Antes que eu publique um mega-dossiê para meus caros amiguinhos brasileiros detalhando minuciosamente o meu retorno às terras brasileiras, é necessário relatar uma história engraçada que aconteceu durante o embarque de volta à Canadalândia. É uma linda história sobre tradicional falta de educação brasileira, e sobre não se acanhar e dizer pra uma pessoa mal educada exatamente aquilo que ela precisa ouvir.
E, melhor ainda, diante de uma platéia. Foi um acontecimento tão fenomenalmente satisfatório que, mal passados dois segundos de seu término, o primeiro pensamento que me veio à mente foi “TENHO QUE ESCREVER SOBRE ISSO”.
Aprume-se na cadeira, você está a um clique de distância de ler a minha historinha.
Tudo começou na Área D (ou Ala D, ou Saguão D, ou seja lá como se chama o local) do Aeroporto Internacional de Guarulhos. Eu já havia comido meu McDonalds absurdamente caro (29 reais pra um lanchinho pra dois? Não é à toa que comer em McDonalds é coisa de playboy aí no Brasil), já tinha passado pelas lojinhas de souvenirs, já havia comprado minha revista SuperInteressante pro vôo. Quando decidi que já tinha feito tudo que precisava fazer em solo brasileiro, me dirigi com a noiva pra área de embarque, e de lá em direção ao portão 26, de volta à pátria amada.
(Me perdoem a honestidade mas o que eu amo no Brasil é só a família mermo. E os ufanistas de plantão vão logo tomar no cu com seu discursinho de esquerdista USA-hater filhinho de papai com Nike no pé, Xbox 360 na sala, laptop Dell na mesa e iPod no bolso.)
Enquanto removo nossas bagagens do carrinho e me posiciono na fila de embarque, noto a aproximação de duas mulheres. Uma dela, aparentemente no final de seus trinta e tantos anos de idade, de cabelo levemente loiro à altura dos ombros. Trajava uma blusa vermelha que lhe conferirá a alcunha de Puta Vermelha, já que eu infelizmente não sei o nome da biscate (uma pena, pois adoraria injuria-la aqui no HBD diante de milhares). Sua amiga, tão parecida era que poderia até ser uma irmã, usava uma blusa branca e como se tratou de uma pessoa de mais educação, será identificada como A De Branco.
A Puta Vermelha se aproximava da fila afobada, falando alto no celular e gesticulando nervosamente pr’A De Branco, que atrasava o passo atrás da amiga tentando equilibrar duas mochilas nos ombros. Feche os olhos e imagine essa cena por um segundo.
No celular, a Puta Vermelha explicava a um interlocutor invisível que ela estava atrasada, e que o seu vôo estava na última chamada, e que por isso “falo contigo mais tarde e tchau e beijo e boa sorte e manda um abraço pra Suzana”. Quem será Suzana, meu deus.
(A última chamada, aos desorientados, é exatamente aquilo que você imaginou – a galera da compania aérea segura o avião no chão por algum tempo além do período determinado pra decolagem, à espera da turma que acordou tarde ou perdeu a carona.)
Nisso começou a malícia.
A Puta Vermelha chegou chegando pertinho da fila, como quem não quer nada, tentando penetra-la por osmose. Aquele jeitinho clássico de quem tá esperando uma boa oportunidade pra furar a fila. Sabe como é a situação, né? Você já deve ter visto, ou até mesmo sido o responsável por tal afronta, pois aposto aqui que você é um filho da puta também.
“Aqui não, violão”, pensei com meu botão no saguão enquanto dava um safanão de antemão na namorada pela mão (imaginem-me verbalizando esta frase em ritmo de rap). Me posicionei entre a Puta Vermelha e o local onde a fila afunilava pra se comportar dentro das faixas. Dei uma olhada pro lado da Puta Vermelha, que tentava fingir que não havia ficado completamente revoltada com minha manobra de precisão cirúrgica. Ela se resignou a cortar a fila logo atrás da gente, na frente de uma turminha sem moral que aparentemente não detectou a fuleragem da Puta Vermelha a tempo de intercepta-la.
A namorada me pergunta por que apressei-a a entrar nas faixas. Respondo dizendo que não iria deixar essas espertinhas cortarem na nossa frente. Ela riu e me plantou um beijinho canadense bem ruidoso na testa.
A fila caminha a passos de lesma. Nisso o telefone da Puta Vermelha toca novamente. Agora já completamente impaciente, ela explica de novo (pra outro ouvinte, talvez?) que estava prestes a perder o vôo, que já estava na última chamada. E ela adiciona que não estaria em situação tão complicada…
“…SE NÃO FOSSE ESSE AMERICANO FILHO DA PUTA NA NOSSA FRENTE”. Sim, ela falou isso mesmo, em tom que convidava a fila inteira a ouvir e quiçá concordar com ela.
(Nota – a memória me falha, é possível que ela tenha me chamado de babaca e não de filho da puta. Compromisso jornalístico é isso aí)
Foi a deixa! Eu já havia detectado no arzinho de impaciência dela – que começou a ser emanado no momento que puxei a namorada pela mão executando minha acrobacia tranca-fila – que uma confrontação direta seria inevitável. Eu estava como que sobre uma mola, só esperando o momento de disparar. E, os deuses nos abençoem, aconteceu.
Virei-me pra trás. Com o ar tranquilo e cordial, falei em bom tom:
“Sou gringo não. E não vou atrasar o meu embarque por sua causa. Da próxima vez, chegue no horário pra não ter que ficar colocando a culpa do negócio nos outros” e sorri. Sorri mostrando os dentes, um sorriso muitíssimo filho da puta, sorriso daquele que sente prazer infindável, como se minha própria alma acabasse de receber um boquete.
A mulher fez uma cara como se eu tivesse afrouxado o cinto, puxado a piroca pra fora e dado com ela um tapa na sua cara enquanto todos os seus familiares, conhecidos e colegas de trabalho assistiam tal desmoralização. Surpresa e envergonhada por ter sido pega em flagrante no mais vil ato de ofender alguém pelas costas (figurativamente, já que ela achava que o xingamento passaria incompreendido, e literalmente, porque ela estava atrás da gente na fila), ela fez pose de inconformação. Tirou o celular da orelha e falou, dirigindo-se diretamente – e tome pleonasmo! – a mim:
“Errr… Logo se vê! Tinha que ser brasileiro mesmo! Mal educado desse jeito só podia ser brasileiro! Babaca!” bufou ela, indignadíssima e em alto volume. Arrumador de encrenca gosta de platéia (isso explica o HBD, aliás).
O primeiro instinto foi perguntar “…e você nasceu onde, retardada?”, mas aí percebi na velocidade da luz que eu, mesmo sendo brasileiro, já cometi o paradoxo de atribuir más qualidades a nossos compatriotas, como quem diz de forma subentendida “…mas EU não sou assim!”
Ao invés disso, disse algo milhares de vezes melhor. Disse algo que me permitiu dar replay do evento na minha cabeça sentindo orgulho de mim mesmo.
Num arroubo de presença de espírito (não sou geralmente tão belicoso ou ousado), virei-me novamente à Puta Vermelha. Um olhar de soslaio À De Branco me informou que ela se mostrava relativamente passiva à putaria que sua amiga escandalosa tocava.
Vale lembrar neste momento, pra temperar melhor ainda a história, que a essa altura uma considerável parcela da fila nos dedicava sua atenção. A turma sentiu o cheiro de treta no ar e já tava de olho pra ver o que estava rolando, provavelmente desejando em segredo ver uma troca de tapas.
Então, onde eu estava mesmo? Ah sim – me virei pra trás de novo e vi que A De Branco se mostrava quieta e observativa, enquanto a sua amiguinha Puta Vermelha estava mais vermelha ainda, revoltada e pronta pra armar barraco. Ao nosso redor, a fila que serpenteava no saguão de embarque nos observava. O palco estava armado. E depois da segunda afronta dela, eu tinha que impôr minha moral. Estava no ponto sem retorno. Disse, confiante:
“E a senhora, minha amiga? Quer algo mais brasileiro que deixar tudo pra última hora, atrasar a vida da galera do seu vôo, tentar furar a fila na cara de pau e ainda se achar dona da razão, pondo a culpa do negócio nos outros, armando barraco sem motivo, gritando palavrão no meio de criança e tudo – estendi o braço em direção a uma família na nossa frente -, e me xingando na corvadia por achar que eu não entenderia português? Cê não tá mais na favela não, senhora”.
Ahhh, meus amigos! Aquela acusaçao indireta e improvisada de que minha interlocutora era habitante de comunidade de baixo orçamento e possivelmente dividia domicílio com elementos da fauna criminal paulista foi a cereja no topo de da ofensa. Tendo dito tudo aquilo, me virei de volta pra namorada, já me sentindo vingado e satisfeito.
A Puta Vermelha vacilou na resposta, certamente não esperava que alguém desse uma resposta à altura do seu “brasileiro é tudo uma merda, menos eu” que ela provavelmente julgava ser uma retórica infalível.
Uma voz cortou o silêncio, sussurando em forte sotaque carioca “Caraio, maluco ishculachou a mulé.” Um “ela podia ter ficado sem ouvir essa, viu” veio em resposta, engatado a risos abafados.
Nisso a Puta Vermelha achou as palavras pra retorquir. Me xingou de um bocado de coisa, enquanto eu abraçava a namorada por trás e lhe plantava uns beijinhos no pescoço, como se a encrenca não fosse minha. Os anos de semear discórdia me ensinaram que em determinado momento, é preciso deixar o oponente se estribuchando enquanto você finge que não está nem aí. O sujeito se desespera por não estar conseguindo te atingir, e nisso começa a pisar na bola mais ainda, e passa a apelar. É no momento do apelo do oponente que sua vitória fica cimentada perante a platéia, já que como reza o ditado popular, “apelou, perdeu”.
Permaneci calado e dando cafuné na noiva enquanto a mulher bufava logo atrás de mim. Era melhor ficar completamente calado e sair por cima, já que eu já tinha dado um xeque-mate nela. Se tentasse estender a alopração, era capaz de errar na dose e falar merda.
Incapaz de vencer no front original, a Puta Vermelha mudou de estratégia – apontou pra aliança no meu dedo.
“Brasileiro pé-rapado casa com americana, ganha green card e fica se achando o rei do gado!” vociferou a mulé, tentando me arrastar pra mais um round por meio de golpe rasteiro.
Virei pra ela com outro sorriso aberto. Levantei a mão mostrando a aliança e falei:
“Mão direita é noivado, sua burra, e ela não é americana. Quando a conheci já morava legalmente no Canadá fazia tempo. Fica calada aí por gentileza, cê tá tumultuando o negócio aqui com essas suas jumentices.”
Sim, falei mesmo “jumentice” em pleno aeroporto de Guarulhos, pro deleite de meus conterrâneos que estejam lendo este relato.
Dessa vez as risadas foram mais audíveis, confirmando que a mulher estava perfeitamente e completamente ownada.
E impressionante ela ficou calada. Ou melhor, totalmente calada não, mas passou a apenas sussurrar impropérios pra amiga, ao invés de dirigi-los a mim. Nunca me senti tão vitorioso na vida.
Mal terminei de falar isso e notei que os atendentes do aeroporto haviam aberto outra máquina de raio X – pra acelerar a fila ou apenas separar os brigões, jamais saberei. Mas a urgência deles de me tirar da fila parecia grande. Apressei o passo, dei boa noite aos seguranças, submeti minhas malas à vistoria eletrônica.
Com o rabo dos olhos vi que a Puta Vermelha havia retomado à pose de ofendida, e havia se aproximado a um agente da Polícia Federal que estava observando os embarcantes. Não dava pra ouvir o que ela tava falando pro cara, mas o dedo em riste na minha direção e a expressão facial não deixava dúvidas.
O tira olhou pra mim, olhou pra Becca, e em seguida se virou pra Puta Vermelha e fez aquele gesto dismissivo com a mão, como quem diz “sai daqui, sua maluca”. A expressão dele de indiferença me disse que a última coisa que o cara queria naquele momento é engrossar pro lado de cidadão canadense por causa de perua escandalosa que estava atrasando vôo dos outros. Peguei minha mochila da esteira da máquina de raio X e a vi voltando pra fila completamente desmoralizada. E pior, enquanto ela havia perdido tempo pra me delatar pra PF, a turma que vinha atrás dela se adiantou e passou pelo raio X na sua frente. E era uma turma imensa, talvez um grupo de excursão? Sei lá. Só sei que a infeliz ficou ainda mais atrasada.
Dei adeus ao solo brasileiro me sentindo completamente realizado e feliz.





Kid, você é um cara escroto!. Por isso sou seu fã.
Abri um blog que chegou a mil visitações diárias, mas hoje cancelei ele. Ainda não aprendi a lidar com chingamentos provenientes de otários de baixo calão.
Você contornou essa situação com maestria. Meu herói!!..
abraço.
(propaganda removida – vá tomar no cu, spammer desgraçado)
Fazia milênios que não pintava por aqui, mas tenho que reconhecer que essa foi de mestre, bicho.
Abraço.
OWNED!
Só Jesus! auehuahea
http://hbdia.com/wordpress/2009/04/03/o-retorno-ao-canada-prologo/ EPIC POST IS EPIC
[...] deliciei os leitores com o conto da Puta Vermelha, uma desgraçada que eu tive o imenso prazer de esculachar em público no meio do saguão de embarque do aeroporto de Guarulhos. Foi o tipo de coisa que se desenrola tão perfeitamente que só acontece uma vez na [...]
Não vejo a hora de sair do Brasil por essas e outras. USA AI VOU EU!
…Cê não tá mais na favela não, senhora”.
AI
QUE
OWNED
Devia ter saido do Brasil gritando “For The Lulz”
São ações gloriosas como essas que nos distinguem dos animais.
Caraleo, velho… a partir de agora tenho mais um ídolo na Terra
O blog ja estava na aba de favoritos, depois dessa então, nunca sairá.
Ownou lindamente izzy auhauhauhauh
Nossa! queria ter esse seu poder de ownação.
esse foi o texto mais vitorioso que já li aqui no blog! euihosiejje
Porra, genial.