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Postado em 17 June 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários


[ A patroa ] Ai amor, vamos pro cinema, vamos pro cinema, diz que sim vai, não seja chato, vaaaaaaaaaaaamos?[ Eu, tentando contar mentalmente quanto dinheiro ainda me sobrou na carteira ] Como não! Vamos, sim. Que filme cê quer ver?


[ Eu, dando uma torcida de nariz quase imperceptível ] Hmm… sei não, ein. Não curto essas comédias românticas aguinha-com-açucar.[ A patroa ] Mas tem tiros e várias coisas explodindo!

[ Eu, não totalmente convencido ] Que bom pra eles, mas continua sendo uma comediazinha romântica aguinha-com-açucar. E já escapei de ver a bunda do Brad Pitt em Tróia, não quero abusar da sorte.

[ A patroa ] A Angelina Jolie aparece logo no filme com uma lingerie sadô-masô preta, e ouvi falar que a cena dura mais de trinta segundos.

[ Eu ] Pega teu casaco, vamo.

Após esse breve colóquio na Residência dos Nobre, eu e a namorada nos aproveitamos da boa vontade da sogra e arrumamos uma carona até o Famous Players, o cinema aqui da roça. Em retrospecto, teria sido bem melhor ter procurado “Angelina Jolie lingerie filme” no Google Imagens e economizado aquela grana.

A premissa do filme, segundo li nessa rede mundial de computadores que se chama “a Internet”, é a seguinte linha que escreverei após os dois pontos: Um casal de assassinos profissionais um dia descobre que suas missões são matar um ao outro, enquanto alguns prédios e carros explodem no fundo por nenhum motivo em especial. Pelo que trailer dá a entender, o mote da fita são as referências pseudo-engraçadas a respeito de casamentos e relacionamentos em geral. Porque você sabe, há uma lei em algum lugar que afirma que ficção que reflete a realidade cotidiana SEMPRE é engraçada. Imagino o roteirista usando uma camiseta do Seinfeld, aquela que vem junto com o pacote da série em DVD, as we speak.

Mas tou me adiantando à alopração. Vamos começar do começo. Agora. Na outra linha. Vamos juntos!

(Pausa dramática)

Logo na abertura do filme, vemos Brad e Angelina (que receberam por algum motivo inexplicável os nomes mais comuns da cultura inglesa, “John” e “Jane” “Smith”) sentados diante de um marriage counselor, ou conselheiro matrimonial em bom português de Portugal, ou talvez de Moçambique. Essa cena de abertura foi inspirada num fenômeno popular aqui no Norte: os gringos acreditam que se pagaram 100 dólares por hora para que um estranho faça rascunhos num bloquinho de notas e lhes diga obviedades sobre o que há de errado em seu relacionamento, todos seus problemas se resolverão magicamente e sua vida sexual melhorará 204%. O que o roteirista na verdade quis dizer, e imaginem neste momento ele gritando no seu ouvido animadamente, é “veja, eles vão num marriage counselor igual as pessoas no mundo real, tá vendo como é engraçado?“, e logo em seguida correndo ao redor da sala saltitando como uma criança hiperativa que ele provavelmente é.

Mas então. John e Jane passam alguns minutos tentando nos convencer de que não dão umazinha faz tempo, o que me levou a pensar instantaneamente que John provavelmente está muito ocupado queimando a arruela nas horas vagas, e por isso negligencia sua gostosa esposa. Na sequência da conversa com o analista, John comete um engano a respeito da data do casamento, e nesse momento quase consegui sentir o roteirista me beliscando no braço dizendo “Porque tipo assim, isso acontece de verdade, já percebeu?“.

Corta pra uma introdução rápida de como os dois se conheceram. Ambos estavam na Colômbia, ou no Brasil, sei lá, algum desses países aí debaixo, e somos levados a crer que eles estavam em alguma missão misteriosa. Eles se apresentam, conversam por alguns instantes e, assim como acontece sempre que conhecemos uma pessoa nova, os dois estão trepando momentos depois. Isso obviamente foi pra combinar com o tema “realístico” do filme porque, claro, acontece com todo mundo! Se eu ganhasse cinco centavos cada vez que isso aconteceu comigo só na semana passada!

Acontece um monte de coisa em que não prestei atenção, e então houve a prometida cena da lingerie. Por 32 segudos, o roteirista me iludiu a pensar que assistir o filme valeu a pena. Se não me engano, o vestuário fazia parte de alguma missão em que ela estava envolvida, o que chega a ser um insulto porque me dá a impressão que a semi-nudez de Angelina Jolie precisa ser justificada. Logo em seguida, ela mata um personagem secundário e sem importância, e em seguida pula de um prédio. Somos agraciados com a visão de seu bumbum.

e


Gastei 7 dólares pra ver essa imagem e postei uma resenha sobre o filme pra que você não cometa o mesmo erro
Ô beleza.

Mais tarde, os dois estão numa missão novamente. Vale lembrar aqui, já que esqueci de explicar no começo, que nenhum dos dois sabe da vida dupla do outro. Acontece que, OH!, ambos são contratados para o mesmo serviço: matar um personagem adolescente levemente irritante. Como sempre acontece toda vez que um casal está tentando realizar o mesmo feito juntos – tipo fazer um bolo ou programar o vídeo cassete – tudo acaba dando em merda. E, naturalmente, algumas coisas explodem. Explodem, claro, mas dando tempo suficiente para os personagens principais pularem pelas suas vidas, enquanto o fogo de mil sóis queima no fundo.

John e Jane estão putíssimos um com o outro, mas OH!, eles não sabem que aquele que atrapalhou seu serviço é justamente seu próprio cônjuge. Senti uma pontada na orelha, que foi a forma que Deus achou de me passar a mensagem do roteirista: “Veja, eles não sabem que estão com raiva um do outro! Não sei se isso acontece por aí, porque tenho 42 anos, nunca me casei e ainda moro com minha mãe, mas vejam os nomes deles! John e Jane, super realista!

Os próximos quarenta segundos são gastos pelos personagens para descobrir que seus inimigos são, OH!, eles mesmos. E é aí que o filme engata em quinta marcha e coisas REALMENTE começam a explodir, jogando para o ar pedaços de pau e talvez as carreiras de Pitt e Jolie.

Conforme prometido no trailer, a partir daí um personagem tenta matar o outro com diversas armas que se materializam magicamente em seus bolsos. Mas a jogada é, como no resto do filme e em boa parte do trailer, fazer parecer que o que está acontecendo na tela é na verdade uma analogia a alguma idiossincrassia de relacionamentos. No caso, o que acontece é a clássica cena do marido arrependido (por ter feito merda, como jogar fora um presente da sogra ou algo assim) tentando alcançar o perdão da esposa, e nunca conseguindo.

John vai ao prédio onde Jane trabalha, mas ela obviamente não quer falar com ele e então pula de um prédio para outro usando uma arma que dispara cabos de aço pelos quais alguém pode deslizar. Vou supor que eles mantinham tal dispositivo nas proximidades caso precisassem chegar ao prédio vizinho bem rápido. Tipo quando um office boy esqueceu de levar pra você um documento super importante e tem que voltar pro outro prédio, saca? “Porque você sabe“, diria o roteirista, “isso acontece mesmo“.

John vai a algum outro lugar em que Jane está. Dessa vez ela não apenas se recusa a conversar com ele, mas também explode o elevador em que ele estava (bem, na verdade não foi ela, mas uma funcionária dela. Vou dizer que foi ela porque vocês nem devem ter assistido o filme ainda).

Mais algumas coisas acontecem em quais não prestei atenção, mas dessa vez não tenho a desculpa da semi-nudez da Angelina. O que é um ponto a menos pros idealizadores do filme, porque a repetição da tal cena seria bem vinda. Aliás, se substituíssem o filme inteiro por um loop infinito daqueles incríveis 32 segundos, seria melhor pra todos nós.

Até pra ela, acho. Teria sido menos prejudicial à sua carreira. Porra, se ela fizesse um vídeo amador de si mesma cagando em cima da bíblia enquanto conta piadas racistas sobre judeus e negros e em seguida disponibilizasse na internet, teria sido menos prejudicial pra carreira dela.

Por algum motivo ou talvez outro, os dois voltam à sua casa, armados até os dentes. Inevitavelmente, o casal passa a atirar um no outro, errando tiros à queima roupa e tal. Embora isso possa fazer você pensar “mas que porcaria de assassinos profissionais são esses? Minha avó cega teria acertado aquele tiro!“, não mije nas calças ainda! Um pouquinho mais na frente, o talento atirador quase olímpico dos dois resplandecerá.

Como já prevíamos, eventualmente o casal 20 para de trocar tiros e passa então a fazer sexo (igual sempre acontece quando um casal tá brigando, ao menos em filmes). Embora essa frase pareça interessante, não se anime – a Angelina não paga peitinho.

É nesse momento que alguma coisa acontece e sua casa explode em mil pedacinhos.

Agora que os dois fizeram as pazes e não têm mais onde dormir, chega a hora de combinar seu talento para derrotar seu inimigo em comum: alguém.

Nas cenas seguintes, acontece uma perseguição de carros na Rodovia Genérica Americana #94, aquela que vai de Los Angeles a New York e onde Neo de vez em quando passa voando por cima. Brad Pitt, que há poucos minutos não conseguia acertar a própria esposa na cara a uma distância de quatro centímetros com uma escopeta, habilmente acerta todos os tiros nos pneus dos carros que os perseguem. Os carros fazem a única coisa lógica que um carro pode fazer numa situação como essa, ou seja, explodem prontamente. Alguns carros batem em outros carros e levantam vôo, o que me fez levantar no meio do cinema e gritar TAKEDOWN!!!. A namorada prometeu quebrar meu DVD de Burnout 3.


Tirei uma soneca e, quando acordei, John e Jane estavam em algum tipo de loja, cercados por agentes enviados pelas agências para os matar. É aí que a grande habilidade do casal brilha. Estando rodeados por dúzias de oponentes armados e pronto para mata-los, os dois começam a rodopiar descoordenadamente e atirar de forma aleatória em direções variadas, como os assassinos de elite que são. Não ver o alvo não significa que você não vai acerta-lo então, previsivelmente, todos os caras maus morrem – até mesmo os que estavam escondidos atrás de colunas ou atrás do casal.

Mas espere! Um deles não morreu! O vilão sobrevivente crava algumas balas nos peitos de Pitt e Jolie, os segundos sendo exponencialmente mais gostosos que os primeiros e portanto constituem uma perda infinitamente mais trágica. As balas arremessam os dois uns quarenta metros pra trás. Como em todo outro filme filmado entre 1970 e hoje, os mocinhos repousam no chão por quatro segundos antes de se levantarem, mas não sem antes rasgar as roupas e revelar, OOOOOOHHHH!, que estavam usando um colete a prova de balas!

Eu achava que qualquer pessoa automaticamente supõe que alguém que não morre após levar quarenta balas no peito estava usando um colete. Foram anos assistindo a mesma cena em vários filmes diferentes: o mocinho toma um tiro no peito, mas ainda estamos na metade do filme! Ele morreu, já? Não! Ele abre a camisa perfurada e revela um colete à prova de balas por baixo!

Apesar de ser obviedade, Hollywood ainda acha que precisamos de uma explicação para o fato de que alguém pode levar um tiro e sair andando por aí.

Após o massacre do que pareceu ser algumas centenas de oponentes, nossos heróis estão prontos pra chutar a bagaça do GRANDE INIMIGO, aquele que colocou-os um contra o outro, explodiu sua casa ou idealizou esse filme. Infelizmente, o roteirista esqueceu de que pra grande cena final onde os personagens principais triunfam sobre o cadáver do super-vilão, é necessário um super-vilão. Tipo, ia ficar mó estranho os personagens espancando alguns adversários fracotes que claramente não tem a menor chance e então andar em direção ao sol poente, dando um fim à história sem nenhum clímax, não é?

Mas é exatamente o que acontece em Mr e Mrs Smith. Brad e Angelina fuzilam hordas de peões anônimos que estão a serviço das agências que empregavam o casal, então alguma coisa explode, e na cena seguinte estão de volta ao consultório do marriage counselor. John, dessa vez, todo gabola devido ao fato de que ele foi macho uma vez na vida e comeu sua mulher. Lembra, antes da casa explodir? Então.

Mais um casamento Hollywoodiano salvo por tiros e explosões, igual a, não sei, todos aqueles outros filmes em que um casal desajustado se une após enfrentar tiros, explosões ou variações (True Lies, Twister, Independence Day, etc etc etc etc). É uma pena que no mundo real não podemos trocar tiros com nossas companheiras pra resolver discussões triviais, como por exemplo “afinal, você vai me dar sete dólares de volta por ter me feito assistir aquela merda, ou terei que tomar de você?”

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Categorias: Cinema

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)