Hbdia
  • Feed do Hbdia
  • Twitter
  • Youtube

Resenha – Stay Alive

Postado em 24 October 2006 Escrito por Izzy Nobre 7 Comentários

Outro dia o JesusWalks escreveu um tópico no FHBD me pedindo pra resenhar um filme sensacional que ele assistiu, e com “sensacional” eu quero na verdade dizer “que merece uma resenha no HBD e daí você pode imaginar a qualidade da parada”. Normalmente não aceito encomendas de resenha porque senão daqui a pouco este blog virará uma extensão do IMDB (na verdade é por pura preguiça mesmo, mas não espalhe), mas pelo que eu já havia lido sobre o filme, seria praticamente um crime de atentado ao pudor à mão armada não escrever umas linhas sobre ele aqui no HBD.

O poster do filme explica o suficiente que você precisa saber pra decidir imediatamente que Stay Alive se trata de uma pérola.


Sacou? É um jogo, e se você morrer no jogo, alguma mágica acontece e você morre na vida real!A verdadeira mágica, no entanto, é como o tal jogo consegue mudar de estilo dependendo do que o diretor ache que é um jogo de computador naquele determinado momento. Durante o filme o jogo muda de gênero pelo menos umas quatro vezes – às vezes o jogo é um survival horror (que por algum motivo absolutamente injustificado é mencionado no filme ao contrário, “horror survival”), às vezes é um first person shooter, às vezes é um third person shooter e antes que você perceba ele é um online shooter com suporte a TeamSpeak e uma câmera que lembra muito a câmera dinâmica de World of Warcraft. Pelo jeito, matar os usuários não é a única coisa que Stay Alive tem em comum com o MMO da Blizzard.

Tendo o último parágrafo em mente, permita-me deixar isso bastante claro – William Brent Bell, o diretor e roteirista do filme, não faz a menor idéia do que é um jogo de computador. Sua visão de como jogos e a comunidade gamer funciona é como se o único contato que ele teve com tais coisas foi através de uma descrição dada por um velho senil de 80 anos de idade. Explicarei melhor minha teoria ao longo dessa resenha.


Na imagem acima, os personagens pesquisam cheat codes pro jogo no GameFAQS. Fora da imagem – a comissão paga pelos execs da Alienware ao diretor do filme, que enfiou aproximadamente três computadores da empresa em cada frame do filme
A ignorância de Brent em relação ao mundo nerd se torna óbvia sempre que ele tenta mostrar que entende alguma coisa a respeito do círculo gamer. Com exceção da referência ao lendário cheat code de Contra pro NES (que no filme é o mesmo que faz as zumbis mostrarem os peitos), praticamente tudo relacionado a jogos e computadores é folheado em camadas duplas de ignorância. Quando os personagens descobrem que o jogo parece “ouvir” os jogadores e ativar certos mecanismos no jogo baseado no que eles falam, um dos personagens se apressa em explicar que “reconhecimento de voz é algo da next gen, é impossível que esse jogo esteja fazendo isso!!!11“. Essa afirmação é verdadeira, mas apenas se você ignorar o fato de que tanto o NES, quanto o SNES, quanto o Nintendo 64, quanto o Playstation 2, quanto o Xbox, quanto o GameCube, quanto o Nintendo DS têm jogos que usavam reconhecimento de voz. Claro que isso é um detalhe bobo que apenas um nerd chato como eu dá atenção, mas eu imagino que se você vai fazer um filme baseado em um único assunto, conteúdo verossímil é o mínimo que se poderia esperar do resultado. Willian Brent falhou em compreender um assunto que moleques de 14 anos tiram de letra.

E há mais detalhinhos pra criticar. Dependendo do tipo de espectador que você é, de repente esses pequenos deslizes dos roteiristas serão o único entretenimento encontrado em Stay Alive.

O vacilo mais notável é a tal mudança entre estilos de jogo; como já mencionei, em uma única cena Stay Alive é três jogos diferentes (um FPS, um third person shooter online, um survival horror). Quando um dos policiais que investiga as mortes vai a uma locadora pra procurar informações sobre o jogo, é atendido por um balconista que vomita falas como “tá interessado num jogo com frag count alto?” ou “nunca ouvi falar desse jogo, deve ser um jogo underground” e que se esforça ao máximo pra parecer um nerd daqueles bem estereotipados. Ora, eu sei reconhecer meus próprios companheiros, e aquele sujeitinho não me enganou por um instante sequer.

O filme é um fracasso no sentido que não inspira absolutamente nada que almejava inspirar nos espectadores. A trama é pessimamente mal escrita. Os personagens têm a complexidade coletiva de um quebra-cabeças de 4 peças. Há tanta química entre os protagonistas quanto há entre um carcereiro e um balconista da farmácia da esquina. Aliás, Willian Brent tentou em Stay Alive descrever um mundo em que ninguém, absolutamente ninguém tem um nome convencional. Hutch, Swink, Loomis, October, Phin… Que diabéisso?

Voltando à lista de fracassos do filme, a história é tão sem sal e forçada que impede que você sinta uma lasquinha sequer de medo durante os sofríveis 100 minutos de duração. Como eu já mencionei, a trama é o que alguém teria em mãos se pedisse pra quatro portadores de síndrome de Down explicassem seus piores medos após os terem espancado por duas horas com um cano de PVC. Como é absolutamente impossível levar a história a sério a menos que você tenha sido forçado a beber querosene duas vezes por dia pelos últimos dez anos, não tem como sequer considerar isso um filme de terror. É muito mais provável rir dos erros de continuidade ou se revoltar por ter gasto 10 dólares alugando o DVD do que ficar realmente com medo de qualquer coisa.

Furos da lógica da história são abundantes. POR EXEMPLO, e aprecie os spoilers, Swink (interpretado por Frankie “eu já fui um ator famoso” Muniz) morre no jogo, mas ao contrário do que se esperava, não apenas não bate as botas na vida real também, como ainda aparece DO NADA na última cena do filme salvando o herói retardado de sua morte merecida. Aí algum hipotético fã do filme dirá “mas isso aconteceu porque, na cena em que ele morria, ele caiu em cima de flores, e flores protegem os jogadores, lembra?” Se é assim, por que a tela do computador mostrava o personagem dele morto? A resposta óbvia – o diretor estava com tanta vontade de criar tensão que estava disposto a ignorar detalhes mínimos como continuidade.

Essa cena tem um lugar especial no meu coração, porque não é todo dia que a incompetência cinematográfica dos responsáveis pela gravação de um filme acaba CONTRADIZENDO O PRÓPRIO TAGLINE DO FILME. A capa do DVD me prometia que quem morresse no jogo morria na vida real, e no entanto o senhor Willian Brent decidiu que eu não merecia receber o que paguei pra ver.

Não consigo me satisfazer em dizer que a trama do filme deve ter sido escrita num guardanapo de bar enquanto Willian Brent injetava tylenol em pó nas veias. Um dos pontos altos da história é o momento em que um dos personagens se torna suspeito da morte dos outros, já que ele era amigo dos caras e tal (como sabemos, ser amigo de uma vítima de assassinato é obviamente, sem qualquer sombra de dúvidas, prova de que você os matou). Há um breve momento de tensão em que os personagens precisam fugir da polícia, e eu comecei a imaginar como é que eles conciliariam lutar com entidades sobrenaturais malignas E fugir da polícia em um filme só.

Pelo jeito Brent imaginou a mesma coisa que eu, e assim decidiu abandonar o lance da polícia logo após daquela cena. Nos trinta e tantos minutos restantes, o fato de que um dos personagens está sendo caçado pela polícia por suposta conexão com as mortes é absolutamente abandonado do filme.

A única coisa que eu queria no final da desperdício de mídia que é esse filme era uma explicação, ainda que idiota, sobre o que acontece na tela. A única explicação que nos é dada é que um programador solitário – e constrangedoramente homossexual – era obcecado pela história da Blood Countess (uma maluca que supostamente matou um monte de menininhas pra se banhar no sangue delas. Estou com preguiça de verificar a veracidade dessa história), quis fazer um jogo usando-a como personagem central, e sem mais nem essa pronto – o jogo mata quem o jogar.

Não existe um propósito claro, saca? Veja The Ring por exemplo, que trás uma temática meio parecida. O ponto da história, se eu me lembro bem, era que a Samara queria que pessoas vissem a fita e mostrassem a outros, um negócio assim. Em Stay Alive, não existe propósito nenhum, e nós somos forçados a apenas acreditar que a tal Blood Countess, apesar de poderosíssima e ter a mania de querer assassinar todas as pessoas do universo, está limitada a matar apenas quem morra no jogo. Eu tava na esperança de eles ao menos explicarem que algum tipo de ritual satânico prendeu a alma nela no jogo, e/ou que ela só terá paz quando matar 17844 nerds, mas fiquei a ver navios.

Não assista. É uma merda.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe sua opinião aí. Você não tá fazendo nada mesmo!

comments

Categorias: Cinema

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

7 Comentários \o/

  1. Karlisson says:

    Filmes nerds exigem bons diretores, lógico. Senão sai uma cagada dessas. Matrix é um bom exemplo de filme nerd bem feito. Piratas do Vale do Silício também. E por aí vai. Não vi esse filme aí, mas imagino que deve ser tão ruim quanto o do Mario.

  2. LoL says:

    PQP, mas que merda heim!?

  3. Nath says:

    O cartaz me lembrou Saw, e eu amei The Ring (:

  4. Carol says:

    “Frankie “eu já fui um ator famoso” Muniz”
    LOL. Eu, por algum motivo, odeio o Frankie Muniz pra caralho.

  5. ... says:

    Finalmente temos um filme sobre games…e é uma merda, BOM TRABALHO, SEUS BABACAS DE HOLYWOOD!

  6. N o a h says:

    Assisti esse filme com minha prima,não havia lido este artigo ainda. O que, eu
    afirmo, foi uma pena. A trama do jogo é macabra, assim como “Você morre no jogo, você morre de verdade”. Mas o diretor não fez isso. Ele transformou a trama em uma piada, colocando termos que ele ignorava quase (ou “não quase”) completamente. O filme, me envergonho de dizer isso, me pregou alguns sustos!
    E ouve muitos clichês, como o telefone do “Panico” trocado por um Joystick (Toca/Vibra antes do retardado morrer).
    Também a trama do -The Ring- misturado com -Survival Horror- do Resident Evil.
    Enfim, o filme foi uma merdinha, pena que eu me assustei!

  7. Isah says:

    Este filme foi um dos melhores filmes que eu já vi.