A viagem ao Brasil começou da mesma forma como todas as minhas viagens começam – com uma furiosa checagem e rechecagem de todos os pertences eletrônicos que desejo levar comigo.
Sou um viciado em tecnologia E um paranóico em estado clínico de obsessividade-compulsividade. Essa combinação de personalidades revela-se especialmente prejudicante quando estou prestes a viajar – ao mesmo tempo que quero levar o máximo de gadgets possíveis comigo, só descanso quando verifiquei (múltplas vezes) que não estou deixando nenhum techtoy para trás.
A grande ironia – que não deixou de se repetir nesta viagem, aliás – é que eu acabo não usando nada do que trago comigo. O iPhone por exemplo serviu apenas como mp3 player durante os vôos; o PSP saiu da mochila apenas pra ser exibido e manuseado pelos primos que também veneram tecnologia. Os dois controles USB que trouxe comigo, em preparativos pra domar o tédio a bordo das aeronaves por intermédio de emuladores de SNES, ficaram dentro da mochila o tempo inteiro e só vieram pra fora na tradicional checagem e rechecagem do dia da viagem de volta.
Quando digo-vos que sou obsessivo compulsivo e que esse ritual de verificar meus pertences tecnológicos várias vezes antes da empacotagem final é repetido duas ou três vezes, não estou exagerando. Além de todas as minhas incontáveis falhas, tenho a memória equivalente a de um peixinho de aquário. O que acontece muitas vezes é que eu coloco algo X na mochila e, 3 itens mais tarde, esqueço-me de ter já guardado o tal X lá no começo da arrumação. Aí eu penso desesperado, “cadê o X?”. Não encontrando-o em local algum – afinal, ele já está na mochila -, resigno-me a revirar o conteúdo da mesma na cama, até achar o item que eu achava ter esquecido.
E o pior, isso se repete duas ou três vezes durante o processo de fazer as malas. É um ritual enlouquecedor.
Aliás, escrevo este texto incerto de onde coloquei o carregador do PSP. E não tou fazendo piadinha não, realmente não lembro de ter colocado na mochila.
O plano originalmente era escrever um pequeno diário de bordo, com entradas de um ou dois pequenos parágrafos, pra não esquecer detalhes sobre a viagem. Como minha estadia no Brasil foi muito corrida (eu saía de casa às 8 da manhã, ia a 3 ou 4 lugares diferentes por dia, voltava pra casa às 3 da matina, completamente exausto), não sobrou tempo ou paciência pra registrar os eventos. Meu diário de bordo acabou tendo apenas uma entrada, escrito durante o vôo Calgary-Toronto:
Março, dia 10
Chegamos no aeroporto com duas horas de antecedência, conforme aconselhado. Não serviu pra muita coisa, já que o nosso vôo atrasou quase uma hora e meia. Deveríamos chegar em Toronto às 9:57 e embarcar pra São Paulo às 11 da noite. Duvido muito que pegaremos aquele vôo. Capaz de passarmos a noite em Toronto.
Pelo menos será pela conta da Air Canada. Só espero que consertem todos os vôos direitinho.

No ar, em direção a Toronto
Expliquei melhor a história através do twitter. A namorada e eu embarcamos em Calgary com destino a Toronto no dia 10 de março, de onde pegaríamos um vôo pra São Paulo. Só há um vôo Toronto-São Paulo por dia, e como nosso avião ficou mais de uma hora no chão em Calgary, acabamos perdendo o vôo pra pátria-mãe.
Desci do avião encarando o relógio e dizendo pra mim mesmo “não vai dar tempo. Essa porra desse avião já saiu faz tempo“. Não deu outra – havíamos perdido o vôo.
Uma atendente da AirCanada (que coincidente é a madrinha do meu irmão canadense) se desculpou e passou a procurar no seu computador uma forma de nos acomodar num hotel das redondezas naquela noite, e num avião com destino ao Brasil no dia seguinte. “Lá se vai um dia das minhas férias”, pensei irritadíssimo.
A notícia seguinte foi ainda pior. Meio envergonhada, a atendente explicou que não haveria vôo pro Brasil no dia seguinte, dia 11. Ou seja, só poderíamos embarcar dia 12. Eu perderia então DOIS dias da porra das minhas férias.
A essa altura, eu já estava literalmente bufando de raiva. A namorada do meu lado tentava me abraçar e me acalmar, mas isso não funciona comigo – quando estou com muita raiva, os afagos dela me tornam ainda mais revoltado. Vai entender.
Me afastei da menina, pra não acabar explodindo pra cima dela. Nisso a atendente nos entrega dois vouchers, que são cupons pra uso em hotéis da vizinhança pra servir viajantes fodidos pela incompetência da linha aérea. Os cupons cobriam duas noites num Sheraton das proximidades, e a alimentação no restaurante do hotel. Nada mau, mas no momento eu não queria saber de Sheratons ou de restaurantes – eu estava absolutamente revoltado por estar perdendo tempo com minha família.
A atendente não queria nos deixar esperando por um táxi e se prontificou pra nos deixar no hotel ela mesma. Bateu ponto e foi nos deixar no hotel, passando por um Burger King no caminho e nos comprando um jantar por cortesia da AirCanada. Eram umas 11 da noite a esta altura.
Chegamos no nosso quarto e eu despenquei na cadeira, completamente desconsolado. Liguei o netbook, conectei no wifi do hotel e fui chorar pitangas pros meus amiguinhos que estivessem conectados no momento.

A namorada, por outro lado, viu potencial no nosso breve desvio. A menina sacou o telefone do bolso e começou a ligar pra todos os nossos velhos amigos de Oshawa, que não esperavam nossa presença e se atiçaram todos pra virem nos visitar no hotel. Na manhã seguinte a Jen aparece no nosso quarto, animadíssima, com planos de nos levar pra Oshawa pra tomarmos umas em compania de velhos conhecidos que não víamos há mais de um ano. A turma parecia tão feliz em nos ver que me senti culpado por amaldiçoar a passagem por Ontario.
Mas a irritação de perder dias da minha viagem ainda mordiscava minha mente. No carro da Jen, a caminho de Oshawa, liguei pro atendimento internacional da TAM. Eu estava crente que eles não moveriam uma palha pra remarcar o dia do vôo de volta e assim estender minha viagem, já que o erro tinha sido da AirCanada e não deles. Pra minha surpresa, o atendimento foi excelente e a mulé que tratou do meu caso estendeu minha viagem sem pestanejar, acomodando os dias perdidos pelo vacilo da AirCanada. Embolsei o celular, dessa vez com um sorriso no rosto (o primeiro em mais de 24 horas).
E pude, então, aproveitar a compania dos velhos amigos tranquilo.

Becca e a irmã Jess, a quem ela não via há mais de um ano
Dois dias depois, fizemos check-out no hotel, nos despedimos dos amigos com lágrimas nos olhos, e fomos ao Pearson International Airport, em Toronto. Eram umas 6 da noite, nosso vôo sairia às 11 se não me engano. Paranóico que sou, preferi sair de Oshawa o mais cedo possível, pra compensar qualquer contratempo.

Eu, em direção ao salão de embarque do aeroporto em Toronto
Chegamos no aeroporto com bastante tempo de sobra. Como não havia nada a fazer mesmo, preferi fazer logo o check-in e matar tempo já no salão de embarque. Me acomodei nas cadeiras bem ao lado do nosso portão e, com três horas pela frente, liguei o netbook e fiquei jogando Super Mario World por uma meia hora, até a namorada (que havia desaparecido temporariamente) depositar uma sacola de papel marrom na cadeira ao meu lado.
Pausei o jogo pra investigar o conteúdo do saco misterioso – um cheeseburger com fritas, acompanhados de um copo de Sprite que ela trazia na mão com um sorriso no rosto. A menina havia tomado nota de minhas menções de fome durante a viagem de Oshawa pra Toronto, e aproveitou o momento de ociosidade pra ir me providenciar um lanche. É por essas e outras que vou casar com essa menina.
(Sim, noivamos durante a viagem. Depois de 5 anos de namoro e 2 anos morando junto, já estavam ficando sem desculpas pra enrolar a coitada.)
Entre uma mordida no cheeseburger aqui e outra ali, passei a observar a galera ao nosso redor, no portão de embarque. Alguns eram obviamente gringos deslumbrados com a idéia de estarem a poucas horas do paraíso tropical que é nosso país. A maioria, no entanto, era formada por brasileiros intercambistas voltando ao Brasil deslumbrados com a recente e breve estadia no Canadá. Você sabe, é aquele tipinho que passa um mês fora, e volta pro Brasil soltando expressões em inglês “sem querer”, simulando em seguida embaraçamento e se desculpando pela força do hábito.
O mesmo tipinho que, quando esteve aqui, passou o tempo inteiro se relacionando exclusivamente com outros intercambistas e usando português durante 98% do tempo.
(Como você deve ter notado, tenho ojeriza a intercambistas)
Ri mentalmente da curiosa dicotomia, tomando nota mental de menciona-la neste exato post. Mais ou menos uma hora mais tarde, começamos a embarcar. E aí aconteceu um dos negócios mais legais da viagem.
Por causa do vacilo da AirCanada, nossas passagens foram upgradeadas gratuitamente pra primeira classe. Como você deve saber, o embarque dos mais endinheirados é feito primeiro. A mulherzinha do auto-falante avisa que no momento o embarque começará, mas que os detentores de passagens de primeira classe vão primeiro.
Nisso eu e a namorada nos levantamos com nossas tralhas pra nos dirigir à fila. Nesses momentos econômicos difíceis, é compreensível que não tantas pessoas possam pagar os quase 5 mil dólares de um bilhete de primeira classe. Por isso, apenas três outros passageiros se dirigiram à fila conosco – um sujeito bem vestido que era obviamente algum executivo endinheirado, um maluco gordinho e mal vestido que tinha cara de jogador de poker profissional, e uma loira estonteante com um vestidinho azul claro que era ou atriz pornô, ou stripper, ou prostituta de luxo.
Os olhares do resto da galera na nossa direção traziam um misto de admiração e despeito. Os mesmos olhares se repetiram quando já estávamos acomodados em nossos assentos na primeira classe, e os pé-rapados passavam pela gente no seu caminho em direção às suas latas de sardinha na traseira do avião.

First class, bitch
Eu notei que o clima na primeira classe seria diferente de qualquer outra coisa que já experimentei na vida quando as aeromoças passaram nos distribuindo CHAMPAGNE. Embaixo do assento (que era totalmente automatizado e se reclinava completamente, permitindo sono de verdade durante o vôo) havia uma malinha de plástico com roupão, pantufas, máscaras de sono, lençol de lã, escova de dentes, absorvente feminino, aspirina, enfim, um monte de mimos. À nossa frente, uma telinha de TV com controles digitais, e uma porrada de canais de filmes e o caralho.

Living the dream
Obviamente, eu estava pouco me lixando pra programação pré-definida de vôo, uma vez que eu trazia aproximadamente cinquenta filmes no meu fiel companheiro de viagens, o Acer Aspire One:

Chupem, pobres
A única desvantagem é que os cubículos são separados individualmente. Há uma pequena divisória que pode ser retraída parcialmente pra permitir bate-papo entre companheiros de viagem, mas a abertura não era grande o bastante pra permitir que, por exemplo, recém-noivos dormissem abraçadinhos. Fazer o que, não se pode ganhar todas.
O vôo passou bem mais rápido do que eu antecipava, uma benção garantida pela poltrona que ficava perfeitamente paralela com o chão. Assisti uns dois episódios de How I Met Your Mother até que o cansaço das estripulias com os amigos de Oshawa me forçasse a pregar os olhos.
Quando acordei, estávamos a poucos minutos de pousar em Guarulhos, São Paulo. A primeira vez em 6 anos que eu poria os pés em solo brasileiro.
To be continued





@opivm
não to não. veja os top 5 post mais lidos do kid e verá que nenhum é específico da vida dele. todos tratam de assuntos polêmicos.
Provavelmente a vida pessoal do kid é o tipo de coisa que atrai os leitores mais fiéis, mas não o público em geral.
GLERA FICA XINGANDO OS CARAS IGUAL O KID FAZ. SE ESQUECEM Q NO BR TEM QUE SER DIFERENTE. E LEMBRE-SE QE ELE SOH PEGA ESSA LOIRA ESTRANHA PORQUE A BELESA DELE FOI CONSIDERADA EXOTICA. OK
BJOS
Kid é um belo exótico ou um exótico belo? Eu ri…
“Chupem, Pobres”
Há.
Kid viado, vai morrer de tanto Acer Aspire One no cú!
@izzynobre "becca e a irmã jess" http://tinyurl.com/crn492 alucinação coletiva o-o
[...] Logo em seguida, postei um longo dossiê documentando a ida ao Brasil. Cheio de fotinhas e tal, bem do jeito que vocês gostam. E olha só – são fotos que mostram [...]