado, pois isso é a coisa mais normal de se ver na internet. Memes e Menes que vão e voltam e cada vez surgem novos e piores. Já que não posso lutar contra isso, tento me divertir. É obvio que depois de algum tempo meio que vc enjoa de ver sempre as mesmas piadas, ou os mesmos comentários em todos os lugares, mas ai é só questão de tempo até passar. Half-Life 3 Confirmed.

  14. Eluno says:

    Bem feito haha Gente estúpida merece a reclusão.

  15. Jorge Amado says:

    Lembra do texto dos otakus? Izzy, vc foi o precursor da zuera sem limites, especialmente daquela que fala de alguém e depois se esconde por trás do argumento “isso é um texto humorístico”. Admito que não gostava do seu “eu” de 10 anos atrás por causa de textos como aquele, mas agora tu é maneiro.

    • Izzy Nobre says:

      Me desculpe, mas essa é uma comparação estapafúrdia. No texto a que você se refere eu apenas zôo a subcultura otaku, seus estereotipos, e por aí vai.

      Muitíssimo diferente de atacar alguém diretamente e pessoalmente, que foi o que o que essa trupe fez.

  16. Jorge Amado says:

    É, concordo que direcionar a uma pessoa é bem pior, MAS pessoalmente eu achei exageradas as zueiras daquele texto (talvez porque sou um deles? puts).

    Bom, não é como se vc odiasse os otakus simplesmente por ter visto umas coisas deles por aí, ao contrário desses angry mac bastards, e até admito que zoar pessoas/subculturas é às vezes o tipo mais engraçado de comédia. Valeu por responder, de qualquer modo!

    PS: Nem sei se o comentário foi mandado, então to mandando de novo.

  17. Carlos Alberto says:

    Isso me fez lembrar de outra coisa, de uma historia de uma menina que mostrou os peitos pra um cara e depois a foto dela foi parar na internet, começaram a falar mal dela ou “zuar” e depois ela foi mal vista pelas pessoas nas redes sociais e as pessoas da escola dela sabiam disso, no final ela se matou mas antes fez video, nem lembro direito mas acho que fois isso que aconteceu.
    Realmente a internet tem seus podres que podem desde destruir a imagem de uma pessoa ou até fazer alguém cometer suicidio ou coisa ruim que não queremos pra ninguém.

  18. Nailson says:

    Caramba, eles massacraram o cara a toa.

  19. Vinícius Vila says:

    Kid, achei o cast :

    http://www.stitcher.com/podcast/angry-mac-bastards-podcast-feed

    A parte do Aaron começa mais ou menos onde está na imagem. Não tem contador de minutos no player aqui.

    http://imageshack.com/a/img826/5606/oi6g.jpg