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O assustador mundo das abelhas

Postado em 4 October 2014 Escrito por Izzy Nobre 17 Comentários

Abelhas.

640266 / Insect - Honney Bee

Mas pra você entender como chegamos neste assunto, e assim talvez ter um insight melhor da imprevisibilidade da minha cabeça perturbada, compreenda que tudo isso começou… nas Filipinas.

Nas Filipinas.

Há uma comunidade grande de filipinos em Calgary, sei lá porque. A principal língua deles é o tagalog; a despeito disso, menos de 30% do país fala Tagalog, tamanho é o número de outros dialetos por lá. Aliás, fica aqui uma curiosidade: a maioria dos meus colegas de trabalho são asiáticos/africanos, e eles acham estranho que o Brasil tenha apenas uma língua oficial.

Aparentemente, países com múltiplos idiomas são muito mais comuns que o contrário. Muitos duvidaram de mim, aliás: tive que mostrar pros caras na wikipédia e tudo. Todo mundo com quem eu trabalho fala PELO MENOS 3 línguas fluentemente.

Então, eu estou aprendendo algumas palavrinhas em tagalog. Há muita influência espanhola na sociedade filipina, por motivos óbvios — apesar dos portugueses terem chegado lá primeiro, os portugas não manjam muito de realmente tomar de conta das paradas (aí embaixo mesmo eles só ficaram com o Brasil); a coroa espanhola é que acabou fincando uma bandeira nas Filipinas.

De fato, o próprio nome do país é uma homenagem ao Rei Felipe II, dada pelo explorador Ruy López de Villalobos que devia ser um daqueles puxa-sacos de chefe e tal. Como a página da wikipédia não tem foto, tente imaginar a cara de bajulador escroto dele.

Então. Os colegas filipinos estavam me ensinando algumas palavras básicas e tal, quando descobri que eles não tem uma palavra pra “pasta de dentes”. Ou dizem “toothpaste” com o sotaque nativo deles — é comum na língua tagalog enfiar palavras em inglês, pelo que notei no Facebook –, ou dizem colgate em clara referência à marca. Isso se chama metonímia, caso você tenha esquecido.

Então comecei a pensar em exemplos similares em português. Temos os óbvios termos derivados de informática que nunca foram propriamente assimilados pelo português: hardware, software, mouse (que virou “rato” em Portugal mas foda-se, somos a maioria, então mouse é mouse mesmo), e aí alguém no Twitter mencionou o tal do “drone”.

Ele se referia aos veículos àreos não tripulados que os EUA usam pra entregar morte flamejante à domicílio em países por aí. De fato, não há uma palavra específica em português pra ESSE tipo de drone, mas temos pra outro tipo:

“Drone” seria também o macho de uma colônia de insetos, como formigas, abelhas ou cupins. E isso me fez pensar nas abelhas.

Dizem que devemos a biodiversidade do planeta, em boa parte, às abelhas e seu esforço polinizador. Portanto, não posso exatamente falar mal delas. Só que levei uma picada de uma abelha quando moleque (em sua defensa, eu meio que pisei em cima dela) e compreensivelmente eu as odeio agora.

MAS ENTÃO, tem as abelhas-rainha.

A do meio

Na prática, a abelha rainha não é exatamente uma “rainha” por assim dizer — ela não exerce nenhum tipo de liderança no grupo; ela é apenas a única fêmea fértil em toda a colméia. Sendo literalmente mãe de todas as abelhas da colônia, talvez “abelha-mãe” fosse o termo mais correto.

O ciclo de vida das abelhas as faz parecer algum tipo de alienígena; é realmente fascinante. É o seguinte: as abelhas trabalhadoras constróem “casulos reais”, especiais pra acomodar futuras rainhas. A rainha atual, quando “grávida”, sai botando ovos em todos os casulos que encontra pela frente.

As abelhinhas trabalhadoras, coitadas, vão então preenchendo os casulos com mel, mas alimentam as futuras rainhas sabe com o que? Com a tal da “geléia real”, que eu aposto que tu não sabia que é uma gororoba que elas excretam nojentamente porque a bem da verdade tudo na natureza é meio nojento.

É verdadeiramente alienígena a parada

Então, ao comer exclusivamente geléia real, a abelhinha (que até aqui era uma larva como outra qualquer) digivolve e vira uma abelha rainha. Só que tem um problema.

As abelhas não “treinam” apenas uma abelha; elas alimentam várias larvas com a geléia real. Quando as candidatas a rainha se tornam fisiologicamente maduras e saem dos casulo, é um deus nos acuda porque elas se detectam e então saem na porrada mortal. A sobrevivente final, com uns 50 olhos roxos eu imagino, é então coroada a rainha de fato. E tu achando que a competição de um vestibular era estressante.

A partir daí a vida da rainha não difere muito das monarcas humanas — o resto da colméia passa a tomar conta dela, alimentando e mantendo o seu asseio, sua prole sendo de extrema importância pra continuidade da colméia.

…Até o momento em que ela fica velha demais pra “trabalhar”. Com essa abelhopausa, rola uma queda da produção de feromônios. As abelhas funça detectam essa queda, e falam umas pras outras “olhaí, essa velha já tá coroca. FORA DILMA, vamo eleger outra!”

E sem cerimônias, as abelhas se amontoam na pobre rainha, aumentando sua temperatura e mordendo/picando a ex-governante. A parada é meio brutal:

Aliás, um detalhe: pelo menos a rainha tem uma fisiologia bem “normal” até. O cupim rainha, por outro lado, é realmente uma monstruosidade adaptada para a tarefa de gerar prole. Olha que merda:

Dat ass

O abdomen é tão deformado que a esse ponto o bicho não deve nem conseguir se locomover.

Nós dividimos o planeta com esses pequenos monstrinhos e todo mundo aceita isso de boa mano.

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comments

Categorias: ciência

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 32 anos, também sou conhecido como "Kid", e moro no Canadá há 13 anos. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas, e sobre notícias bizarras n'O MELHOR PODCAST DO BRASIL. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

17 Comentários \o/

  1. Vinícius Martarello says:

    Essa frieza da natureza é muito impressionante, se algo não serve mais pra continuar a espécie já era, está morto.

  2. William says:

    Izzi, o Drone, no caso é conhecido como Zangão. Um fato interessante que descobri inteiramente ao acaso quando digitei “Abelhas” no novo pai dos burros, nosso bom e fiel amigo Google, é que ontem foi comemorado em terras tupiniquins (03/Out/14) o Dia Nacional das Abelhas !!!! E antes que vc possa duvidar de tão grandiosa data aqui segue o link oficial do Portal Brasil. http://www.brasil.gov.br/meio-ambiente/2014/10/dia-nacional-das-abelhas-e-comemorad-nesta-sexta-3

  3. Douglas Fuentes says:

    Ja tinha acompanhado parte de seus devaneios pelo Twitter , mas mesmo assim muito interessante , ah natureza eh de fato surpreendente … 🙂

  4. Gustavo C. says:

    Aprendi no espetacular programa O Mundo de Beakman que mel é vômito de abelha. XD
    Mas não sabia que a rainha era eleita numa luta com outras até a morte.
    Eu sempre gostei muito de documentários sobre insetos. Lembro de um muito legal que mostrou uma verdadeira guerra entre abelhas e vespas. E fiquei abismado de ver que existem formigas que se amontoam formando um tipo de “barco” feito delas mesmas pra atravessar a água.
    Mais abismado ainda eu fiquei de ver que existem lacraias que CAÇAM morcegos em pleno vôo. Elas se penduram no teto da caverna e nhac! no morcego que passar perto dela.
    Ah, e recentemente vi no trabalho um homem chamado ALCIBERG, e pensei que também não existe tradução pra iceberg em português. No Michaelis diz “monte de gelo flutuante”, sem graça. Acho que se fosse pra ter tradução, viraria gelão. Assim como blackout virou apagão.

  5. Gustavo says:

    Kid,

    drone (o de insetos em geral) não seria zangão, em portuguÊs? 🙂

  6. Matheus says:

    Texto iradissimo

  7. André Henrique says:

    Continua fazendo textos assim Izzy, muito bom e bem escrito. Você deveria postar uns 3 textos por semana, eu sei que você fica muito na vibe de produzir videos por ser o que mais te deu visibilidade na internet e o que vem dando mais certo nos últimos tempos, mas os seus textos são muito bons cara, deveria fazer mais se pá

  8. Jhonatan says:

    Em tagalog as palavras bicicleta e banho são iguais ao português

  9. Jhonatan says:

    Em tagalog as palavras bicicleta e banho são iguais ao português.

  10. IBG says:

    Izzy, escreva meus livros de biologia.

    Muito foda!

  11. Na verdade drone militar é conhecido aqui no Brasil como VANT (Veículo Aéreo Não tripulado).

    😉

  12. Marcus says:

    Muito bom texto cara! rsr Ótimo mesmo.

  13. Emerson says:

    Eu também já fui picado por abelhas, mas várias e dos mais variados tipos, desde as normais até aquelas grandonas que tem um ferram que parece que vai atravessar seu braço. Mas essas picadas não me fizeram ter aversão às abelhudas. Pelo conráio: foi por causa desses episódios trágicos que eu me interessei por elas.

    Mas o que me fez ficar de boca aberta mesmo foi essa rainha de cupim. A abelha rainha, assim como toda colmeia, não tem muita liberdade, mas ao menos ela pode andar por aí e trepar (uma vez na vida). Essa aí nem andar anda, é só uma parideira.

    Aliais, é engraçado como esses animais super coletivistas não tem muita vida própria. As pessoas às vezes se enganam achando que a abelha/formiga/cupim rainha é como os reis de antigamente ou de hoje, mas na verdade parecem ser a mais sem vida própria -- principalmente a rainha cupim, que não se locomove, e a abelha rainha, que tem a morte decidida pelas filhas.

    E sem querer fugir muito do assunto mas já fugindo, esse lance de o rei ser morto depois de um tempo não é algo totalmente animal. Em algumas das poucas sociedades humanas que existiram onde o título de rei não era passado hereditariamente, ouve algo assim. Se não me engano, na Khazaria, era assim. O rei era eleito por um grupo (não me recordo se era de políticos, nobres ou algo assim) e, no fio da espada (literalmente) lhe era perguntado quando tempo ele iria governar. Ele falava a quantidade de tempo e, se ele não morresse até lá, os súditos pegavam suas espadas e o matavam.

    Não sei exatamente qual era a grande utilidade disso, mas não parecia ser um aspecto que conferia instabilidade ao reino. Pelo contrário, a Khazaria foi um fuckin’ reino.

  14. Albert Einstein uma vez disse. vale frisar Se as abelhas desaparecerem da face da terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência. sem abelhas não há polinização, a mais pura verdade