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[ Resenha Cinematográfica ] A Vila

Postado em 3 February 2014 Escrito por Izzy Nobre 16 Comentários


Quando criança, eu adorava o meu Super Nintendo. O Snes era o fusquinha dos videogames: bom e barato (e às vezes só pegava nos trancos). Quando ouvi o boato de que a Nintendo lançaria um super console de nova geração, experimentei meu primeiro orgasmo. Mal podia esperar para ver o novo videogame da empresa que era praticamente uma divindade para mim e meus amigos.Aí saiu o Nintendo 64.

Com o advento do IRC lá no finzinho dos anos 90, ficou muito fácil arrumar um par pra pegar um cineminha naquela noite de domingo logo após o Faustão que é a realização da palavra “tédio”. Opções femininas não faltavam. Resolvi tentar a sorte com a ^_GaToSa_16^, uma amiga virtual cujas características físicas fariam inveja a uma modelo internacional. Cometi o erro de não pedir uma foto para que pudesse reconhecê-la com mais facilidade na entrada do cinema mas, pensei, “com um corpo tal qual descrito por ela no IRC, não será difícil encontrá-la“. E realmente encontrei-a.

^_GaToSa_16^ pesava três vezes o que eu pesaria se tivesse comido um caminhão de mudanças, tinha mais óleo na cara do que normalmente se gasta no McDonalds pra produzir trinta quilos de batatas fritas e era tão bonita quanto um acidente envolvendo um ônibus escolar e um trem cheio de grávidas num campo minado.

Como fã de Matrix, eu contava os dias para o lançamento da última parte da série. Coincidentemente, o capítulo final da saga do hacker broxa (quem mandou não tomar a “pílula azul”?) foi lançada no Brasil no dia do meu aniversário. A excitação era palpável. Achei que assistiria o melhor filme da história da cinematografia.

Ao invés disso, passaram Matrix Revolutions.

Como vocês podem ver, a vida me presenteou com terríveis decepções. Por pior que fosse o fracasso da realidade em atingir minhas expectativas, jamais imaginei que algo me faria olhar para o N64, pra ^_GaToSa_16^ e pro ingresso de Matrix Revolutions e dizer, entre lágrimas “Eu era feliz e não sabia!“. Isso, claro, foi antes de eu ter assistido A Vila, o que provou de uma vez por todas que não importa quantas coisas terríveis tenham acontecido com você, um dia lançarão um filme pior do que tudo isso elevado ao cubo.

E quando você se der conta disso, já terá pago pra assistí-lo.


Antes de mais nada, um disclaimer: informo de antemão que, no momento que a namorada pôs o DVD no aparelho, voltou pro sofá chutando minha canela acidentalmente, roubou minha pipoca e disse que assistiríamos um filme muito bom, eu já conhecia o final da película.

Como é de conhecimento popular, o senhor M. Night Shyamalamalemolejo tem como marca registrada escrever/produzir/dirigir/dançar/cantar/fazer strips em filme cujo carro-chefe é a surpresa no final. Assim como em Sexto Sentido, Corpo Fechado e Sinais (mas nem tanto neste último), A Vila aposta suas fichas na grande reviravolta que só é revelada nos momentos finais do filme.

Uma vez que eu já conhecia este final, assistir o filme — assim como o nome de seu diretor — não fazia muito sentido. Eu já esperava que o filme não seria assim tão divertido, ao menos pra mim.

Porém, muito otimista, achei que a produção seria divertida (ao menos “assistível”) por si só, sem o seu “espetacular” desfecho. Ou seja, mesmo sabendo que eu muito provavelmente estaria perdendo meu tempo assistindo A Vila, dei um crédito ao senhor Shymashumalagueta pelas seus prévias criações hollywoodianas.

The joke was on me. A Vila distorceu meu conceito de quão ruim as coisas podem ser, ainda que você não esteja esperando pelo melhor.

Vocês que ainda não assistiram e planejam gastar uns 5 reais alugando o DVD, dois conselhos: em primeiro lugar, não alugue. Sério. Faça qualquer outra coisa com esse dinheiro. Saia e compre chocolates, rasgue as notas, use-as como papel higiênico, use a criatividade. Qualquer finalidade dada a estes cinco reais — incluindo rasgar as notas, queimar os pedacinhos e cheirar as cinzas — será mais proveitosa. Queria eu ter rasgado, queimado e cheirado os 3 dólares que gastei alugando o DVD. Eu teria morrido por intoxicação, ao invés de ter passado 108 minutos assistindo a maior decepção hollywoodiana desde que George Lucas decidiu que não era milionário o bastante e que podia lançar cinco jogos de videogame baseados na franquia Star Wars se gravasse Episódio I – A Ameaça Fantasma.

O segundo conselho, caso você prefira gastar o dinheiro alugando o filme que inalando-o, é este: não pense que você estará alugando um filme legal de terror/suspense. Ao invés disso, encare A Vila como uma comédia romântica européia dos anos 70, filmada toda em câmera lenta, que alguém alugou antes de você e gravou de sacanagem, por cima da fita, três ou quatro imagens de monstros.

Não estou de putaria com vocês. As quase duas horas do filme não passam de um romancezinho mela-cueca do personagem vivido pelo Joaquim Phoenix, o padeiro português da vila, e uma menina qualquer cuja irmã levou um fora do seu Joaquim, ora pois. Do nada, quando você menos espera, a sombra do reflexo da silhueta do monstro aparece para tirar nosso sossego. Nesse momento, a súbita mudança da música acaba fazendo você acordar, ou chutar a namorada como reflexo. Enquanto você esfrega os olhos e limpa a baba da almofada do sofá, o bicho já montou em sua motocicleta invisível e desapareceu de vista.

Isso não é tudo. Aliás, isso é só o começo. Há muito mais coisas horrorosas nesse filminho de merda, dentre as quais posso citar a atuação – ou algo mais notável, a falta dela.

A Academia deveria estabelecer uma regra que impedisse vencedores do Oscar de receber cachês nos filmes seguintes à sua premiação. Isso certamente impediria que atores que no ano anterior foram considerados os mais talentosos de “atuar” (e uso o verbo irresponsavelmente aqui) em lixos como A Vila em troca de alguns trocadinhos para comprar uma Ferrari nova.Encarem isso como uma medida preventiva de suicídio profissional. Aposto que isso evitaria uns três A Vila‘s por ano, jogando por baixo. Adrien Brody deveria ter sua estatueta enfiada no reto e retirada pela orelha esquerda com alicates industriais, e isso não seria nem metade do que ele merecia por ter aceitado sujar o currículo com esse pedaço de merda que é A Vila.

Mas ver um ganhador do prêmio máximo da cinematografia interpretando um mongol com menos de quatro frases em seu repertório é apenas um pedacinho de milho não-digerido nesse tolete úmido e fumegante que é A Vila. Mas esse não é um cocô comum. Estamos falando aqui de um tipo muito especial de cocô, aquele que faz sua mãe abrir todas as janelas da casa e exige pelo menos três descargas para que sua existência hedionda saia de uma vez por todas de nossas vidas. E ainda assim, as marcas que este bolo fecal deixa para trás são irremovíveis. Esfregue com aquela escovinha branca o quanto quiser, nem assim você removerá os resíduos completamente.

E a menina cega?! Como posso escrever uma resenha sobre A Vila e não citar a menina cega?!

Não me levem a mal, não quero desmerecer a desesperada tentativa da atriz em nos convencer que ela estava ao menos tentando atuar. Tenho certeza que Bryce Dallas Howard deve ter pesquisado muito pro seu papel; aliás, sua pesquisa foi tão intensiva e consumiu tanto tempo da garota que ela não teve tempo de aprender o básico sobre pessoas cegas: elas não enxergam.

Justamente por isso é que elas não encaram as pessoas com quem conversam, ou movimentam os olhos na direção de ruídos, ou piscam com frequência, ou conseguem enganar monstros fazendo-os caírem em buracos logo a sua frente, ou seja, coisas que Bryce faz o tempo todo durante o filme. Seria impossível concluir que essa menina era cega se não tivessem deixado isso explícito. Em um momento eu achei que a grande surpresa do filme é que ela passaria uma rasteira no Joaquim, jogaria a bengala na cabeça dele e diria “Aê mané, eu não sou cega não! Sacaneei!” Provavelmente, teria sido um final melhor.

O monstro é uma palhaçada à parte — digo “o monstro”, porque não sei se apareceram mais de um no filme. Vou alugá-lo novamente para tirar a dúvida, mas tenho que lembrar de durex nas pálpebras dessa vez. Quando vi pela primeira vez aquela mistura de Sonic the Hedgehog e Papai Noel corcunda, achei que a intenção do diretor era deixar os espectadores sem fôlego de tanto rir, provocando um coma induzido por falta de oxigenação no cérebro, que nos faria acreditar, quando voltássemos a consciência, que assistimos um bom filme.

Infelizmente, não funcionou comigo. O suposto monstro é muitíssimo obviamente alguém usando nada mais que um traje de monstro-porco-espinho, que na folga do Natal deixou o saco de presentes na floresta e foi assustar aquela gente legal da vila. As pessoas da produção que reasseguraram o diretor de que aquela porcaria seria assustadora devem ser aquele tipo de gente que sempre dormem de luz acesa e se mijam de medo quando vêem borboletas.

Mas não posso julgar o senhor Shyamleiohaqlqwo; se eu fosse lançar um filme ruim com um monstro que só aparece durante cinco minutos em quase duas horas, eu também teria economizado nos efeitos especiais e contratado os melhores marketeiros do mercado pra vender a idéia.

Agora, à parte que todos esperavam: o final.

O filme é bem velho, então acho que todos já assistiram-no e assim ninguém se chateará se eu contar que o(s) monstro(s) na verdade não existem, e que foram criados pelos tais anciões para impedir que os mais novos se arriscassem a atravessar a floresta e descobrissem que na verdade não é ano 1897 porra nenhuma, e que os anciões são uns bundas-moles que, cansados de lidar com a dureza da realidade, recriaram uma vila do século passado pra se esconder nela.

(Se você ainda não assistiu o filme, não leia o parágrafo acima.)

Vou ter que dar o braço a torcer aqui: a história é muito interessante, se não fosse esculhambadamente mal contada. Acontece que o senhor Shyamlashuiwjsdqamnn, que deve ter deixado o sucesso subir a cabeça, resolveu desafiar as próprias habilidades como diretor. Ao invés de contar a história como se faz normalmente, ou seja, início, desenvolvimento com conversas chatas, clímax e GRANDE SURPRESA, ele resolveu inovar com início, desenvolvimento com conversas chatas, desenvolvimento com conversas chatas, desenvolvimento com conversas chatas, desenvolvimento com conversas chatas, desenvolvimento com conversas chatas, GRANDE SURPRESA e clímax.

Se você não sabe o que isso quis dizer, explico (porque tou com preguiça de fazer um GIF animado). Lá pelo finalzinho do filme, a menina cega decide atravessar a floresta para buscar remédios e salvar a vida de Joaquim, que levou facadas do outro gajo. Somos levados a pensar que esse será O MOMENTO do filme, que toda aquela chatice a que fomos submetidos nas últimas trinta horas de romancezinho chove-não-molha foi o prelúdio para os grandes sustos que levaremos agora.

Aí o diretor decide que talvez nós ficaremos mais assustados se já soubermos de antemão que os monstros não são reais. Ou seja, minutos antes do que seria os sustos de nossas vidas, o diretor vai e conta o final precipitadamente. Qual a graça de ver a menina cega fugindo de algo que já sabemos (nós e ela) não ser uma ameaça, e sim um engraçadinho usando uma roupa de Papai Noel com palitos de dentes espetados nas costas?

Não sei.

Mas M. Night Shayfjklawhpdanjkq achou que seria o maior barato.

Essa foi a grande surpresa de A Vila. Todos foram ao cinema motivados pela sensacionalística campanha publicitária que implorava para que aqueles que já tivessem assistido o filme não contassem o final pro seus amigos. No fim das contas, o próprio diretor estragou o final, contando a surpresa antes da hora.

Má atuação, história arrastadíssima, final tão espetacular quanto um prego torto e, como se isso não fosse o bastante, ainda foi estragado pelo próprio contador da história. A Vila é um fracasso retumbante em qualquer nível concebível pelo sentido da palavra “fracasso”.

Sou um homem humilde e consciente das minhas limitações. Tenho plena convicção de que mesmo que eu fosse pago horrores, quisesse ardentemente e me esforçasse muito, jamais conseguiria fazer um filme pior que esse. O senhor Shyajlandoqiueq merece meu respeito por ter atingido o nível máximo de escrotice que foi permitido enfiar num rolo de filme, coisa que os diretores de Power Rangers, Spice World e Debi & Lóide apenas sonharam.

A Vila é, concluindo este post, A maior decepção que alguém pode ter na vida. Nunca na história da cinematografia um diretor conseguiu capturar com tanta perfeição a sensação de abrir um presente de Natal e encontrar um par de meias.

Seria melhor que eu tivesse comprado um Nintendo 64, casado com a ^_GaToSa_16^ e viajado pra Los Angeles pra assistir a World Premiere de Matrix Revolutions. O risco de que o “efeito borboleta” dessas atitudes resultariam em que eu jamais assistisse A Vila faria valer a pena jogar Nintendo 64 pro resto da vida.

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comments

Categorias: Cinema

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

16 Comentários \o/

  1. emes says:

    Tenho a impressão de ter lido isso antes, confere?
    btw, primeirão.

  2. Anderson says:

    achei o filme sensacional na época que assisti, e ainda hoje acho a história bem legal… me julguem como acharem melhor…

  3. Leandro says:

    Não achei assim tão ruim, mas concordo com o que você disse. Bela resenha, ri muito aqui.

  4. Vinicius Martarello says:

    Lembro desse filme sebdo satirizado em Todo Mundo Em Panico 4, que aliás é outra grande merda

  5. Rafs says:

    Porque você não gosta do N64, cara? ‘-‘ E acho que sou um dos poucos que tem o prazer de dizer que nunca viu esse filme, ainda bem que já tinham me contado a história

  6. Clean says:

    Eu gostei do filme quando vi ele no lançamento, mas apos ler a resenha acho melhor ficar com a minha lembrança, e não voltar a velo.

  7. Vinicius Ortiz says:

    Assisti esse filme com meus tios com 9-10 anos, quando criança você não tem um senso crítico para achar um filme bom ou ruim (pelo menos eu não tinha). Mas, mesmo assim, desde aquela época até hoje considero o pior filme que já assisti na vida.
    Até hoje falamos sobre isso na família…

  8. Bruno Guedes says:

    O negócio tá tão tenso que eu estou até feliz de ver um texto longo aqui, mesmo que seja repost. E, a bem da verdade, eu não lembrava desta resenha em particular, então acho que tudo bem.

    Enfim, não querendo defender o Shyamalamadingdong MUITO, mas dá pra sacar que a idéia de revelar que os monstros não são reais é para 1) desarmar o espectador pro segundo twist(que é o fato de que não estamos no século XIX, OHMEUDEUS) e 2) porque aí quando aparece um outro monstro, há um leve suspense já que se as fantasias estão todas no galpão, então Que Diabo É Isso?(tm)

    Acontece que é outro sujeito numa fantasia caseira e a tensão é quase nula então, final das contas, a merda está feita.

    E ainda assim, o senhor Shyamalalala-in-the-morning conseguiu o maior plot twist de todos, que é se superar com “Fim dos Tempos” E “O Último Mestre do Ar” depois. Ninguém esperava isso, hein:

    PS.: Deixei “After Earth” de fora porque dizem que o filme é mais cria do Will Smith que do Shyamalabcdefghjklmnop.

    PPS.: E aqui estou eu comentando num repost de um texto de anos e anos atrás. É a vida.

  9. BrunoHe says:

    Uhauheuha, vc já era sacana desde os primeiros textos.

    Continue com os reposts bem antigões Izzy.

  10. Gregório says:

    Acho o filme espetacular. Tu simplesmente olhou para a superfície, sem enxergar as camadas.

    http://www.contracampo.com.br/63/avila.htm

  11. IBG says:

    E eu? Que tive que assistir isso na faculdade porque a professora de Sociologia tava sem saco pra dar aula?

  12. Diogo Assis - Dhix says:

    Qual o problema de informar que é um Repost Izzy. Evita que leitores antigos precam tempo com artigos que so vao lembrar que leram após alguns parágrafos. Acho educado, é cuidado com o leitor e evita irritações. Pense nisso.

    • Izzy Nobre says:

      Quanto tempo você demora pra ler alguns parágrafos e perceber que já leu o texto, só por curiosidade…? Uns 40 segundos?

      • Diogo Assis - Dhix says:

        Isso 40! e você pra colocar no titulo um simples [REPOST] ? Mas ok, só uma SUGESTÃO de um leitor das antigas que curte seu trabalho e participa das suas campanhas. Mas sugestão é como convite, quem oferece é por educação e aprecia sua companhia e outra aceita se quiser. Sucesso sempre amigo.

  13. Oliver says:

    Assisti esse filme obrigado na faculdade. Tive que fazer uma análise dessa porcaria.