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[ Diário de um (quase) paramédico ] Conheça a bela cidade de Mayerthorpe!

Postado em 21 April 2015 Escrito por Izzy Nobre 17 Comentários

Olá. Caso você seja recém chegado aqui em meu site, te dou um resumido PREVIOUSLY ON HOJE É UM BOM DIA: eu moro no Canadá, e estou na etapa final de um curso onde me formarei como Emergency Medical Technician, ou EMT, ou “paramédico” em bom português. EMTs são os caras que te tiram de dentro do carro que você estourou no poste, ou que fazem reanimação cardiopulmonar no seu avô pra garantir que o véio viverá até a próxima ceia de Natal (depois dela, não me responsabilizo mais).

A última porção do curso se chama “practicum”, que me dizem ser equivalente a um internato ou uma residência no contexto educacional brasileiro. Se isso parece falsa falta de familiaridade com conceitos brasileiro pra pagar de expatriado cosmopolita, nem é o caso — estou aqui há mais de dez anos e até quando morava no Brasil eu era bem burro pra essas coisas, imagine então agora.

Então. A cada quatro dias, eu coloco minhas tralhas dentro do meu carro e dirijo 4 longas horas em direção ao norte da minha província, até a pitoresca cidade de Mayerthorpe. Uma cidadezinha de mais ou menos mil habitantes que tem todo aquele charme de cidadezinha de interior (viajei muito pelo interior do meu Ceará, e Mayerthorpe estranhamente me lembra muito daquelas viagens).

O único problema é que essencialmente nada acontece aqui, o que torna minha estadia aqui um pouco entediante às vezes. Afinal, eu dependo de pessoas se acidentando pra poder completar meu treinamento.

Quando digo que NADA acontece aqui não é hipérbole, meu caro leitor internáutico que está aqui possivelmente procrastinando seu trabalho. De acordo com o site da cidade, este é um evento que rolará nessa semana:

Screen Shot 2015-04-19 at 10.08.50 PM

“Pintura de um pássaro em acrílico”. Repare também que entre agosto e abril NÃO HÁ EVENTO MUNICIPAL ALGUM.

Tendo algum tempo livre, decidi documentar minhas aventuras aqui, porque afinal de contas, POR QUE NÃO. Entre um octagenário cair no chão e não conseguir se levantar, ou uma criança bater o dedo na porta de um carro, achei que vocês gostariam de ler as desventuras de um aprendiz de paramédico brasileiro num fim de mundo canadense.

Então. Hoje eu cheguei aqui em Mayerthorpe e fui saudado com a placa meio artesanal que a comunidade ergueu na entrada da cidade para servir de aviso aos incautos que continuem dirigindo porque ainda não chegaram na civilização. Nesse momento eu lembrei que, em minhas pesquisas sobre a cidade antes do começo do practicum, eu reparei que TODAS as fotos dessa placa eram em péssima resolução. Decidi desbravar um novo caminho na história tanto da cidade quanto da própria internet, uploadeando a possivelmente melhor foto da placa de Mayerthorpe em toda a rede mundial de computadores.

Olhaí

Após completar esse serviço cívico em divulgar a Mayerthorpe para o mundo, resolvi tirar uma foto que melhor registrasse que eu de fato passei por aqui. Eu faço isso porque acredito, de fato, que sou o primeiro brasileiro a passar por esta cidade.

IMG_5395

Cheguei quase duas horas mais cedo do que precisava pro meu expediente, então resolvi perambular por Mayerthorpe documentando esta pequenina cidade.

IMG_5327

Esta é a principal avenida da cidade, que conecta pontos turísticos como “o posto de gasolina” ao “placa da clínica veterinária que fechou em 2006 mas ainda não removeram”.

Adiante do Izzymóvel, o Bottle Depot — que além de servir como centro de reciclagem de garrafas, é um dos primores arquitetônicos de Mayerthorpe.

Esta placa de Pare foi eleita a terceira melhor placa de Pare da cidade, por 2 anos consecutivos. As categorias são perpendicularidade, tonalidade do vermelho, acurácia da grafia, e efetividade. Eu parei quando a vi, então entendo ter ganho nessa categoria.

Um dos maiores patrimônios de Mayerthorpe, a Pilha de Pneus de Trator ornamenta a avenida da cidade (repare que não preciso dar um nome à avenida, por questão de ser a única) há várias gerações. Metade instalação artística e metade uma pilha de pneus de trator, a Pilha de Pneus de Trator é um monumento à sustentabilidade e expressão artística rural pós moderna.

Um espécime do raríssimo gatus ruralis mayerthorpeensis, visto aqui olhando para meu carro e se perguntando por que diabos eu parei no meio da rua para tirar uma foto dele.

É perfeitamente possível que eu seja o primeiro cearense a tirar uma foto dele, e igualmente possível que serei o último.

Uma residência de Mayerthorpe, com aquela típica aparência “de filme”.

Outra casa, divulgando orgulhosamente a campanha política de George Vanderburg, que está se canditadando a… digamos, Conde, eu acho? A campanha de George Vanderburg promove responsabilidade fiscal, liberalismo econômico e maior presença de placas ganhadoras de prêmios.

Eu acho que o George vai ganhar essa eleição. Só vi propaganda política dele. De repente Mayerthorpe é um Estado comunista estilo a Coréia do Norte, liderada há gerações pela família Vanderburg em eleições de mentirinha onde o patriarca da família é o único candidato nas eleições.

Uma das caixas de madeira de Mayerthorpe, usada sabe-se lá para que. Na cidade grande seria uma possível morada para mendigos; aqui? Uma entrada pra Nárnia é meu chute.

Não vi fumaça saindo desse trailer mas após Breaking Bad é impossível ver um RV sem fazer a conexão mental com o submundo das drogas.

Algumas casas mais tarde, outro possível laboratório móvel de metanfetamina. Parece piadinha e tal, mas pouco tempo após tirar essa foto apareceu perto daquela casa ao fundo uma mulher com cara de poucos amigos, desconfiadíssima do forasteiro aqui. Calma minha senhora, não vou denunciar pra polícia nem nada, quero apenas documentar minha passagem pela sua cidade.

Avistei esse banco à distância. Um banquinho solitário no meio do nada na planície canadense. Nesse exato momento eu pensei em como eu nasci muito tarde para a exploração marítima, e muito cedo para a exploração espacial. Nasci numa época inerte, previsível, sem aventuras, onde todo o mundo já foi cartografado, explorado, e descrito num artigo da wikipédia.

Mas em algum lugar, perdido no vácuo rural canadense, existe um banquinho que jamais foi sentado antes por um emissário da nação brasileira. Eu tive uma certeza tão plena que nenhum brasileiro jamais sentou nesse banco, que se você fizesse um exame de sangue em mim era capaz disso aparecer no laudo.

Então eu parei o meu carro, desci, fiz o que dois grandes representantes da humanidade fizeram naquele dia 20 de julho de 1969.

Foi uma pequena sentada para um homem (epa), mas uma grande selfie para a humanidade. É possível que essa também seja a primeira selfie tirada em Mayerthorpe.

Em um momento eu pensei ter visto um fóssil do passado, uma relíquia de tempos longínquos: uma locadora de filmes. “Que incrível túnel do tempo é esta cidade”, pensei animado. Tenho aqui a chance de explorar um artefato de outra era — caminhar entre as prateleiras de filmes para aluguel tal qual eu fazia em 1996.

Mas minha empolgação morreu prematuramente quando percebi que nem mesmo o interior de Mayerthorpe permaneceu intocado pelo fenômeno dos torrents e Netflix. O prédio estava vazio, e disponível para aluguel.

E essa foi minha pequena tour por Mayerthorpe. Apesar de sempre ter sido um “garoto de cidade grande” minha vida inteira, sempre morando em capitais de estados e tal, eu nutro uma grande admiração por essas cidadezinhas do interior. Me lembram muito, como falei, o interior do Ceará de onde meus avós vieram — uma vida simples, um pouco mais devagar e tranquila.

Só espero que não seja tranquila DEMAIS, senão nunca terminarei meu internato!

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comments

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 32 anos, também sou conhecido como "Kid", e moro no Canadá há 13 anos. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas, e sobre notícias bizarras n'O MELHOR PODCAST DO BRASIL. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

17 Comentários \o/

  1. Rafael says:

    Que situação mais bizarra. A gente fica querendo que alguem se foda pra você ter trabalho e cumprir seu “internato” (tá certo isso?), mas ao mesmo tempo não quer que ninguem se machuque.
    Essa cidadezinha parece ser tão calma. Será que não rola um Vlog andando por aí? Principalmente de noite, porque gostaria de ver como é a iluminação de um lugar como esses ai no Canadá. Minha avó vivia num lugar bem parecido, mas nordeste é nordeste né, ainda mais nos anos 80.

  2. AngeloJr says:

    Essas cidades do interior canadense não tem competições malucas como arrancadão de tratores, como aqui no Brasil, EUA ou Holanda? Parecem bizarros na primeira vista, mas são bem legais!

  3. Vicente Gabriel says:

    ”É possível que essa também seja a primeira selfie tirada em Mayerthorpe.”
    MAS VC JÁ HAVIA TIRADO UMA SELFIE NA ENTRADA DA CIDADE. é um animal msm esse izzy :/
    De resto é um ótimo texto, o melhor do ano até agora 😀

  4. Carolina says:

    ushasuahsus um dos melhores textos do site, sem dúvidas ele deverá aparecer em um futuro livro seu.
    Ah sim, por ser uma cidade tão pequena e tranquila, não deve ter muitos assaltos ou outros crimes por aí, né? Creio que a polícia daí deve ser bem desocupada.

  5. A parte do banco foi impossível não rir, mas pude imaginar a sensação, hahaha!

    Ótimo texto, IZzy! Espero que relate mais coisas sobre essa pequena cidade do interior.

  6. Vinicius says:

    hahaha Cara, que doideira esse tour. Você deveria fazer amizade ali com os locais e mostrar o mundo moderno e civilizado pra eles. ahhahaha

  7. Leonardo says:

    Adorei esse post.

    Por favor faça mais similares a este. Não precisa ser em lugares tão remotos, nem com esse grau de sarcasmo..

    Não, peraí, mantenha o sarcasmo!

    • Leonardo says:

      Se voltar a fazer textos com tanta frequência como antigamente já ta bom.
      O sarcasmo aliado á habilidade do izzy de escrever crônicas fazem dos textos REALMENTE bons e interessantes.

  8. nicholas says:

    Essa de ‘primeiro brasileiro’ é ilusão, já tentei ter essa sensação. Estava uma vez num vilarejo de 3km quadrados no extremo sul da estônia e pensei o mesmo. Ledo engano. Não era. Tamo em tudo que é canto. Pra ser primeiro brasileiro agora, só fora do planeta 😀

  9. João Pedro says:

    O carro do Google Street View já passou por Mayerthorpe, então não é tão fim de mundo assim.

  10. Rubens says:

    Izzy, to lendo seu livro e estou adorando! Só queria te avisar que no texto do gringo da Herbalife tem um parágrafo todinho repetido! flww.

  11. Gustavo says:

    O mais bizarro é que não aparece nenhuma alma viva nas fotos, tirando o Izzy é claro, pois ele é gordo. (ZUERA)

  12. BrunoHe says:

    Parece o tipo de lugar q o Trevor moraria

  13. HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
    Sem dúvida alguma, um dos melhores textos do site!

  14. […] expliquei num texto passado, estou finalizando meu curso de paramedicina com um estágio não-remunerado numa cidadezinha no […]