
Censurei o objeto subtraído pelo bandido, pra sua conveniência
No meu primeiro dia de trabalho, a minha amiga que me descolou a vaga aqui na loja (que chamarei de “J”) me contou como uma das nossas colegas (“B”) uma vez perseguiu um ladrão que havia roubado algum item qualquer aqui. Aparentemente um crackhead qualquer – um demográfico infelizmente alto, considerando a natureza da loja (vendemos pornografias e pirocas de borracha) – e o horário de operação. Pra quem não lembra ou não sabe ou não se importa, eu trabalho de madrugada. E a madrugada é o horário nobre de circulação de crackheads.
Caso você não esteja familiarizado com o termo, eu explico – crackheads são viciados em drogas (geralmente crack ou meth) que abandonaram completamente as normas de convívio social aceitável e andam por aí roubando qualquer coisa em que possam pôr as mãos e empurrando pessoas na frente de trens.

Embora pra ser honesto, com essa cara aí eu tenho que dizer que ele mais ou menos merecia ser jogado na frente de um trem mesmo
Então.
Aparentemente a B um dia perseguiu um crackhead que havia roubado uns DVDs aqui. Ela não conseguiu pegar o cara, mas no desespero da fuga ele acabou derrubando alguns dos filmes que surrupiou, portanto o prejuízo acabou sendo menor.
Lembro que quando a J me contou essa história, eu pensei “mas que maluca essa tal de B deve ser”. Sou um frangotinho e vivi toda a minha vida acreditando fortemente na filosofia de evitar conflitos físicos sempre que possível. Aliás, isso é um instinto evolucionário que garantiu nossa sobrevivência neste planeta, então “bichinha” é o corno impotente e aidético do seu pai, tá bom?
Nem o dono da loja nem os gerentes esperam que a gente persiga ladrões. O máximo que podemos fazer é ficar de olho nas figuras suspeitas. Se alguém pega algum item e passa sebo nas canelas, não é necessária nenhuma ação nossa além de suspirar ao mesmo tempo que beliscamos a cartilagem do nariz com o indicador e o polegar, e anotar o item surrupiado (quando possível).
A mera idéia de ter um conflito com um crackhead, mesmo que o conflito limitasse a observa-lo pegando vários DVDs e saindo correndo, me dava agonia. Pra um brasileiro, eu sou bastante inexperiente com episódios violentos – fui esmurrado num ônibus uma vez durante uma briga de gangues (longa história, eu era apenas um observador e sobrou pra mim), na escola por fazer graça de um colega de classe (o ouvido do lado oposto ao soco ficou doendo por uns 2 dias), e assaltado enquanto voltava da aula de recuperação na oitava série. Levaram minha camiseta e meu relógio Casio daqueles muito estilosos e nerds que tinham calculadora e tudo.
Por isso eu imaginava que se (ou melhor, quando) alguém tentasse roubar algum item da minha loja, minha reação seria congelar no ato, cagar as calças, e ligar pra noiva chorando.
Ok, tou exagerando um pouco. Mas a real é que quando chegou o dia em que eu tinha que tomar conta da loja sozinho, durante a noite inteira, eu estava na tensão.
Numa manhã de segunda feira qualquer, eu estava trabalhando com a B quando um moleque que não parecia ter muito mais que 20 anos entra na loja. Eram 6 da manhã, ou seja, faltava só uma hora pro meu turno acabar. O sujeito, muito animado e conversador – algo estranho pra uma segunda feira de manhã, eu deveria ter desconfiado – foi direto pra área dos dildos.
Voltei ao meu joguinho de Orions, que pra quem não sabe é uma espécie de Magic the Gathering muito bom pro iPhone, e deixei o sujeito escolher suas pirocas de borracha em paz. Poucos minutos depois ouço-o voltando em direção do balcão. De soslaio noto que ele tem umas 5 ou 6 caixas debaixo do braço.
Ok, essa bicha gulosa já decidiu seus produtos favoritos e tá vindo pagar. Larguei o telefone e me dirigi ao caixa. Noto que o cara está cabisbaixo, o que não é uma postura incomum pra homens que compram esse tipo de produto lá na loja, mas havia algo diferente nos trejeitos do cara – algo errado. Algo suspeito.
No último segundo ele levanta a cabeça e olha pra mim. E o olhar no rosto dele não deixava dúvidas – esse filho duma puta rampeira estava prestes a correr em direção à porta. É difícil descrever exatamente que sinal ele transmitiu, mas naquele momento eu não tinha nenhuma dúvida de que o cara estava tramando uma fuga em alta velocidade.
Ele deve ter percebido minha leve desconfiança. Isso foi a deixa pra que o infeliz disparasse como se houvesse sido impulsionado por uma mola. Os detectores em ambos lados da porta apitaram estridentemente quando o desgraçado a atravessou – cortesia da tecnologia das tarjas de segurança - um aviso desnecessário do furto que estava acontecendo.
Falei “FILHO DUMA PUTA!” em alto e bom som e, sem sequer pensar duas vezes (não pensei nem a primeira aliás), pulei por cima do balcão como se fosse um praticante de parkour com décadas de experiência. Por cima do ombro berrei que a B cuidasse da loja.
Explodi pra fora da loja, recepcionado pelo ar frio da manhã de segunda feira. Olho em volta e o cara não está em lugar nenhum. Corro até a esquina pra ver se ele tava correndo pela avenida. Nada. Vou ao bequinho na lateral da loja, pra ver se ele decidiu fugir por lá. Nada, também. O infeliz sumiu como um peido no vento!
Quando estava voltando pra loja, ouvi um barulho vindo do estacionamento do outro lado do prédio. Fiu investigar a fonte do ruído (lembrem-se, eram seis da manhã e as ruas estavam completamente desertas, não havia muitos outros suspeitos pro barulho). E lá estava o infeliz, abaixado ao lado de um daqueles imensos containers de lixo, olhando ao redor desconfiado. Eis uma foto do local pra vocês entenderem melhor a coisa.

A seta vermelha indica onde eu estava quando notei a presença do marginal, que estava se escondendo naquele local indicado pela setinha verde. No ato berrei “DESGRAÇADO, EU TOU TE VENDO” e sem hesitar pulei desajeitadamente por cima daquele corrimão vermelho. O sujeito olhou pra mim com semblante de TERROR ABSOLUTO e passou a correr em direção à avenida.
Foi nessa hora que eu atentei a um pequeno detalhe – eu estava perseguindo um crackhead que possivelmente não tem nada a perder nessa vida. Quando eu finalmente o alcançasse, e aí? Vou falar “hehehe, blz kra, me dá os dildos aí valeu”? É bem possível que, acuado, o crackhead entre em frenesi e me ataque com fúria assassina.
Temos vários canivetes na loja, que usamos pra abrir caixas de carregamentos de DVDs e tal, mas eu não tive a presença de espírito de catar um deles antes de sair na minha perseguição. O cara tinha aproximadamente meu tamanho, mas parecia muito mais bem fisicamente preparado pra uma street porrada. Eu precisava de uma vantagem sobre o infeliz.
MacGyverei e encontrei um banquinho velho perto daquele lixeiro. Sem pensar duas vezes agarrei o banquinho pela perna e voltei a correr atrás do marginal.
Devo ter demorado mais tempo do que pensei produzindo minha rudimentar arma branca, porque o cara estava a quilômetros de distância.
Não desanimei e continuei correndo. A essa altura ele estava tão longe que, se sentindo seguro, ele nem mais corria. Pensei que se ele continuasse naquele passo tranquilo e eu correndo, em poucos minutos eu poderia estar apresentando a perna do meu banquinho à cabeça do desgraçado.
Infelizmente o desgraçado resolveu olhar pra trás. Eu estava a menos de 50m de distância do desgraçado, mas ao me ver ele se desesperou novamente e disparou. Retardado pelo peso do banquinho que eu carregava, rapidamente a distância entre nós dois aumentou. E aí ele deu uma guinada pra direita e sumiu num bequinho entre um prédio de escritórios e um posto de gasolina.
O local onde a correria aconteceu
Quando o cara desapareceu da minha linha de visão, instantaneamente desanimei. Já estava pensando em retornar à loja quando de repente, ouço pneus cantando bem do meu lado. Era a B, que no ato já abriu a porta do passageiro e gritou “Bora, entra, vamos pegar esse desgraçado”. Pulei no carrinho dela COM O BANCO NA MÃO E TUDO e ela disparou em direção à ruela por onde o meliante havia se escafedido.
Eu estava na pura adrenalina e suor pingando do queixo àquele momento. A B dá uma derrapada e se envereda na vielinha por onde o cara sumiu. Nem sinal dela. A gente roda um pouco pela redondeza, já sem esperança de encontrar o desgraçado, quando o vejo à distância dando a curva pra sumir em outro bequinho.
Esperta, a B nem precisou de aviso – botou o carro em direção ao tal bequinho. Deu a curva, e lá estava o desgraçado novamente andando tranquilamente, já sob impressão de total segurança.
O plano traçado entre eu e a B foi completamente não-verbal. Olhei pra ela, ela acenou positivamente com a cabeça, e acelerou em direção ao cara. Por um segundo achei que ela ia atropelar o infeliz, mas ao invés disso ela freou um pouco à frente dele. Completamente desajeitado, pulei do carro ainda segurando o banquinho. O cara se desesperou e hesitou por um segundo, aparentemente tentando decidir se correria pra frente ou pra trás.
A cena seguinte ocorreu de tal forma bizarra que quando lembro dela agora, é como se tivesse acontecido com outra pessoa. Corri pra cima do desgraçado e me joguei pra cima dele, usando o tal banquinho como “amortecedor”. Lembro nitidamente do momento em que senti os pés descolando do chão e eu percebi que iria cair.
Ambos batemos contra a parede oposta e caímos no chão. O cotovelo protestou com dor quando o bati contra a madeira do banquinho. Caixas de dildos caiam por todo o redor, quicando no chão. Pra um hipotético observador, a cena deve ter sido a mais bizarra possível nesse mundo. Tentei me levantar rapidamente, desesperadamente escaneando os arredores pra recuperar o banquinho e me preparar pra porrada. Apanhei o banquinho pela perna, e o contato do metal com a mão acusou os cortes que adquiri quando tentei parar a queda.
O cara não fez o menor esforço em participar da briga, ele parecia apenas estar freneticamente querendo escapar. Aliás, acho que foi isso que me imbuiu da coragem necessária pra tomar essa postura de Conan canadense, empunhando um banquinho quebrado como uma espada. Enquanto eu pegava o banquinho e me reestabelecia, o mequetrefe apanhou alguns dos dildos que caíram no chão e correu desesperado pros fundos da casa mais próxima. Eu dei um passo pra trás, tensionei o corpo e arremessei o banco contra o infeliz. E o banquinho passou longe dele.
Passei a mão nas calças pra limpar a sujeira e o sangue que corria da mão direita. Olhei pro carro e percebi com indignação que o tempo todo a B não tinha nem tirado a bunda gorda do banco. Boa parte da mercadoria roubada estava espalhada pelo chão, meio suja e amassada mas nada que um paninho molhado não resolvesse.
A mão começava a doer. Já era umas seis e meia à essa altura, hora que a chefia chega pra liberar a gente. Resolvemos encerrar a perseguição e voltar pra reabrir a loja, pra evitar o “WTF?!” da chefe quando ela aparecesse e visse a loja trancada e deserta.
Revendo as imagens da câmera de segurança já com os ferimentos limpos, calculamos que ele escapou com mais ou menos 40 dólares de mercadoria. No final das contas, deu pra salvar quase $80. Algumas caixas estavam danificadas demais pra voltar pras prateleiras, então jogamos no lixo.
E a minha chefe tirou um printscreen da minha cena pulando por cima do balcão, pregou no corkboard do escritório e escreveu com canetinha azul embaixo “DON’T FUCK WITH IZZY LOL!!!!”.
Minha vida é a mais bizarra do mundo.





RT @izzynobre: @roniuj http://bit.ly/cQ1Zs #euribagarai
eu tô rindo alto!
Recuperaram 80 dos 40 dolares roubados? Caralho, ser roubado da um puta lucro!
u ladrao de POMBA..
Cadê foto do momento mágico em que você pula por cima do balcão?
P.S- Eu comemorei quando você disse que ainda consegui recuperar alguma coisa do roubo, e soltei um PQP quando o banquinho passou longe da cabeça do cara.
Izzy, seu bosta! Escreva um livro.
Abraços, do seu fã!
ahuahauhauahauahauh
o cara correu deseperado em vez de partir pra briga pq ouviu vc chingando em portugues e deve ter pensando ‘putz essi cara tah endemoninhado me fodi’
EXTREME LOLZ! Não consigo parar de rir com esse texto!!!
EXTREME LOLZ! Não consigo parar de rir com esse texto!!! XDDD
PQP!! MUHAUAHUHAUHUAHA! Daria um bom curta isso aí. xD
Ou um bom clipe pra alguma música do Green Day.
Ri Litro Aki man não conhecia seu trampo so
seu channel no youtube,ontem tava ouvindo Oraculo
eles falarão do cara q saiu do Brasil e foi pro canada vencer na vida Parabens pelo post
Obrigado por alegrar minha vida
SS ou gtfo.
“Recuperaram 80 dos 40 dolares roubados? Caralho, ser roubado da um puta lucro!”
KKKK! Também notei isso assim que li… LOL
Don’t fuck with Izzy.