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Sobre viajar com malas

Postado em 10 March 2012 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Estou com uma viagem ao Brasil marcada pro dia 26 de março, para comparecer a este fenomenal evento aqui. Como é de costume, há todo um ritual pré-viagem:

  • Baixar os quadrinhos que planejo ler há anos (não me encha o saco, eu compro mais quadrinhos do que baixo — e quase sempre compro os que baixo também);
  • Averiguar que os abandonwares do netbook (que em geral requerem algumas gambiarragens para funcionar em sistemas operacionais mais recentes) estão todos funcionando de boa;
  • Lamentar o fato de que não posso acessar Netflix (ou a própria internet pra ser sincero) durante o vôo. Estamos ou não vivendo no futuro profetizado pelos Jetsons, caralho?;
  • Entrar em contato com amigos de Fortaleza pra avisa-los de meu iminente e triunfal retorno à pátria-mãe;
  • Comentar no tuíter que sempre viajo portando apenas uma mochila, não importa o destino ou duração da viagem.

Curiosamente, este último item do meu pre-flight check sempre causa consternação entre esta pequena nação de pessoas que me segue no tuíter. Aliás, sabia que há mais de vocês do que há habitantes na orgulhosa República de Palau? Bem que podíamos começar uma religião ou um partido político né? Enfim.

Sempre que menciono que não gosto de viajar com malas, aparecem dúzias de colegas internautas para questionar essa decisão/escrotiza-la abertamente e sem medo de ser feliz. Alguns parecem não compreender de forma alguma o que levaria um ser humano a abdicar de praticamente tudo que possui durante uma viagem, optando apenas pelos pertences que cabem numa minúscula mochila.

E eu me sinto feliz por vocês, porque tal dúvida indica que vocês nunca tiveram que passar pelo desesperador processo de viajar para o exterior.

“PFFF QUIDE EU FUI PRA ORLANDO QUANDO EU TINHA 12 ANOS E ADOREEEEI…”

Não. Pare. Não comece com esse tipo de argumento. Primeiro que muitas coisas que gostávamos quando éramos mais novos eram uma merda, a gente apenas não tinha noção disso (vide Limp Bizkit). Viajar de avião quando você é moleque, por exemplo, é pura alegria e aventura e motivo para se gabar pros amiguinhos da escola quando você retorna. Essa é a melhor época pra viajar de avião, alias: é o único momento em toda a sua vida em que você pode confortavelmente dormir numa potrona de avião.

O que você considera uma viagem longa? 10 horas? 15 horas? VINTE HORAS? Observe o tipo de tortura a que tenho que me sujeitar quando vou ao Brasil: VINTE E OITO HORAS. Ou “vinte oito horas”, eu não conheço as regrinhas em relação a números porque, honestamente, eu sou muito burro.

28 horas, mano. O motivo da viagem tão longa é o seguinte itinerário:

 

Primeiro eu saio de Calgary, que é meio que um interior-cidade grande (tipo Campinas porém sem a baitolagem galopante que dá a fama internacional ao município). Pousamos em Houston pra trocar de “aeronave”, que é um termo que eu adoro e que infelizmente não consigo colocar em mais textos. “Aeronave”.

De lá seguimos rumo a São Paulo, esta grande metrópole brasileira a quem Tiririca deve sua carreira política estelar. Note que São Paulo fica muito  ao sul do meu destino final; isso significa que desperdiço aproximadamente OITO HORAS voando até Guarulhos (e perambulando sem rumo no aeroporto) e depois seguindo rumo a Fortaleza.

Você não tem idéia da profunda agonia que assola a mente de um indivíduo que faz tal traslado. 28 horas enfiado numa aerolata de sardinha, rodeado por estranhos, tentando espremer o máximo de vida de bateria de cada um dos meus gadgets (o que significa telas obscurecidas ao ponto do meu iPad se tornar indistinguível de um tablet desligado). Quando finalmente desço em Guarulhos e penso “amaldiçoados sejam os corintianos que perambulam por esta cidade, ainda tenho mais quatro horas de vôo!”, ua tristeza profunda toma conta da minha alma.

Felizmente existem estabelecimentos no aeroporto que apaziguam meus ânimos por intermédio de uma coxinha de preço exorbitante e uma latinha de guaraná antártica que, de acordo com emails confiáveis que recebi nos anos 90, servem como mictório de ratos quando o garçom não está olhando.

Do que diabos eu estava falando mesmo? Ah sim, as malas.

A mala é a parte mais chata de uma viagem (não é a toa que o substantivo virou sinônimo pra “pessoa inconveniente”). É aquele trambolho que você precisa ficar carregando de um lado pro outro feito o filho do primeiro casamento da sua esposa. Ninguém gosta de malas.

Ter que viajar de mala já é um suplício. Viajar de mala passando por 4 aeroportos e 3 alfândegas é ainda mais desgracístico. Ter que repetidamente pegar e redespachar a parada, passar a viagem inteira achando que seus pertences serão extraviados (como exercício mental, pronuncie a palavra como se estivesse dizendo “extra: viado”), é uma merda.

Por isso desde 2009, quando comecei uma tradição de visitar o Brasil todo ano, decidi que sempre levaria apenas uma mochila. Jogo a mochila no ombro, entro no avião, cabou. Isso reduz em 94% a encheção de saco e preocupação de uma viagem — 60% desta cifra sendo composta pela desculpa embutida “foi mal cara, não posso trazer o amplificador de guitarra que você me pediu, tou trazendo só uma mochila!”

Colegas que moram no exterior sabem que suas vindas para o Brasil dão início à temporada de “amigos sumidos há décadas aparecendo do nada no MSN implorando por muamba”. Traria tudo que pudesse, se isso não fosse um desgaste desnecessário e uma encheção de saco na hora de preencher a declaração da aduana.

Ah, tem isso também: trazendo apenas uma mochila, nenhum fiscal de nenhuma alfândega te enche o saco. Eles olham pra você com o mesmo desgosto de um pescador que acaba de capturar uma única sardinha de 50 gramas e, como tal, deixam-no ir embora sem te importunar.

Além disso, viajar com apenas uma mochila é uma experiência zen budista — isso te obriga a abrir mão de todos os supérfluos da vida contemporânea e se ater apenas ao essencial. Cuecas? Não, permitirei à minha piroca a mesma liberdade de “ir e vir” que eu desfruto de acordo com a constituição brasileira. Escova de dente? Desnecessária; os maus espíritos que causam cáries não me acompanharão até o Brasil. E assim você vai reduzindo sua carga ao mínimo necessário, e sobra bastante espaço pros gadgets e seus devidos carregadores.

Recomendo a todos a viajar apenas de mochila. Não discuta comigo, é a melhor e mais inteligente forma de viajar.

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Categorias: Brasil 2012

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)