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Sobre filmes dublados

Postado em 2 March 2012 Escrito por Izzy Nobre 8 Comentários

Eu estava lá em Edmonton na semana passada, deitado preguiçosamente na cama do hotel, quando alguém berrou histericamente no tuíter:

CARALHO MOLEQUE TÁ PASSANDO DE VOLTA PRUFUTURO NA RECORD!

Mais que depressa, saquei o celular.

A quem interessar possa, este é o app do Justin.TV, onde sempre tem algum maluco com placa de captura de TV fazendo broadcast de canais brasileiros para a alegria de nós emigrantes.

Justin.TV significa, aliás, “Just In”, ou seja, aquela expressão usada por repórteres televisivos quando uma notícia urgente acaba de chegar em sua mesa. Não é referência a nenhum “Justin” não, seja Timberlake ou Bieber ou Kubitschek. Aliás, pera, era JUSCELINO o nome daquele presidente, não Justino né? Esquece.

Tive que ir na wikipédia conferir

Nunca havia assistido De Volta para o Futuro dublado antes (e se assisti, esqueci), porque meu pai tinha os filmes em VHS. Meu pai aliás sempre foi um grande proponente dos filmes legendados, uma preferência lugar-comum neste nosso mundo atual de hipsters que tiram foto de copo da Starbucks, mas que era bem mais incomum nos anos 80 e 90.

Após anos morando fora do Brasil, meu relacionamento com dublagens é um pouco diferente. Primeiro, ver filmes dublados me dá uma nostalgia incrível; ouvir as vozes brasileiras do Eddie Murphy ou do Schwarzenegger me remete de volta às tardes assistindo TV na casa da minha avó, sentado no chão tomando vitamina de banana e comendo coxinhas duvidosas fornecidas por um vendedor ambulante do bairro.

Aliás, é interessante ressaltar que, ao contrário de outros artistas estrangeiros de nome desconfortável pros norteamericanos, o Xuáza nunca adotou uma alcunha americanizada. Vide Charlie Sheen, por exemplo, que nasceu como Carlos Estevez, ou seu pai, que se chama na verdade Ramón Antonio Gerardo Estévez.

Por isso, assistir filme dublado me traz lembranças agradáveis dos tempos de vida brasileira. Sei que tem muito xiita hipster por aí (e porra, pra alguém que afirma detestar o que é popular não deveria nem usar a internet pra começo de conversa) que diz preferir beber mijo de um mendigo a se submeter a esse ópio das massas sujas que é um filme dublado, mas eu não penso assim. Eu gosto.

Mas isso é no caso de filmes clássicos, porque a dublagem brasileira faz parte da minha memória da experiência do filme. No caso de seriados que eu conheci em inglês — ou passei a acompanhar com frequência após me mudar para o Canadá, como South Park, Simpsons, Family Guy, e, bem, praticamente TUDO quanto é seriado já que eu não assistia lá muita coisa quando morava no Brasil –, ver a versão dublada dá uma dissonância cognitiva incrível, uma sensação desconfortabilíssima de ver o familiar mesclado com algo totalmente estranho pra mim.

É mais ou menos o efeito inverso de quando vemos os dubladores, pessoas de carne e osso, falando com a voz de seus personagens clássicos. Por exemplo:

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O cérebro rejeita isso, né? Ele está tão acostumado a ouvir essas vozes saindo de outras bocas que ele acha que tá havendo algo de errado.

É exatamente assim que me sinto quando vejo isso aqui:

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É como chegar em casa e ter uma mulher desconhecida fingindo ser a sua esposa. Meu cérebro rejeita completamente o que estou vendo, e fica buscando incessantemente motivos pra desgostar e criticar a dublagem (por mais que os atores tentem simular a voz do personagem principal, um hábito típico da dublagem que o dublador brasileiro do Peter preferiu abandonar).

Eu imagino que é a mesma sensação que vocês experimentarão ao ver este vídeo:

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Pra mim, essa é a voz do Homer. Os quase dez anos assistindo Simpsons aqui com muito mais frequência do que eu fazia no Brasil (aliás, quando a Globo parou de passar Simpsons nas manhãs de domingo, eu essencialmente parei de assistir o desenho) fizeram com que eu me acostumasse completamente às vozes originais.

Vale lembrar, inclusive, que no caso dos Simpsons as vozes brasileiras mudaram diversas vezes, enquando as vozes gringas são as mesmas desde a origem do programa. Ou seja, as vozes brasileiras às quais me apeguei quando via Simpsons nos anos 90 não existem mais, o que solidifica mais ainda a imagem do Homer falando inglês como o “Homer de verdade”.

No caso de desenhos que foram mais presentes na minha infância (por passar todo dia, por exemplo) e que eu não assisto mais — Picapau, digamos –, a dublagem em português é a única que aceito. A voz do Picapau em inglês é esquisita demais. A voz em portugês, pro meu cérebro, é a voz “de verdade” do picapau.

E tem os casos em que ambos a dublagem e o som original são sensacionais e igualmente icônicos. A dublagem de Um Tira da Pesada, por exemplo, é AI AI AI FORMIDÁVEL como dizia o Axel Foley. E anos mais tarde, quando fui a conhecer os especiais de standup do Eddie Murphie (em áudio original; acredito que nem existe dublagem oficial deles), passei a me acostumar com a voz original do Eddie Murphy, que também é humoristicamente excelente pro papel do policial maluco lá.

É possível que eu só tenha esse apego por dublagem após morar tanto tempo fora. O meu isolamento da mídia dublada acabou tornando-a tão distante e pertencente apenas à minha memória quanto as lembranças das tardes nas locadoras e das revistas de games…

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Categorias: Cinema

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

8 Comentários \o/

  1. Felipe Santos says:

    Eu, diferentemente da maioria que vai comentar aqui, adoro a dublagem brasileira, inclusive já tive o sonho de ser dublador de tanta admiração que tenho por esse trabalho.
    A dublagem nacional dá a possibilidade de tanta gente poder assistir filmes, séries e desenhos animados que deveria ser uma das coisas mais valorizadas no Brasil. Mas pelo contrário, principalmente hoje em dia, as pessoas tratam a dublagem como um problema, e até com um certo ódio. Claro que há preferências, e temos que ter direito a opção, principalmente ao ir ao cinema, mas não acho que essa “aversão” à dublagem seja uma coisa “sensata”. Eu talvez as vezes tenha até uma preferência pelo dublado, me sinto mais a vontade para alguns tipos de filmes e séries. E claro que existem dublagens ruins, algumas até podem estragar um filme ou um personagem, porém as vezes temos dublagens que até salvam filmes.
    Só acho que deve haver o respeito, o que está faltando muito para com os dubladores hoje, principalmente na internet.

  2. Guilherme Souza says:

    Eu prefiro olhar legendando como outros milhares, mas não tenho nenhum ódio contra a dublagem brasileira, inclusive acho que já foi dita que é uma das melhores do mundo, não?
    Respeito muito o trabalho e a dedicação de vários dubladores, Guilherme Briggs por exemplo é fodástico.

  3. Anilton says:

    joinha no comentario do felipe santos

  4. João Matteos says:

    Pode estar um pouco tarde, mas Kid, South Park dublado é INFINITAMENTE melhor do que o original. Talvez pelo grande leque de ofensas e palavrões que a língua portuguesa tem, enquanto no inglês a .maioria dos xingamentos utilizados pelo personagens é relacionado a Fuck

  5. Carlos Alberto says:

    Simpsons com a voz da primeira temporada pra mim já tava bom demais só que mudaram fazer o que.
    O estranho disso de dublar e que em vários filmes tu vê que a voz que usaram em um cara de um tal filme foi usada em outro e isso fica esquisito.
    O desenho de dragon ball tem uma voz que usaram no desenho de jackie chan e como se inventar novas vozes fosse difícil.

  6. Juliano says:

    Filme legendado é ruim que você fica lendo ao invés de prestar atenção nos detalhes das imagens…
    Conclusão: se der prefiro dublados, sacrifico um pouco do áudio em troca das imagens

  7. Ygor Nunes says:

    Eu prefiro ver filmes legendados, mas desenhos como South Park e os Simpsons, meu cérebro já gravou as vozes em português e se eu assistir em inglês fica estranho…