Hbdia
  • Feed do Hbdia
  • Twitter
  • Youtube

Valentine's Day

Postado em 18 fevereiro 2010 Escrito por Izzy Nobre 64 Comentários

cupid

Como vossas bichências devem saber (ou não, sei lá), dia 14 de fevereiro é o Valentine’s Day, o equivalente gringo do nosso Dia dos Namorados.

Dia dos Namorados o mais descarado de todos os feriados artificais criados pra agitar um mês fraco pras compras – não se engane, essa é o único motivo pra existência da data. A única diferença é que aí na pátria mãe temos o Carnaval em fevereiro, então não houve necessidade de adotar o mesmo dia que os gringos usam. Mudou-se pra junho. É junho, né? Parei de celebrar essa data em 2003, então não lembro.

(Quando minha mulher ficou sabendo que o Dia dos Namorados tupiniquim localiza-se em outra data, a gringa se espevitou toda pra que adotássemos ambas datas. Com algum malabarismo lógico, consegui faze-la abandonar a idéia)

Tirando essa diferença cronológica, o Valentine’s Day tem uma importante semelhança com o nosso Carnaval:

Pessoas trepam MUITO nessa data. E como você pode facilmente concluir, isso é bastante significativo pra alguém que trabalha no ramo em que eu trabalho.

Cheguei aqui na loja no dia 14 e essa porra tava completamente, absurdamente lotada. Pra te dar um contexto, como trabalho de madrugada e este é um horário em que pessoas de bem geralmente estão no quinto sono, eu costumava considerar “loja lotada” qualquer número superior a 3 fregueses.

No Valentine’s Day havia quase 40 pessoas na loja simultaneamente. Acabei de medir a loja com passos e, se minhas aulas de geometria da sétima série não foram completamente esquecidas, calculei que a loja tem aproximadamente 260 metros quadrados. Ou seja, era gente pra cacete, considerando a área pequena.

Tentei até fazer uma planta da loja no MS Paint, pra ilustrar melhor o negócio, mas em menos de 3 linhas notei que não tenho o menor talento – ou sequer coordenação motora - pras artes visuais. O Michael J Fox numa montanha russa faria um trabalho mais decente, o que seria o segundo motivo pelo qual ele é melhor que eu (o primeiro é que ele vôou num hoverboard).

Praguejei baixinho enquanto dava a volta no balcão pra tirar minha mochila, meu casaco, e me situar. A condição presente significava duas coisas:

  • Com tamanho volume de consumidores de dildos, calcinhas comestíveis e revistas de mulher pelada, eu teria que zanzar pela loja constantemente pra desencorajar os mãos-leves a embolsar mercadoria sem pagar. Ou seja, nada de ficar twittando ou escrevendo artigos daqueles que pagam o meu aluguel (obrigado TecnoBlog, AppStore Blog, e Bobagento!).
  • Sou o único trabalhando no horário da madrugada. E ainda bem, porque essa velhota que contrataram pra substituir a antiga gorda neurótica é mais velha, mais gorda, e mais inútil que a outra. Dei mil vivas quando consultei a postagem dos horários e vi que não trabalharia mais com ela). Assim sendo, não posso ir ao banheiro até que todos os pervertidos tenham ido embora. Já passei sufoco de ter que esperar mais de uma hora pra um punheteiro particularmente indeciso comprasse seus DVDs e fosse embora; quanto eu teria que esperar pra que 40 clientes fossem embora?

Praguejei novamente, puxei uma cadeira e sentei-me ao balcão, observando as câmeras de segurança. Casais se davam beijinhos enquanto decidiam que óleo de massagem comprar, e os punheteiros solitários compravam seus filmes de travecos com uma dose de vergonha e depressão maior do que a de costume.

Eventualmente essa turma toda se mandou. Eu corri, tranquei a porta, fui ao banheiro e esvaziei mais ou menos 3 litros de urina. Voltei ao balcão e montei minha área de trabalho costumeira: netbook, iPhone servindo como modem, Opera com 18 abas abertas, e minha cópia de Jurassic Park. Já li essa porra umas seis vezes.

Já mais aliviado, dei uma olhada na caixinha que temos aqui atrás do balcão. Todos os objetos de relevância (itens danificados, faxes de fornecedores, recados de outras lojas, etc) vão pra caixinha, pra que a gerência lide com os troços.

Notei que havia uma porrada de currículos na caixinha, o que achei incomum mas rapidamente fez bastante sentido – antecipando que o núcleo famíliar provavelmente aumentaria nos meses seguintes à uma noite de fodelança descontrolada, os mais precavidos já estariam na caça de um segundo emprego.

Folheei os currículos com notável animosidade – estes/estas infelizes acham que podem vir aqui e tomar meu emprego? Veremos o que o triturador de papel tem a dizer disso.

Em todo emprego você aprende algo importante, e uma das coisas que aprendi aqui (além das melhores marcas de lubrificante e estúdios de pornografia) é que a grande maioria das pessoas em geral não sabe escrever um currículo.

Na minha mão havia uma larga amostra de todo tipo imaginável de gafe profisional que alguém pode cometer no seu CV: mudanças de fontes ao longo do documento, erros elementares de ortografia, montanhas de informações irrelevantes (“sério que você fez um curso de paraquedismo em 1999? Puta que pariu, ainda bem que você avisou, tá contratado!”)

Nunca tive um trabalho que me desse essa oportunidade pra analisar currículos, e eu descobri que currículo é uma parada que desperta o crítico em nós. Eu lia os currículos com atenção, sherlock-holmeando toda informação que eu podia extrair dos dados que o fulaninho entregou.

E aloprando tudo.

Mora em X? Boa gente não pode ser. Fez faculdade em Y? Que pobre fodido. Cursava A na universidade B e largou? É um vagabundo de marca maior. Como assim este desgraçado não tem um email pra contato? É de fato um indigente e possivelmente mora naquela lata de lixo ali do beco e tem leptospirose.

E aí encontrei um currículo que me deixou sem reação por alguns instantes. A garota recebeu educação prestigiosa – formou-se como paramédica numa célebre faculdade local, além de ter retornado pra cursar Radiocomunicação.

Credenciais respeitáveis, embora levante a questão “por que diabos uma paramédica licenciada está tentando arrumar trabalho numa sex shop?”.

Foi a linha abaixo que realmente me chocou. De acordo com o CV da garota, ela também tinha um outro diploma.

Em Teologia Bíblica.

Muita coisa veio a mente em seguida. Primeiro, aquele currículo era a prova cabal da incerteza que orbita a existência de um universitário: era notável que a mulher tentou diversos ramos acadêmicos e não se satisfez com nenhum.

E o motivo é simples. Quando você escolhe sua faculdade, você só estará entrando naquele mercado de trabalho, realisticamente, nos próximos 5 anos. Não há nenhuma garantia de que a área de atuação escolhida permaneça tão lucrativa; é uma aposta às cegas.

Este é um fato conhecido por qualquer pessoa que já tenha cursado uma faculdade por mais de 2 anos; calouros irritantes com sua postura “passei no vestibular = minha vida está feita” irão um dia sentir a piroca flácida da realidade batendo ruidosamente em seus rostos.

Entrar numa faculdade (e por extensão, obter um diploma) às vezes não significa absolutamente nada no mundo real – vide esta paramédica formada tentando concorrer a um trabalho contra MIM, um imigrante brasileiro que abandonou a faculdade pra vir pra cá.

(Não se engane no entanto, por via de regra ainda é melhor ter um diploma do que não ter, e por isso tou correndo atrás. Só queria deixar claro que canudo não é um apólice de seguro pro futuro)

O segundo ponto é uma extrapolação do primeiro – pior do que se formar e descobrir que não gosta da função exercida, é se formar e descobrir que tal função é completamente inútil.

De acordo com o currículo dela, a menina havia recomeçado a faculdade
apenas 6 meses após se formar em Teologia Bíblica. 6 meses é um período bastante curto pra decidir que o poço secou naquela área, então concluo que a coitada chegou a conclusão que atear fogo no dinheiro que ela gastou obtendo aquele diploma seria imensamente mais útil, visto que ao menos geraria luz e energia.

Isso é foda demais, e eu via o quadro se repetindo na faculdade todo semestre, quando calouros de filosofia/biblioteconomia iniciavam os estudos.

A questão final era a mais significativa – o que diabos alguém com um diploma em Teologia Bíblica estava fazendo tentando arrumar emprego numa sex shop? A formação dela foi por uma escola cristã particular, ou seja, não tenho ilusões de que o interesse dela no dogma religioso era apenas acadêmico. Essa mulé era uma cristã fervorosa, possivelmente de família fervorosa também. O que diabos…?

Aí lembrei que eu mesmo já havia uma vez sido um cristão fervoroso, de família com raízes religiosas profundas também. E considerando onde estou e quem me tornei, a trajetória dessa menina não era apenas estranha – de repente temos muitas figurinhas pra trocar em relação à “desconversão”.

E por um momento vi um possível competidor com olhos menos críticos, imaginando que se a menina arrumasse um emprego aqui seríamos provavelmente bastante amigos.

Uma pena que o currículo dela já havia sido triturado há 10 minutos.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Categorias: Contos da porn shop

64 Comentários \o/

  1. Lana disse:

    Essa história me lembrou o http://sexxxchurch.com/home, que é um site “moderno” da igreja pra tentar vender pros jovens idéias do tempo de matusalém.

  2. CCCC disse:

    Kid viado, vai morrer com toda sua área de trabalho costumeira (netbook, iPhone servindo como modem, Opera com 18 abas abertas, e sua cópia de Jurassic Park) socada no cu.

  3. Issue disse:

    Ah, o amor…!

  4. Lightspeed disse:

    123654789