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Postado em 10 June 2004 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários



Corre maluco!

Na última terça-feira assisti The Day After Tomorrow, o novo blockbuster de Roland Emmerich. De um cara que dirigiu/escreveu o roteiro de Independence Day, não se pode esperar muito. Além disso, todos os meus amigos que assistiram o filme falaram que era uma merda fenomenal. Fui ao cinema esperando ver A BOMBA do ano. E comprei um balde de pipoca enorme pra acompanhar.Falar sobre as falhas científicas do roteiro é chover no molhado. O filme deve ter sido idealizado por uma criança de 10 anos que acabou de ter sua primeira aula sobre o efeito de glaciação. Para evitar prolongamentos nesse assunto, basta dizer que, no filme, a Era Glacial acontece em DOIS DIAS.

Pra quem não sabe, uma Era Glacial acontece na sequência de uma precessão axial – que é quando o eixo imaginário da Terra se cansa de ficar inclinado pra um lado e vira pro outro, pra relaxar a perninha. A mudança de inclinação afeta a maneira como o planeta é exposto a iluminação solar, o que causa uma queda PROGRESSIVA de temperatura em quase todo o globo.

Acontece que o fenômeno de precessão axial não é algo que acontece em dois ou três ou MIL dias, e sim em 3600 anos (aproximadamente). Portanto, para justificar a super tempestade da película, eles inventaram uma história ainda tão mirabolante quanto: o desprendimento de uma calota polar, que dessalinizou a corrente atlântica e provocou uma inversão na temperatura.

Ai, ai… Como eu já havia dito, criticar o roteiro do filme levando em consideração a inverossimilhança científica é chover no molhado.

O grande problema na verdade é que não há um roteiro nesse filme. Simplesmente não há uma história. Eu imagino que o que aconteceu foi isso:

– Ei, eu descobri uma forma de criar uma tempestade que pareça bastante realista usando gráficos computadorizados.
– Porra, fenomenal! Vamos fazer um filme em volta disso.

Pronto. O tempo que se passaria desenvolvendo personagens foi gasto para texturizar as ondas que invadem New York em um determinado momento do filme. A revisão do “roteiro” foi deixada de lado pelos idealizadores do filme para que eles tivessem tempo de ir até a casa do Jan de Bont e pedir emprestado o software que a equipe dele usou para fazer os tornados de Twister. Dessa forma, todos os outros passos do processo de criar uma história foram substituídos pela preparação de efeitos visuais.

E então todos os efeitos especiais ficaram prontos. Acontece que ainda não havia uma história para coloca-los, uma cidade para que destruíssem ou personagens para que afogassem.

– Ok, vamos começar a escrever um roteiro. Primeiro, nós precisamos destruir uma grande cidade com nossos efeitos especiais.
– Deixa eu pensar… Hmmm… Essa é difícil…. Que tal… New York?

Pronto, vão destruir a Big Apple pela milésima vez – sendo que é a terceira vez pelas mãos do próprio Emmerich (ele já fodeu os novaiorquinos antes em Godzilla e ID4). O cara não se cansa disso. Ele deve sentir algum prazer sádico em ver aquela cidade se fodendo. E não entendo por que sua platéia americana só gosta de ver isso nos filmes. Quando acontece mesmo, ao vivo e a cores, ninguém compra pipocas.

Ok, eles já têm o carro-chefe do filme: New York sendo destruída (que inédito). Ainda faltam personagens.

Acontece que a data de lançamento do filme se aproximava e os produtores começaram a marcar cerrado em cima do prazo. Então, o responsável pelo screenplay fez uma proeza formidável: ele conseguiu pegar unir todos os clichês cinematográficos da história da sétima arte, e, ainda assim, não criar NENHUM personagem profundo ou ao menos interessante. Todos estão lá:

– O Cientista Desacreditado, que tenta dar um alerta imporante e é ignorado (e é que ao mesmo tempo é o Pai Relapso, economizando um personagem).

– As Autoridades, que não acreditam no aviso do Cientista, até que é tarde demais. Aí elas voltam lambendo o saco dele e pedindo ajuda pelo amor de Deus.

– O Filho do Cientista, um garoto prodígio que não se relaciona bem com seu pai e que ama uma menina que sempre gostou dele, mas ele nunca soube.

– A Menina Que Ama O Filho Do Cientista, porém nunca contou para ele, e aguardou o momento da destruição do planeta para dar a boa notícia.

– O Cara Que Dá Em Cima Da Menina Que Ama O Filho do Cientista.

– O Pai Relapso/Cientista Desacreditado que nunca chegou no horário e nunca cumpriu uma promessa feita a seu filho mas que, no fim do mundo, conseguiu fazer os dois.

– O Cara Que Se Sacrifica Pelo Bem Dos Demais (também conhecido como “o formidável efeito Jesus Cristo”).

Isso sem mencionar as situações clichê:

– A fatídica sala de cúpula com os chefes de Estado, onde o Cientista Desacreditado roda uma simulação computadorizada que mostra como as ondas gigantes/naves alienígenas/abelhas assassinas foderão o planeta mais rápido que eles possam dizer “já era, negada“. Os chefes de Estado começam a discutir entre si e o Cientista enfatiza que a situação é séria que que a fodeção é real e iminente.

– Um segundo alerta desesperado – dessa vez dado pelo Filho do Cientista – que também é ignorado pela galera que mal sabe que está prestes a tomar no rabo por não te-lo ouvido. Dois clichês idênticos num personagem só (Cientista Desacreditado/Pai Relapso) e duas situações-clichê idênticas num filme só. É uma beleza.

Apesar de tudo, o filme não foi tão ruim quanto eu esperava. Ele cumpriu sua premissa: distrair você por duas horas enquanto Hollywood te arranca dinheiro mais uma vez, pra te mostrar tudo aquilo que você já viu em mil outros filmes (e dois deles do mesmo diretor). E chega até a ser um pouquinho divertido.

Porém, não recomendo. Baixe no Kazaa – era o que eu deveria ter feito.

E normalmente eu contaria o final, mas como é algo que você já viu em mil outros filmes, nem tem graça estragar.

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Categorias: Cinema

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)