Há uns sete ou oito anos, quando eu morava no Brasil e cursava colegial, eu tinha uma rotina matinal consistente – acordar, conectar escondido dialupmente por quinze minutos e baixar mais 3% de alguma música no iMesh, escovar os dentes, comer meus sucrilhos e ligar a TV pra assistir o programa Bandeira Dois.
Pra qualquer pessoa que esteja lendo este relato e tenha a incrível sorte de não morar no Maranhão, eu explico. Bandeira Dois era um programa noticiário maranhense que se resumia a enviar um péssimo entrevistador pra delegacia local e “entrevistar” os elementos recolhidos pela força policial na noite anterior. O sujeito com o microfone tinha tanto talento pra reportagens quanto tinha pra pilotar uma astronave, e os valores de produção do programa sugeriam que ele era editado no Windows Movie Maker num Computador do Milhão cinco minutos antes da veiculação televisiva do episódio do dia. A gama de entrevistados variava desde “bebum arrumando confusão no bar da esquina” e “prostituta excepcionalmente feia (que pode ou não ser um travesti) provocando briga na praça atrás da igreja”, e somado ao fato de que o repórter era absolutamente incapaz de conduzir uma entrevista que fizesse qualquer sentido e não tentava nem esconder que estava se divertindo com a situação dos presos, assistir o programa era um exercício de humor involuntário.
Ou seja, era um programa horrível, seguindo a regra de qualquer coisa produzida no estado do Manhão (Guaraná Jesus, Família Sarney, e eu até corri pra wikipédia pra procurar mais personalidades famosas maranhenses mas adivinha só – não tem mais ninguém. A melhor coisa que sai do Maranhão são aviões e ônibus voltando aos seus estados de origem).
Programas dessa categoria são lugar comum no Nordeste. O Maranhão tinha o seu Bandeira Dois, meu querido Ceará tinha o Barra Pesada (que, comparado aos outros, era uma produção digna de um Emmy), e Pernambuco tem o atualmente célebre Sem Meias Palavras. Antes esses programas ficavam confinados à Região Nordeste do país, hoje em dia a magia do Youtube leva pra todo Brasil as reportagens non-sense que tanto alegravam minhas manhãs.
Não vou linkar o vídeo do Jeremias porque a essa altura do campeonato todas as pessoas que acessam a internet e falam português já viram as presepadas do adorável bêbado vagabundo sem futuro que está processando diversas empresas a quem ele culpa por seus infortúnios. Ao invés disso, darei preferência a um vídeo mais underground, mais alternativo, que estrela o ser humano mais embriagado da história do consumo do álcool.
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=bhdKwwm_Bjc&feature=related[/youtube]
O interessante desse programa é que ele consegue, tão sutilmente, falar tanto sobre o povo brasileiro. Veja que ninguém parece levar a sério as situações deprimentes em que os meliantes se encontram, bem no famoso costume brasileiro de rir das próprias desgraças. Aliás, por que deveriam levar a sério? Esses malandros estão de volta na rua em pouco tempo, e acabam se tornando personagens frequentes no progama sendo presos múltiplas vezes. Todo mundo sabe que a prisão dos caras nada mais é que um passeio de viatura e uma hospedagem no xadrez, pago pelos reais dos contribuintes. E no dia seguinte tá lá de novo, bebendo cachaça no meio da rua (e arrumando confusão em resultado) como se sua vida dependesse disso.
A beleza desse tipo de programa é que ele explora a pior qualidade de seres humanos em seus mais lastimáveis momentos, tudo pro nosso entretenimento e escárnio. Um sujeito que provavelmente nem sabe o que um computador se torna figurinha tarimbada em miríade de fóruns e chats de MSN. Uma verdadeira personalidade virtual.
A internet é de fato uma coisa linda.





Como o Kid pode deixar de fora uma referencia ao video do “velhinho que comeu e não pagou”?
aquilo consegue ser melhor que o Jeremias!
Alborghetti wannabe.
Tipo, as Patricinhas Intercambistas bebem pra cacete, tanto que nem aparecem aqui no HBD.
kid, alguem roubou meu orkut, o QUE EU FAÇO?
é ainda resta um pouco de umanismo em vc falando que isso é um escárnio! estou completamente de acordo!
Aqui em Recife não passa esse Sem Meias Palavras, mas temos o Bronca Pesada. Teve um dia que contou a história de uma “Irmã” que não sabia quem era o pai do filho, porque tinha tido relações com dois “Irmãos” da igreja na mesma época. A mulher contando era muito engraçado, um dos caras ia pegar ela de bicicleta na saída da Igreja e levava ela pro motel depois.
A internet no Brasil é uma beleza… tem um moleque numa cidade do interior de Minas que diziam que é a cara dum wink de MSN…
Sou de Recife e aqui tem o Bronca Pesada nesse mesmo estilo. Eu detesto, mas garanto que tem muita gente que goste.
botou pra foder =P
Kid, és da era do Jano Arley (ou algo assim)?
pelomenos eh melhor do que Globo..
old
Aqui em Pernambuco tem dois desses: Bronca Pesada e um de um cara chamado Cardinot, que um clássico.
Passam no mesmo horario. É foda escolher entre um deles. ;(
kara, kd o jeremias josé??
Zeca Baleiro é maranhense.
Acredite se quiser, meu vizinho era sobrinho do Zeca Baleiro. Ele sempre pegava ingressos grátis pros shows do cara quando ele estava em São Luís.
E a casa dele era REPLETA de posters do cara.
Então viva a internet!
Valeu por por os links do YouTube e os posts completos no feed, não pude agradecer antes pois estava viajando.