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#guinchocam: a prova de que nada une mais a humanidade que a desgraça alheia

Postado em 16 May 2012 Escrito por Izzy Nobre 29 Comentários

Na última segunda feira, eu estava aqui em casa coçando os ovos e pensando em formas criativas de preparar um nissen miojo — recomendo batata palha. Apenas confie em mim e você agradecerá aos céus por te-lo feito — quando averiguei, tristemente, que não havia nissen miojo nas prateleiras da cozinha.

É semana de fazer compras, então nossa dispensa está mais vazia que a sua caixa de mensagens do Facebook (porque ninguém gosta de você). Havia naquele momento em minha geladeira uma garrafa vazia, uma sacola do supermercado, uma tapaué contendo restos de um almoço de 2004 — capaz de você ter algo similar aí na sua geladeira, procure — e um vidro de maionese. Essa era a desculpa perfeita para ir comer alguma porcaria na rua sem preconceitos e sem medo de ser feliz.

Adentro meu veículo automotivo e prossigo em direção ao estabelecimento rápido-gastronômico mais próximo — um McDonalds. Após deliciar-me com aquela carne gordurenta que correntes de email dos anos 90 juravam tratar-se de carne de anelídeos terrestres geneticamente modificados, cambaleei em direção ao meu carro para o triunfal retorno ao meu domicílio.

Ao chegar no estacionamento do condomínio percebo, consternado, que um filho da puta sem costumes de alma sebosa havia parado sua lata velha sobre rodas em minha vaga.

 

Meu amigo querido da internet, chegar na sua vaga e encontra-la ocupada por um carro estranho é análogo a voltar pra casa mais cedo do serviço e dar de cara com sua mulher sendo possuída sexualmente por um homem desconhecido. A sensação de propriedade que um ser humano motorista sente por sua vaga do estacionamento do prédio não está tão distante do apego emocional que o mesmo sente por sua parceira. O nível de indignação é muito aproximado.

“Que empáfia!” berrei enquanto apertava o volante do carro com ódio. Naquele momento todos o meu valioso sangue tipo O negativo se converteu alquimisticamente em fúria destilada. Parei o carro na frente do carro infrator e, sem pestanejar, mandei ver na buzina como se aquilo fosse minha profissão. Quem sabe o filho da puta ouviria a barulheira e viria mover seu carro, sob meu olhar furioso.

Nada. O corno maldito estaria provavelmente dando sua bunda larga nalgum local fora do alcance do meu protesto sônico. Furioso, me sujeitei a maior das indignações: tive que ir parar meu carro no estacionamento dos visitantes.

Este usurpador de vagas me submeteu ao imperdoável ultraje de ter que andar quase 100 metros a mais pra chegar em minha residência. Já no apartamento mas ainda bufando de pura revolta, disquei o número da central de controle de trânsito de Calgary. Prometeram enviar um guincho em no máximo uma hora para resolver meu problema.

E aí veio a idéia.

Diz um ditado meio maquiavélico que “não é suficiente que eu obtenha sucesso; é preciso também que todos os demais falhem”. Parafraseando esta linda filosofia, decidi que guinchar o carro deste criminoso não satisfaria minha alma. Seria preciso transmitir esta vitória do espírito humano ao máximo de pessoas possível. Eu queria que uma platéia presenciasse a justiça divina que estava prestes a cair sobre este grandíssimo patife.

Então, encarapitei meu celular num tripé aqui no escritório, apontei-o na direção do carro, coloquei uma lente telescópica especial pro iPhone que tenho por aqui, e passei a transmitir esta porra na internet. E brinquei que esta era a #guinchocam, “transmitindo ao vivo as imagens de um sujeito prestes a se foder”.

 

Tuitei a hashtag UMA VEZ APENAS. Não pedi que amigos famosos impulsionassem a brincadeira nem nada. Eu não tava tentando virar tendência nem qualquer coisa do tipo, só achei a palavra “GuinchoCam” engraçada. Eu imaginava que em alguns instantes eu e outros 50 malucos veríamos (e riríamos de) um filho duma égua tendo seu carro rebocado.

Com um pouquinho de showmanship (sou, afinal de conta, filho de um ex-pastor evangélico), comecei a narrar a coisa como se fosse um lançamento da NASA — ou seja, com uma empolgação totalmente incompatível com a transmissão de um carro parado num estacionamento.

De repente, o público começou a lotar a parada. De repente, tínhamos mais de MIL malucos vendo a parada e conversando sobre o #guinchocam. Mais que isso, a turma estava tão alucinada pela coisa quanto eu. Não era uma questão de eu estar, sozinho, forçando a barra pra ver se o pessoal comprava o “evento”. A galera entrou de cabeça no espírito da coisa, uma histeria coletiva linda de se ver.

A propósito, a transmissão inteira está aqui, gravada para a posteridade.

Cada berro Datenístico que eu dava em relação às imagens do carro (“…meus amiiiiigos, vocês estão acompanhando um verdadeiro drama da vida real…”) era transcrito no tuíter pelos telespectadores, que estavam ensandecidos. Ganhei, de uma hora pra outra, 100 seguidores.

Era uma coisa linda de se ver. Literalmente centenas de brasileiros, do Oiapoque ao Chuí, com os olhos grudados na tela do computador (e berrando na rede social) por causa da ínfima promessa de que talvez vejam alguém se fodendo.

A parada começou a virar espetáculo. Sem que eu fizesse nenhuma promessa típica de twitcam (“se chegar em 500 eu tiro a roupa!”), a transmissão começou a ficar mais e mais lotada.

Ninguém parecia se importar com o fato de que estavam, a mais de UMA HORA, assistindo um carro parado num estacionamento.

O #guinhocam era um bizarro teste de Rorschach internético. Alguns, suponho, acompanhavam por ver nele a vingança que nunca obtiveram quando estiveram na mesma situação. Outros viam apenas um evento internético do qual eles gostariam de poder dizer que fizeram parte. Mais alguns assistiam a parada prevendo que se tratava de alguma elaborada trollagem. Cada um tinha uma interpretação diferente do evento.

Aliás, isso me lembra um pouco a infame transmissão de rádio de Guerra dos Mundos, do Orson Welles. Um maluco fazendo algo totalmente trivial (lendo uma passagem de um livro na rádio ou mostrando imagens de um carro parado) e uma multidão de espectadores entrando em delírio frenético.

De repente, o escândalo em relação ao evento foi tamanho que a hashtag atingiu o topo dos Trending Topics brasileiros. E além:

 

Foi surreal. De repente me senti no epicentro de um absurdo (e acidental) fenômeno internético.

Quando a hashtag (criada por bobeira, e tuitada apenas UMA VEZ por mim) penetrou os Trending Topics, a turba que já estava ensandecida foi à loucura, festejando essa conquista como se fosse vitória do time no final do campeonato. Chegou a ser estranha a maneira como a turma comprou a briga da vaga do estacionamento e vibrou com as pequenas vitórias ao longo do caminho.

Claro que muitos perceberam, sim, o absurdo que é tanta gente acompanhando um “evento” tão trivial. Alguns chegaram a satirizar dizendo que minha próxima transmissão, um pão embolorando no chão da cozinha, seria ainda mais emocionante. Apesar de muitos apontarem a óbvia monotonia da coisa, os números de acesso apenas aumentavam.

Aí eu decidi levar a coisa um pouco adiante — me prestei a ir “investigar” o carro dirante dos olhos atentos de quase 1500 malucos.

Depois de uma hora e meia de twitcam, com um público cada vez maior, o guincho apareceu.

Manja a reação do pessoal:

E aí veio a decepção.

Por causa de uma tecnicalidade, o filho da puta saiu impune da situação — o número da vaga particular fica no nível do chão, o que graças a uma lei recente impede o guinchamento. A lógica por trás disso é que se estivesse nevando, a marcação da vaga estaria coberta, o motorista hipotético não saberia que se tratava de uma vaga com dono. A lei tem intenção de dar a filhos da puta o benefício da dúvida.

Mas no final das contas, eu não pude reclamar. Participei de um dos eventos mais memoráveis da semana no tuíter e entreti centenas de malucos com nada senão a imagem de um carro parado e minha narração histérica da coisa.

Por que o #guinchocam bombou tanto? Minha teoria favorita é de que nada une e atrai mais a humanidade do que a ruína alheia. A única promessa que fiz para os ilustres telespectadores é que em breve um carro seria guinchado. Na melhor das hipóteses, a recompensa pela paciência de acompanhar a imagem de um carro parado por uma hora e meia seria isso:

E mesmo assim o pessoal assistiu a coisa fielmente, até o final. A idéia da justa vingança contra o infrator filho da puta é uma imagem poderosa, e isso foi o suficiente pra fazer uma tuitcam de um carro estacionado ir bater nas portas dos assuntos mais comentados no tuíter no mundo inteiro.

Que internet maluca essa em que vivemos. A última vez que aprontamos algo parecido, causamos um ataque zumbi na minha cidade.

Vocês adoram uma bagunça, ein? Puta que pariu.

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comments

Categorias: A internet é foda

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

29 Comentários \o/

  1. Rodrigo says:

    Ótimo texto, Izzy.

  2. Kaueh says:

    Passei a tarde dormindo e só vi você comentando depois. ):
    Ao menos o carro não foi guinchado e eu não fiquei mais de uma hora vendo uma tuitecam para depois pedir meu dinheiro de volta.

  3. buvilagran says:

    *Levanta o isqueiro* EU FUI!

  4. Sagaz says:

    vou fazer isso da próxima vez que algum descendente de prestadora de entretenimento erótico noturno parar o carro na frente do portão de garagem aqui de casa. ou seja, amanhã

  5. Murdock says:

    Acho que o tédio da galera junto com a expectativa por um clímax foi que fez o pessoal assistir, além da oportunidade de participar de algo que estava se tornando tão grande, a zoação coletiva. Isso vale uma tese de comunicação, pena que estava na rua e não pude acompanhar!

    Ah sim, desde que eu era criança nos anos 80 que se falava da origem do hambúrguer do McDonalds.

  6. Jotazêr says:

    Sabe Izzy, isso mostra o qual “famoso” você se tornou na web. É tipo aqueles atores da Globo que geram notícias que apenas dizem que o cara cortou cabelo ontem e pintou de preto. A audiência não vem do fato em si, mas sim da pessoa.

  7. tonnydourado says:

    Eu quero ser que nem vc quando eu crescer, cara. Sério mesmo. Exceto pela parte de manipular pirocas de plástico como meio de vida, claro.

  8. Catu says:

    Você não pode mandar fazer e colocar uma placa indicando que a vaga é sua? Ou a convenção do condomínio não permite?

  9. Nathalia says:

    Eu tava esperando o fim do texto no qual você dizia que “infelizmente depois, descobri que era um carro que havia ganhado da patroa e assim meus amiguinhos, eu mandei guinchar meu próprio carro”, mas o texto foi bom de qualquer maneira

  10. Igor P. says:

    Pai, Mãe, tô no print!! Also, Kid, acho justo

  11. Rafael says:

    Você foi averiguar o veículo infrator enquanto descalço?

  12. Rafael says:

    E porra, por que não colocou alt text na última imagem?

  13. César says:

    Porra, Quide, tá andando igual ao Jô Soares.

  14. alencar says:

    eu assisti issae sa pa te ve vc ta igual um teletube

    qnts meses ja ?

  15. Paulo Penante says:

    Ótimo texto, talvez o melhor que ja li aqui no HBD.

  16. Claudinei Costa says:

    Kid, muita semelhança com os 2 minutos de ódio?

    As alt-texts estão muito boas, continue com elas.

  17. Junior says:

    O que mais gostei disso tudo foi isto:

    “Nada. O corno maldito estaria provavelmente dando sua bunda larga nalgum local fora do alcance do meu protesto sônico.”

    Fazia tempo que eu não ria com esse tipo de coisa nos teus textos. Eu tava desatento e o estilo nunca mudou ou você tem tentado ser como nos velhos tempos?

    Tá muito bom, parabéns.

  18. says:

    kid, arrume seu RSS, nao ta funcionando

  19. Eric Draven says:

    Vou começar a fazer as camisetas. #GuinchoCam, eu estive lá.

  20. Filipe Rufino says:

    HUAHAUHAUHAUAHUHUA AONDE EU ESTAVA QUE NÃO PRESENCIEI ISSO? =(

  21. Ótimo texto!

    E nossa, pensei que era a única pessoa no mundo que come miojo com batata palha, kkkk…

  22. Faltou alt-text na última imagem 😛
    E faltou dizer a expectativa que gerou no pessoal, quando você foi checar o carro pessoalmente… bastante gente tava achando que viria a revelação de que o carro era, na verdade, seu, e você tava trollando o tuíter inteiro 😛

  23. @IceVinii says:

    Hahaha, dei vááárias risadas no texto e mais ainda na twitcam.

  24. Bárbara says:

    ADOREI O GIF. Aquela rodopiadinha hipnotiza, sério. Ri demais com o texto, tá de parabéns.

  25. Carlos Filho says:

    Que barriga do caralho!!!!

    Achei que era só eu mesmo ficando barrigudo…

  26. Luke says:

    Eu assisti até quase o final, e realmente percebi o quão desocupado eu era… Hahahahahaha Só foi uma pena que bem na hora que você desceu pra falar com a galera do guincho, por algum motivo o vídeo ficou preto aqui e não exibiu mais nada. Achei até que o iPhone tinha descarregado, e que você acabou dando uma trollada master sem querer na galera! Hahahahaha

    A propósito, se você tuitar só “h”, com certeza você obterá no mínimo uns 100 RTs. Vida de webceleb, fazer o que né! Hahahahaha =P

  27. Ana Claudia says:

    urrando, somente

  28. […] #guinchocam: a prova de que nada une mais a humanidade que a desgraça alheia – o dia que a internet parou pra ver um guincho. […]