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Por que Star Wars não é ficção científica?

Postado em 3 September 2014 Escrito por Izzy Nobre 25 Comentários

new hope

Como prometido aqui, somado ao fato de que sou um homem honrado de palavra irreversível, aqui está meu artigo sobre por que Star Wars, frequentemente chamado de ficção científica, não o é.

Existem diversos fatores pra analisar, mas em prol da concisão vou direto ao ponto principal — não há praticamente nada científico em Star Wars. Sério.

star destroyer

“Porra Izzy, como não?! E isso aqui?”

Calma. Vamos rebobinar um pouco a fita (e usar uma metáfora da época em que “rebobinar a fita” fazia sentido).

Ficção científica, em seu âmago, é baseada em plausibilidade. E pra estabelecer essa plausibilidade, são oferecidos argumentos (pseudo) científicos pra explicar como os personagens ou o maquinário na história está fazendo o que faz.

Star Trek é um excelente exemplo disso. Quem assistia as séries e/ou qualquer um dos filmes deve lembrar que uma boa parte da trama se dava a explicar como exatamente os cristais de dilítio ou o alumínio transparente ou amortecedores de inércia afetavam o decorrer da história. Eles eram explicações necessárias pra justificar as peripécias da USS Enterprise. Contraste isso com a Millenium Falcon, que entra e sai de viagens acima da velocidade da luz porque sim e pronto.

E isso acontece pelo fato de que a Millenium Falcon voa acima da velocidade da luz é completamente irrelevante pra história. Num exercício que serve como teste pra categorização, você poderia substituir a Millenium Falcon por um navio, e os Star Destroyers por navios maiores, comandados pelos vilões, com a história inteira se passando durante o período colonial, e a trama permaneceria praticamente a mesma.

De fato, praticamente todos os elementos de Star Wars podem ser submetidos à mesma metodologia. Obi Wan Kenobi é senão um mago espacial.  A Força, uma religião/magia sem qualquer fundamento científico. Luke Skywalker, o herói profético. Darth Vader é o arquétipo do Cavaleiro Negro. Leia, a princesa indefesa. A Estrela da Morte é o castelo sombrio do vilão. O sabre de luz é simplesmente uma espada.

Todos esses elementos parecem vir de outro gênero (fantasia/conto de fadas), e isso não é coincidência. Isso acontece porque Star War é fantasia. As pitadinhas de ficção científica — naves espaciais, robôs — são apenas pano de fundo, completamente marginais ao âmago da história: um garoto, aliado a um grupo de subversivos, derrotando um império maligno que tem em seu centro um feiticeiro comandando um cavaleiro negro.

Star Wars é tão incompatível com o gênero de ficção científica, de fato, que uma das MAIORES tosquices do cânon da série foi justamente tentar explicar a Força. Lembra dos lamentáveis midichlorians? Essas bactérias espaciais foram introduzidas no Episódio I como um esforço de fundamentar um dos principais elementos da série em algum tipo de metodologia científica; de explicar e quantificar o que antes era simplesmente mágica.

Lembra que foi deduzido que o Anakin seria muito poderoso basicamente porque “tem mais midichlorians que o Mestre Yoda!”?

Bem parecido com o que Star Trek faz pra explicar, por exemplo, que “reverter a polaridade da repimboca da parafuseta” fará a Enterprise voltar a funcionar — com a diferença que, em um seriado de ficção científica, tais explicações são necessárias. Às vezes, o episódio INTEIRO é justamente sobre essas tais explicações.

Pra comparação, veja esses monólogos de Star Trek que se ocupam justamente com as explicações científicas do que acontece na tela:

BASHIR: I was running a neural scan and noticed some anomalous protein readings. I thought there must be some mistake, so I ran an at the Journal and amino acid sequence to be sure. But there it was again, the prion mutation rate had spiked. I couldn’t believe it. It meant the anomalous proteins had to have a strong quantum resonance.

O’BRIEN: The temporal surge we detected was caused by an explosion of a microscopic singularity passing through this solar system. Somehow, the energy emitted by the singularity shifted the chroniton particles in our hull into a high state of temporal polarisation.

DATA: It appears to be a highly focused aperture in the space-time continuum. Its energy signature matches that of the temporal fragments we observed earlier. However, it is approximately one point two million times as intense. I believe this may be the origin of the temporal fragmentation.

Compare isso com…

OBI WAN: Use the Force, Luke

Tá vendo a diferença…?

E não é só isso, não. Ficção científica, em sua origem, era quase sempre um cautionary tale, ou trazia algum tipo de lição de moral. Os livros do meu autor favorito de ficção científica, Michael Crichton, eram quase sempre algum tipo de alerta de que a ciência humana estava fora de controle. O Dia Em Que A Terra Parou, de 1951, era um aviso de que a proliferação nuclear da Guerra Fria poderia dar um fim na nossa espécie de uma forma diferente da nuvem de cogumelo que se esperava. Star Trek e Battlestar Galactica se ocupam com temas sociais, como racismo, aborto, direitos femininos, escravidão, e por aí vai.

Qual a lição de moral ou alerta de Star War, por outro lado? Não tem. É uma historinha de fantasia que, por total acaso, se passa no espaço, com robôs e armas laser. Como já expliquei, os principais elementos de Star Wars continuariam fazendo sentido se o pano de fundo fosse a Terramédia, e ainda por cima ele carece de um dos mais icônicos fatores da ficção científica.

Não pense que estou desmerecendo a icônica série do George Lucas. Eu amei Star Wars desde a primeira vez que assisti O Retorno de Jedi (que foi aliás o primeiro filme da série que vi). Um dos meus jogos favoritos do SNES era justamente a (excelentíssima) adaptação Super Star Wars Return of the Jedi.

20140702022419!Super_Return_of_the_Jedi_box_art

Eis um jogo que tá bom até hoje

Talvez justamente por esse apreço pela série é que eu faço questão de corrigir a categorização errônea que frequentemente dão a ela. Star Wars é um conto de fadas, é uma história de fantasia — o que não significa desmerecimento, é só o gênero correto em que ele se encaixa.

Explicando de outra forma: Star Wars não é ficção científica só porque tem nave e lasers no background, da mesma forma que Forrest Gump não é um filme sobre ping pong só porque ele aparece jogando na China.

Ou ainda: Star Wars é ficção científica porque tem nave espacial da mesma forma que True Lies é um filme sobre biologia equestre porque tem uma cena com um cavalo.

cavalo

Lembra?

Alguns talvez argumentem que Star Wars é descrito na wikipédia como “Space Opera”, que é um subgênero de ficção científica. A estes eu digo que ofereci aqui um texto de mais de mil palavras justificando por que NÃO É ficção científica; pra me convencer você terá que fazer mais do que ir numa enciclopédia pública que qualquer um pode editar e dizer que lá diz o contrário “porque sim e pronto”.

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comments

Categorias: Cinema

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 32 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas, e sobre notícias bizarras n'O MELHOR PODCAST DO BRASIL. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

25 Comentários \o/

  1. cristiano says:

    Concordo.
    Infelizmente tem uma treta entre fãs do star wars e os trekkers … eu gosto das duas “séries” pois são excelentes no que se propõem.
    A grande jogada de Star Wars é apresentar a tecnologia como algo realmente do dia a dia, e os personagens a usa sem cerimônia e sem pensar, assim como acendemos a luz no interruptor. Isso há 200 anos atrás seria um evento.
    Quem define Star Wars como ficção científica nunca leu Isaac Asimov, Arthur Clarke, George G. Wells, Carl Sagan …

  2. Ismael Junior says:

    Tá bem argumentado, concordo contigo.
    Vc deve ter muita coisa pra “não fazer” mesmo… sabe que provocará o que há de pior na internerd!!

  3. Raphael says:

    Po Izzy texto bacana.Veio a calhar na hora certa, pois estou (re)assistindo aos filmes essa semana.
    Parabens pelo site.

  4. Cara, quando o assunto é filmes/séries tu anda meio que… chato pra caralho.

  5. Diego Matias says:

    Como transformar Star Wars em ficção científica:

    Assuma a premissa de que muitos anos no futuro o homem conseguiu controlar a energia atômica. isso possibilitou a criação de armas como a estrela da morte e o controle de todos os sistemas descobertos na galáxia.
    A manipulação dessa energia ativou uma mutação em certos indivíduos que agora podem manipular a energia que os cerca, eles criaram uma ordem para passar conhecimento adiante para proteger a galáxia e agora tentam derrubar o império. =)

    A

    • @gortheus says:

      Então X-MEN, Homem Aranha e praticamente todos os heróis conhecidos da Marvel são histórias de ficção científica?

      Desse ponto de vista, até um episódio do pateta explicando como voar ou qualquer coisa do gênero será ficção científica…

    • Danney says:

      Star Wars é no passado cara, seu “argumento” já começou errado aí

  6. matheus says:

    Boa, me convenceu 🙂

  7. Edu says:

    Sinceramente, acho que você está utilizando o conceito de hard sci-fi como sinônimo de dci-fi. E Jornada nas Estrelas (Star Trek de c* é r*) é um péssimo exemplo, pois a bobajada tecnológica lançada ao vento é apenas de fundo para temas maiores. Sugestão, os episódios The Inner Light e Darmok, ambos da Nova Geração. São duas das melhores histórias do seriado e de todas as séries trekkers, e os dois não tem nada ou quase nada sobre a rebimboca da parafuseta.

    • Alonso Marinho Horta says:

      Inner Light não tem nada com a ‘rebimboca da parafuseta” ? A Enterprise encontra uma sonda que entra entra na mente do Picard o fazendo viver uma vida inteira nos dias finais de uma civilização, que quis perpetuar seus feitos mandando um foguete pro espaço com todas estas memorias. Tem um trecho de vários minutos da Doutora Crusher explicando a parte técnica do que tá acontecendo, e no final explicando que como eles não tinham propulsão de dobra, praquela sonda chegar ali demorou seculos então a civilização já não existe a muito tempo. Pra historia existir ai, até uma que foge dos parametros da serie (sim você pescou dois exemplos) a tecnologia e as implicações de seu uso tem papel intrincado na trama. Nem vou citar o Damok que em menos de dois minutos o capitão é teleportado e os aliens lá criam um campo que impede que ele seja tirado do planeta.

      O Izzy salientou bem, a tecnologia não tem papel NENHUM em Star Wars. Sem nenhum esforço vc pode colocar ele num mundo de fantasia medieval. Já Star Trek você teria de remodelar completamente a trama. Em Star Trek eles não podem influir numa civilização pré dobra devido a Primeira Diretriz, que é pra não poluir o desenvolvimento do planeta com a tecnologia ou ideais da federação, você tem episodios baseados unicamente no holodeck, em dimensões paralelas e contrapartes invertidas vindas de lá. Serio você teria de mudar tanta coisa numa obra de sci fi como Star trek pra ela se encaixar num mundo medieval, que alguns temas não teriam como ser abordados ou teriam importância menor.

      Problema que o pessoal insiste nisso, sendo que o próprio criador da bagaça já definiu como fantasia, porque eles próprios tem preconceito com o gênero. Eu por amar as duas franquias não tenho problema nenhum com isso, ainda mais sendo fã de series como Discworld, Crônicas de Dragonlance e etc. Acho até que Star Wars está em ótima companhia.

  8. Joaquim Ramos says:

    A melhor definição que já vi para Star Wars é fantasia espacial, que basicamente é, uma obra de fantasia classica que tem como ambientação o espaço ou um futuro distante e que a “magica” ocorre por tecnologia vançada que ninhem sabe explicar ou se dá ao trabalho.
    Por sinal um dos meus generos favoritos.

  9. Kika says:

    Quem categoriza Guerra Nas Estrelas como ficção científica geralmente não sabe o que é ciência nem o que é ficção.

  10. Valério says:

    olha Izzy, o próprio gêneor já diz (ou se contradiz) quando afirma-se ficção cientifica, pois afirma ou não -- ou os dois, o que há na referida “ciência” retratada. Fora que é apenas mais um conceito, e MUITO DO RELATIVO.
    Pensava que vc ñ tinha essa sindrome teenager de determinar titulos e lugares a tudo quanto que é coisa viva.

  11. Bruno Alexandre says:

    É ridículo o q vou falar, mas… Tamo aí: Não concordo, nem discordo… Muito pelo contrário!!

    Acho q tem uma ponta de iceberg um tanto quanto ficção semi científica, só q o conteúdo submerso é uma fantasia muito foda!!

  12. IBG says:

    Também tem o fato de que George Lucas escreveu a história usando fielmente o modelo do Joseph Campbell descrito em O Heroi de Mil Faces. Esse modelo decodifica principalmente historias mitológicas e aventuras heroicas… Se eu substituísse Zeus por uma arma de raio a minha historia seria mais próxima de mitologia ou ficção científica? Aquele primeiro comentário no Facebook do Gabriel S. me deu raiva.

  13. IBG says:

    Também tem o fato de que George Lucas escreveu a história usando fielmente o modelo do Joseph Campbell descrito em O Heroi de Mil Faces. Esse modelo decodifica principalmente historias mitológicas e aventuras heroicas…

    E se eu substituísse Zeus por uma arma de raio a minha historia seria mais próxima de mitologia ou ficção científica? Aquele primeiro comentário no Facebook do Gabriel S. me deu raiva.

  14. […] O blog Hoje é um Bom Dia tem uma boa argumentação sobre como Guerra nas Estrelas não se enquadra na Ficção Científica, mas tudo bem, continua funcionando para explicar para os idiotas. (indicado por Bárbara Prince […]

  15. david colt says:

    Star Trek e ficcao cientifica ( serio ), o que dizer de ‘Q’, um palhaco do espaco que se veste como a alerquina do batman Q uma entidade de poderes ilimitados que vem do Continuum Q, onde todos são conhecidos como Q. cara isso e ridiculo e o Sha Ka Ree, piada espacial. a verdade e que tanto star wars quanto star trek sao fantasias e ponto, e se considerarmos os extremos star wars seria mais perto das crencas humanas pois la eles creem na Forca que mantem todas as coisas e tambem as criou assim como nossa civilizacao atribui o mesmo a Deus

  16. Matheus says:

    Uma vez para dizer isso para uma amiga eu contei a historia de Star Wars, porém ela se passava em um reino magico, quando ela descobriu que era Star Wars contado de outra forma ela acreditou nos meus argumentos

  17. Guilherme says:

    Izzy, gostei da postagem e dos comentários gerados.
    Você inicia dizendo que “existem diversos fatores pra analisar, mas em prol da concisão vou direto ao ponto principal…”
    A partir disso, sugiro que você escreva outro texto abordando mais alguns fatores. Creio que a citação de livros e de outros filme, como ocorreu acima, só ajuda a ampliarmos nossos horizontes.
    Abraço!

  18. […] mas ele definitivamente não é ficção científica. O Izzy Nobre escreveu um artigo uma vez sobre Por que Star Wars não é ficção científica, vale a pena dar uma […]

  19. Bruno says:

    ‘Pera, Space Opera e Fantasia Espacial não é a mesma coisa ??? O.o

  20. […] Engavetaram a idéia de transformar a parada numa franquia, e mataram também a outra continuação de TRON. A Disney decidiu que, de agora em diante, ficção científica só mesmo as pitadinhas do Marvel Cinematic Universe e Star Wars (embora Star Wars não seja ficção científica). […]

  21. […] artigo interessante que nos foi indicado é o escrito pelo ótimo Izzy Nobre, do blog Hoje é Um Bom Dia, onde […]