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Descoberto um revolucionário método de invulnerabilidade para protestantes da USP

Postado em 9 January 2012 Escrito por Izzy Nobre 7 Comentários

Eu não sou de direita. Não sou de esquerda, aliás. Acho que não tenho a disciplina necessária pra manter uma ideologia — é preciso coerência, que é algo que vocês sabem que eu não tenho. Aliás, ter uma ideologia é como dar uma resposta antes mesmo de saber a pergunta.

Estamos entendidos? Me xinguem de qualque coisa, mas não me venham com rótulos políticos/filosóficos. Se você me chama de “babaca” você tá pelo menos 50% certo (não tenho nenhuma ilusão em relação às minhas diversas falhas de caráter); já “direitista leitor da Veja” passa muito longe da marca.

Como os senhores já devem estar cientes, um vídeo rolou a interwebs hoje. O vídeo mostra um conflito entre PMs e um estudante da faculdade. Roda o VT:

Antes de mais nada, refaço o comentário que fiz no tuíter assim que assisti o vídeo: curiosamente, eu jamais fui atacado pela polícia enquanto estava no trabalho. Jamais. Nem uma vez sequer. Ontem mesmo eu passei oito horas lá no trabalho e vocês nem acreditam na quantidade de policiais que não estava lá me espancando.

A agressão do policial é covarde e é revoltante? Claro que é. Não acho que exista alguém que concorde que um sujeito armado e em clara posição de vantagem física e de autoridade pode dar tapas na cara de alguém que não tem condições de se defender à altura.

Aliás, o momento em que o policial remove a identificação do uniforme é (além de provavelmente ilegal, pelo menos aqui é) um testemunho incontestável sobre a irregularidade do comportamento do sujeito. Não é à toa que o policial já foi afastado.

Mas sabe o que é covarde e revoltante também? Ser assaltado a mão armada quando se volta pra casa às 3 da manhã, tomando um atalho por uma viela mal iluminada e que dá entrada a uma boca de fumo.

O estupro de uma jovem (que, estando levemente bêbada, se aventurou a pegar carona com um desconhecido no meio da noite) também é um ato extremamente revoltante e execrável.

Eu já sei o que você está pensando. NOSSA IZZY PUTA QUE PARIU VOCÊ ESTÁ CULPANDO A VÍTIMA TU É PIOR QUE O DIOGO MAINARDI E O DANIEL FRAGA JUNTOS. Se acalme, respire, não é o caso.

É que eu acredito num negócio chamado “seja cauteloso em situações em que você tem muito a perder”, só isso. Você sabe o que eu faço se eu estou numa situação de possível conflito e um policial me pede algo relativamente razoável — digamos, documentos que me identifiquem? Eu mostro meus documentos a ele.

Não é o fim da democracia. Não é a admissão da completa alienação dos meus direitos humanos básicos. Não é abaixar as calças e cospir na própria mão a fim de lubrificar-se perante a penetração forçada da ditadura.

É uma questão de bom senso. Você sabe o que foi um dos fenômenos mais notáveis do ano de 2011? Vou dar uma dica a vocês.

Depois de um ano marcado por revoluções (e pelas inevitáveis porradarias que insurreições costumam trazer junto), eu imaginaria que o mundo em geral aprendeu uma coisa ou outra sobre como se comportar em relação à polícia.

Não, seu estudante de filosofia maniqueísta do caralho que só sabe ver o mundo em preto e branco — não estou dizendo que você deve se submeter a todos os caprichos do Estado-Polícia. Estou dizendo que, numa situação como aquela, creio que todo mundo teria a ganhar se o sujeito não tivesse antagonizado o policial desnecessariamente.

Sabe o que homens em posição de vantagem física de fazem quando são desafiados? Eles batem em você. Se é pra apanhar, que seja por um bom motivo (digamos, o fim de uma ditadura militar de mais de 30 anos baseada no culto de personalidade de um déspota), não num arroubo de rebeldia sem propósito.

“NÃO VOU MOSTRAR NADA NÃO, MINHA PALAVRA É O SUFICIENTE”. Se sua palavra é tão suficiente para sua identificação como estudante, é uma pena que a faculdade desperdiçou recursos imprimindo sua carteirinha, né?

A gente passou o ano vendo protestante apanhando da polícia e não aprendeu nada com isso…? Sério, qual o propósito do sujeito de recusar-se a provar para o policial que é estudante da faculdade? Novamente, não é uma questão de ser “submisso”; é uma questão de ser pragmático. A polícia — querendo ou não — é uma autoridade, você está no meio de uma situação volátil, e então você decide que a melhor ação a tomar é recusar um pedido de identificação?

Não é que eu seja playboyzinho criado a ovomaltine jogando bola de gude no carpete e telespectador fiel da Rede Globo. É na realidade o pragmático apego um princípio simples que minha mãe me ensinou quando eu tinha 8 anos e comecei a me envolver nas primeiras briguinhas escolares: quando um não quer, dois não brigam.

E naquela situação, me desculpem, mas ambos queriam. O policial queria ser assertivo em relação a sua autoridade (conforme registrado em sua constante repetição “sou policial! Sou policial!”), e o rapaz quis desafiar a autoridade.

A troco de que? Sei lá. Suspeito que nem ele saiba. Independente da sua orientação filosófica, você tem que admitir que não havia muito um motivo pra ele se recusar a mostrar sua identificação à polícia. Fincar o pé contra autoridade, sendo esta a coisa certa a se fazer ou não, tem um resultado bastante previsível.

Eu me pergunto qual teria sido o resultado da situação caso o sujeito tivesse apenas mostrado a carteira de identidade. Nunca saberíamos, porque eu tenho fortes suspeitas de que não seria interessante o bastante pra ter sido capturado em vídeo ou viralizado no tuíter.

O estudante teria admitido o jugo pesado de uma ditadura militar se tivesse aceitado o pedido e mostrado sua identificação…? Ou esse gesto de boa vontade teria defusado o conflito?

Jamais saberemos. O que eu tenho certeza é que, se ele estivesse trabalhando naquele momento, certamente não teríamos visto esse vídeo.

[ Edit ] Como era de se esperar, fui hostilizado com truculência PMística por causa deste texto. As faíscas viram até mesmo de pseudo-intelectuais a quem sempre tratei com cordialidade, veja você.

E o tal rapaz comentou aqui no HBD também. O comentário dele deixa tão patente sua falta de habilidade em interpretar textos que permanecerá aí como registro de sua incapacidade retórica. Veja isso: o cara conclui, demonstrando incrível capacidade de síntese, que eu acho CORRETO o policial bater no moleque. Sim, é exatamente isso que o texto diz. Me esforcei ao máximo pra ilustrar meu apoio ao policial, você acertou em cheio na mensagem.

Começo até a pensar que o Sr. Anônimo apenas leu a chamada sarcástica e a imagem da carteira de trabalho e correu pros comentários antes de sequer ler o texto. Embora isso talvez perdoe sua aparente falta de familiaridade com o debate civilizado, isso infelizmente deixa transparente a sua incapacidade de controlar os primitivos impulsos do seu id.

Tal qual uma criança que ainda não compreendeu as finas nuances da convivênia com outros seres humanos e/ou a habildade motora para evitar aliviar-se nas próprias calças, o companheiro se sentiu tão flagrantemente ofendido que correu em direção aos comentários pra vociferar contra aquele que cometeu o hediondo crime de discordar dele.

Pessoas que encontram-se nesta delicada etapa de desenvolvimento emocional — a fase de sentir-se ameaçado ao encontrar opiniões divergentes, como se algo tão intangível como a opinião de alguém que você sequer conhece fosse a pior ofensa — só conseguem responder de uma forma: o modo homem-das-cavernas deu um override em seus processos cognitivos (creio que ele os detem e que esse lapso de julgamento é atípico) e ele saiu dando patada.

E o pior é que ele apenas ACHA que eu discordei dele. Nem isso exatamente foi — até porque ele não saberia, tendo visto que estou optando pela hipótese de que ele nem leu o texto.

Veja só: quando os chamei de “maniqueístas” no texto, é porque eu já previa que isso acontecia. Parece-me que vocês são tão dependentes de uma narrativa de bem-contra-o-mal que é extremamente necessário, antes de qualquer coisa, identificar o mocinho e o bandido na situação. Vocês estão projetando pro moleque lá uma persona de Paladino da Justiça que acho que nem mesmo ele tem a pretensão de ser.

GUESS FUCKING WHAT: não tem. Estamos no mundo real e aqui o preto e branco geralmente se misturam. Ambos os personagens dessa historinha estão errados. Um abusou da autoridade e o outro hostilizou alguém ao ponto de altercação física.

Desculpem se não consigo ver uma briga entre policial folgado e estudante universitário com entitlement complex como uma batalha universal do Bem contra o Mal. O policial estava meio esquentado, o “estudante” (frequentar uma universidade e estudar não são mutuamente inclusivos) achou uma boa idéia desafia-lo, e deu em merda.

Não apoiar o estudante incondicionalmente não significa que eu esteja 100% a favor da ação policial. Por que eu tou tendo que explicar o conceito de nuances pra uma cambada de adultos?

E vamos parar pelo amor de deus com essa de “o garoto se recusou a mostrar identificação como contraponto à truculência do policial”. Você está me dizendo, em outras palavras, que o rapaz fez aquilo como resposta à imposição inicial do policial. Correto?

Isso é equivalente ao argumento jurídico de “tia mas ele que começou olha lá ele ainda tá fazendo careta pra mim tia!”. Tal recurso não tinha efeito nem no tribunal da terceira série, que dirá no mundo real de adultos. Se sua defesa da atitude do estudante tem a capacidade retórica de uma criança de 10 anos justificando ter jogado o giz de cera na cabeça do coleguinha de sala, você está categoricamente o objetivamente errado.

Como falei lá no começo: quando um não quer, dois não brigam.

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About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

7 Comentários \o/

  1. Roberth Rukaza says:

    Haha! Ri até chorar!
    Não que eu tenha discordado (exatamente pelo contrário), a graça foi ver como pessoas supostamente civilizadas tem coragem de dizer apenas por serem contrariadas!
    Esse tal de Luiz (sei lá, era o nome da imagem), deve na verdade ser um colega universitário que estuda filosofia às custas de seus progenitores, mas emprega todo o tempo hábil de estudo, em algum tipo de bar (ou “butéco”, foda-se!), bebendo mais que seu cérebro suporta, num esforço desesperado de não fazer absolutamente nada de construtivo, por descordar de toda e qualquer coisa que ouça!
    Acho que quando era menor, ele brigava com os professores apenas por estes, sendo um pouco mias despóticos que o de costume, falarem algo que o fez passar vergonha perante todos os amiguinhos!
    Pois é! A vida é assim…tem gente que briga…e gente que não briga.
    Eu não costumava brigar, e até hoje não o faço, mas ainda assim quando era menor a pura frase base “quando um não quer dois não brigam”, me foi acrescida do complemento popular (atualmente é): “…mas um apanha.”
    Não que seja o caso do maconheiro play-boizinho, mas acho que o adendo ainda é válido.

    Mas valeu! Gostei muito do post, pena não ter mais comentários pra eu ter uma base melhor de discurso, mas é a vida…Té mais!

  2. […] algum tempo aqui no HBD eu escrevi um post sobre aquela putaria que tava rolando na USP — estudantes fazendo baderna porque alguns colegas foram presos por fumar maconha nas […]

  3. Ericksonlk says:

    Eu estudei na FFLCH, e infelizmente e vi muito pouca coisa boa por lá, neste quesito… não vou entrar em detalhes mas contar uma cômica situação, não relacionada, apenas para divertir e compatilhar. Havia chovido e um dos meus livros havia molhado um pouco, enquanto aguardava em um departamento para ser atendido, decidi por o livro que estava se desfazendo por efeito da chuva sobre a bancada e aguardar minha vez. Logo depois chegou poutro aluno e pegou o livro e passou a folheá-lo, tentei dizer que ele estava molhado e que cuidasse para não despedaçar as folhas. Sou muito educado, muito mesmo. Mas não pude sequer terminar a minha fala e fui logo repreendido com um discurso, que em resumo me acusava de ser branco, cosmopolita e falar vários idiomas… Fiquei sem reação e minha namorada veio ao meu socorro e me tirou da sala. Ela explicou posteriormente que ele era um mestrando ou doutorando, não lembro, de ciências sociais e que ele era negro. Eu, de fato, nunca teria idéia do que havia acontecido.
    Assim, após ser “ofendido” gratuitamente foi que percebi que na USP muitas pessoas estão muito preocupadas em combater fantasmas.

  4. Igor Moretto says:

    Mas o local é uma repartição pública. Ele não precisaria ser estudante pra estar ali, o que desqualificaria o “argumento” do policial.

  5. Muito bom texto, acompanho o site a dois anos e estou cavocando textos a muito perdidos que vc escreveu anos atras, só quero colocar que é graças a seu site que comecei a escrever eus proprios textos, portanto, obrigado.

  6. Só lí o texto hoje, mais de três anos após a publicação, e veja você, as coisas continuam uma merda por conta dessa necessidade emblemática de ver tudo no preto e branco…
    Essa geração criada a novela de bandido e mocinho parece que só piora, você não pode ser contrário a um ideal sem automaticamente ser a favor da oposição ao mesmo. Tem horas que dá vontade de dar rage quit nessa merda toda.

    Desculpe o desabafo… excelente texto Izzy.

  7. […] lado, essa total desassociação de doutrinas me faz levar chumbo DOS DOIS LADOS. Por textos como este sou chamado de coxinha; já neste, sou acusado de estar na folha de pagamento do PT. Por este […]