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A suposta "farsa" da imigração canadense

Postado em 16 maio 2011 Escrito por Izzy Nobre 116 Comentários

Já já eu posto a continuação do texto sobre a minha suspensão (tal quais os grandes mestres das continuações cinematográficas, escrevi ambos textos simultaneamente; o segundo “capítulo” já tá prontinho). Antes que possamos voltar à história, no entanto, queria chamar a atenção de vocês pra um negócio que me diz respeito.

Se eu sou um “personagem” nesta imensa internet, há algumas características icônicas que me definem: minha adoção da iconografia clássica do Mario, meu espírito nostálgico, minha preferência por aparelhos portáteis da Apple, e o fato de que eu moro no Canadá.

O que acaba acontecendo é que sempre que rola uma notícia na internet relevante a uma dessas características, eu a recebo de 500 fontes diferentes. Qualquer coisa relacionada a Mario, nostalgia, iPhone ou Canadá chega na minha caixa de mensagens ou nas mentions do tuíter em velocidade recorde. O pessoal sempre faz associação entre essas coisas e eu, conclui que seria do meu interesse ter conhecimento disso, e manda pra mim.

Sempre que alguém decide fazer um bolo temático sobre o Mario, tirar uma foto e pôr na internet, eu recebo essa foto 800 mil vezes por MSN, tuíter e email

Quando os (agora defuntos) sites notcanada.com e notcanada.net surgiram e causaram uma considerável polêmica nas comunidades de imigrantes no orkut, eu não prestei muita atenção. Vi, por alto, que se tratava de um apanhado de relatos de imigrantes que se deram mal aqui, e agora fazem tudo o que podem pra alertar os demais interessados em imigrar para o Canadá.

Como não é uma situação com a qual eu me identifique e os textos eram muito longos e desinteressantes, abandonei a empreitada de entender do que se tratavam os sites. Por mais que eu recebesse email e comentários quase diários no HBD perguntando sobre minha opinião a respeito dos sites — o que atestava que eles haviam adquirido considerável alcance –, eu continuava desinteressado.

Isso é, até ontem.

Não lembro quem, mas um dos meus seguidores no tuíter me mandou o seguinte texto e perguntou minha opinião. O autor (que não parece ser o responsável pelos notcanadas originais mas promove-os e usa-os como base pra alguns argumentos) alega ser brasileiro naturalizado canadense que, após um número não determinado de anos vivendo no Canadá, desistiu de tudo e voltou correndo com o rabo entre as pernas para o Brasil-sil-sil.

Como eu estava com um tempinho de sobra ontem, resolvi ler o texto pra entender os argumentos do cara.

E se você clicou no link e tentou ler o post, você deve ter chegado à mesma conclusão que eu — não há nenhum argumento na verdade. O cara sequer explica de forma coerente e compreensível a sua história no Canadá. Ele enrola bastante (alguns trechos em particular parecem redigidos pelo Gerador de Lero Lero) e cita dados sem fonte alguma — e os que eu me dei ao trabalho de pesquisar provaram-se errados, aliás.

No geral, todo aquele post passa uma fortíssima sensação de história mal contada. Resolvi explorar o texto a fundo. Eu tava com bastante tempo livre.

Logo de cara, o texto abre com uma característica que viraria lugar comum no discurso do tal imigrante anônimo: ele exalta os Estados Unidos e esculacha o Canadá, que na opinião dele “vive na sombra da grande fama conquistada pelo irmão rico, a importância do reflexo de pertencer a América do Norte.”

A frase não faz nenhum sentido prático. O que exatamente significa “viver na sombra da grande fama conquistada pelo irmão rico”, no contexto de países…? A segunda parte da frase, “a importância do reflexo de pertencer a América do Norte”, é pura encheção de linguiça.

Essa frase por si só é uma bela amostra do texto: argumentos incompreensíveis e enrolação. Vamos adiante.

Em seguida ele arrisca uma comparação entre Estados Unidos/Canadá com uma alegoria entre Búzios/Cubatão (novamente deixando claro nas entrelinhas que os EUA era onde ele realmente queria morar).

Você pode desconsiderar toda a analogia do sujeito levando em consideração que ele alega que Cubatão tem praia — solidificando a impressão de que o cara não faz idéia do que está falando.

A bela orla marítima de Cubatão

Provando que nada é impossível àqueles cujo raciocínio não é limitado pela lógica, até comparação com o nazismo o cara mete no meio da analogia. Vamos adiante.

Aliás, é difícil resenhar o texto do cara de forma objetiva. Tente ler por si próprio: não há uma grande coerência por trás do discurso do cara. Ele vocifera “fatos” e evidências anedóticas negativas sobre o Canadá sem jamais citar fonte alguma; o cara jamais explica em detalhes qual foi o grande mal que o Canadá lhe causou.

Os argumentos dele essencialmente são:

  • Não há empregos no Canadá (não recebi esse memorando, porque eu tenho um emprego, e todos os meus amigos também);
  • O Canadá é muito frio (pera, o cara quer imigrar pro país e só descobriu que aqui faz frio quando chegou aqui?);
  • Canadenses são muito preconceituosos (Notou a inerente ironia dessa generalização?);
  • A criminalidade no Canadá é de nível absurdo (dispensa comentários);

Como mencionei, não há fonte apresentada pra nenhuma afirmação que o sujeito faz, e as que eu pesquisei mostrararam-se erradas (por ignorância ou malícia, impossível saber). O cara alegou que há uma potente forma de maconha chamada “BC Bud” que “canadenses cultivam, comercializam e consomem por lá”.

Maconha não é legal no Canadá, e eu não faço idéia de onde ele concluiu o contrário. Somente alguém que passou muito pouco tempo no Canadá — ou está mentindo descaradamente — diria isso.

O sujeito fala também que o desemprego no Canadá ultrapassa o dos Estados Unidos, o país que ele vê como a Terra Prometida. Bem, não é o caso — compare o as taxas de desemprego canadense com o dos EUA.

Ele soltou no meio do texto que o Canadá é o líder mundial de suicídios per capita, o que também não é verdade.

Ele falou que a saúde canadense é muito pior que a americana, o que é um patente disparate — não sei aí no Brasil, mas aqui na América do Norte é de conhecimento público que o sistema de saúde americano é um absurdo, beneficiando completamente as empresas de planos de saúde e fodendo a turma que precisa. Michael Moore fez um filme a respeito disso, aliás.

Ser diagnosticado com alguma doença séria nos EUA significa entrar em falência. No Canadá, por outro lado, o sistema de saúde é público. Tenho um caso recente que ilustra bem a diferença entre sistema de saúde canadense e americano: minha mulher teve que fazer uma tomografia semana passada. Foi na clínica, foi examinada pelo médico (de graça), e foi marcada a tomografia pra semana seguinte. Levei-a no hospital, esperamos mais ou menos 10 minutos. A tomografia em si é super rápida, não demorou nem cinco minutos. Custo final: $0.

Nos EUA, tomografias custam entre $600 e $3000 dólares (sem contar que o médico que te examina e receita a tomografia também cobra a consulta). E isso é apenas uma ferramenta de diagnóstico, imagine os preços de tratamentos nos Estados Unidos.

Isso são apenas algumas das lorotas que o sujeito tece lá no site. Existe várias outras, mas eu não tenho paciência de expor as mentiras uma por uma. O texto é muito cansativo de ler; é alarmista ao extremo sem citar dados concretos ou fonte alguma que seja.

Parece muito, aliás, com aqueles emails que a gente recebia nos anos 90 alertando das agulhas infectadas com HIV escondidas na areia da praia, ou da “carne de minhoca” que o McDonalds usava pra fazer seus hamburgers. Sensacionalismo quase cartunesco de tão exagerado.

Pra mim, a mentira que revelou todo o embuste que é esse site foi o seguinte trecho, que ele postou nos comentários como resposta a um leitor:

Do mesmo modo que você, eu também conheço muitos brasileiros (particularmente, quase fui um deles – só não fui porque voltei a tempo ao Brasil – a tempo de rasgar o meu cartão de residência permanente e passaporte canadense) e estrangeiros, de um modo geral, que tiveram as vidas destruídas no Canadá e pelo Canadá.

Há dois detalhes sobre a frase acima que, na minha opinião, deixam claro que você deveria desconsiderar todas as outras histórias sem nomes ou fontes que o cara conta no site.

Em primeiro lugar, o PR Card. O PR card é o equivalente canadense ao green card, e ele é assim:

O cartão tem diversas security features — holografia, impressões em auto relevo, etc — e tem a aparência e formato de um cartão de crédito. Ele é inclusive feito do mesmo tipo de plástico duro de um cartão de crédito.

E assim como um cartão de crédito, não se “rasga” um PR card. Você teria que quebra-lo à força, ou corta-lo com uma tesoura.

A alegação de que alguém “rasgou” o PR card soa estranha pra qualquer pessoa que conheça a natureza do cartão. Mas isso por si só não prova que o cara mentiu (embora sugira que ele nunca viu o green card canadense). A parte definitivamente mentirosa da história é que seria impossível destruir um PR card e um passaporte canadense uma vez que é impossível ter ambos.

Quando você finaliza o processo de cidadania (ou seja, algo que acontece muuuuuuuito antes de você sequer solicitar um passaporte canadense), o departamento de imigração pede o seu PR card de volta. É impossível ter ambos um passaporte canadense e um PR card.

Esse pequeno detalhe me convenceu que a história do sujeito está repleta de furos. Alguém que fosse de fato familiarizado com o processo de naturalização canadense não cometeria essa gafe.

Há outros detalhes suspeitos na história do cara. Note que ele não explica de maneira objetiva o que lhe aconteceu no Canadá; ele só fala que foi uma experiência péssima, que passou fome, e que decidiu voltar ao Brasil. Mas o que exatamente aconteceu? Por que ele não arrumou emprego algum? Como seria possível aplicar (e ser aprovado) no processo de cidadania estando desempregado?

Ele jamais comenta sobre o período de tempo que passou no Canadá, também. Acontece que pra ser cidadão canadense, o mínimo de tempo que você precisaria passar no país é 4 anos — o governo exige que você seja residente permanente por 3 anos antes de requerir status de cidadão, e o processo de cidadania demora por volta de um ano.

O sujeito teria passado quatro anos desempregado…? Além disso, ele comenta que no Canadá você tem que “vender o almoço pra comprar a janta” (além de dizer com todas as letras que passou fome), e no entanto relata que foi assaltado várias vezes, e os meliantes levaram “jóias e eletrônicos”. O cara não tinha dinheiro pra almoçar, mas tinha cordão de ouro e iPod, é isso?

O meu colega @Gridlockd, que mora em Toronto e é de Fortaleza, acho no texto indícios do que veio a se tornar a teoria mais provável: este sujeito não era cidadão como alega (a gafe sobre o PR card provou isso incontestavelmente), mas sim, entou imigrar como refugiado.

A saber: existem 3 categorias de imigração. Os “skilled workers”, ou seja, trabalhadores qualificados que imigram e não têm dificuldade em achar empregos em seu ramo, os “sponsorship”, que são pessoas que moram aqui legalmente e querem trazer familiares de outros países, e os refugiados — gente que mora em paises completamente devastados por guerra e criminalidade e essencialmente imploram para que o Canadá os receba.

E como os entendidos de imigração sabem, imigração por refúgio é a mais “fácil”. Antes mesmo do caso ser julgado — e ele geralmente é julgado muito mais rápido que as demais categorias de imigração –, o imigrante já recebe seu número de segurança social, pode trabalhar, pode pedir ajuda financeira do governo, etc.

O Brasil, apesar de todos os seus problemas, não entra nos critérios canadenses pra país de refugiados. Apesar disso, por ignorância ou por querer se aproveitar do “método mais fácil”, muitos brasileiros aplicam pra cidadania através de refúgio — eu conheço vários pessoalmente, diga-se de passagem. A comunidade de imigrantes sempre tem em seu meio vários casos de refúgio que não deu certo.

Eles chegam, são acolhidos pelo governo, pulam pra “frente da fila” dos outros imigrantes…

…e alguns meses depois seu caso é julgado e inevitavelmente negado. Os benefícios são cortados e o sujeito é convidado a se retirar do país.

Tendo isso em mente é fácil agora entender por que o discurso do cara soa tão rancoroso e histriônico. Esse papo de “o Canadá me traiu” parece bem adequado a alguém que, a primeira instância, recebeu tudo de mão beijada, e depois se viu sem os benefícios.

No meio do texto ele até cita a questão dos refugiados, e fala com visível mágoa a respeito da condição dos cubanos — uma nacionalidade que o Canadá aceita como refugiada.

Ser um refugiado negado é a única explicação pro cara 1) não compreender o bastante sobre a naturalização pra mandar o vexame sobre PR card e passaporte, 2) ser “altamente qualificado” (como ele se define) e não arrumar emprego algum, a ponto de passar fome, e 3) ter uma profunda mágoa do Canadá, país que ele acredita te-lo “traído”.

Não tenho a menor dúvida. O autor desse texto é ignorante ou mentiroso (levando em conta as contradições e informações erradas que ele veicula no post), e pelo que tudo indica tentou imigrar da “maneira mais fácil”.

E desse tipo de gente o Canadá não precisa. Não é a toa que sentiu falta do Brasil, um país onde o “jeitinho” tende a funcionar melhor que as vias apropriadas.

[ Update ] Ah, quase esqueci! Aqui há uma comparação interessante entre o Canadá e os EUA. Atenção pros pontos “health care”, “class divide”, e “chance of being unemployed”.

QED.

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116 Comentários \o/

  1. Marcos disse:

    Rindo litros aqui com o mimimi do nonono … kkkkkkkkk

    Valeu, KID… queria aprender como não perder a esportiva como vc, depois d tta ignorancia e teimosia…

  2. Nonono disse:

    Kid, soh pq tu teve sorte tu fLo isso tom no c u. Cara eu moro nos eua aqui eh fodenha hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaahahahahahahahahaahahaaaaahhaaaahhaaaahhhahahhahaha

  3. André disse:

    Comparar EUA com Canadá NESTE MOMENTO da história é pura babaquice. O Canadá tá numa situação muito melhor: a liberdade econômica/civil é muito maior que nos EUA (que virou uma putaria depois do 9/11), e junto com Austrália, Cingapura, Nova Zelândia, faz parte dos melhores países para se imigrar (e mais immigrant-friendly, só entrar na página de imigração desses países e comparar com EUA/Reino Unido/Etc.).
    E sistema de saúde público (ou o “sistema privado” – que não tem nada de privado e é garantido por lei para sustentar lobbystas políticos dos EUA) é inerentemente falho, visto que não segue os incentivos do mercado, levando a serviços ruins e ineficientes :)

  4. Solange de Escalante disse:

    Realmente o Canadá é excelente para quem quer viver decentemente e bem. Porém se o cidadão canadense esta fora do pais não conta com nenhum apoio. Meu marido é cidadão canadense, bipolar somado com alcoolismo e tinha seguro social de paciente psiquiatrico e deram rapidinho passaporte para minha amargura. Eu nem intenção jamais tive de ter a nacionalidade canadense. O cidadão Canadense somente se serve e é util é bem tratado. Se é como meu marido que tem que aguentar a bomba sou eu. É uma ironia deu parte da vida dele a este paisinho de merda e é agora tratado com indiferença. E nem queria a merda do dinheiro deste pais. Somente que sim quando casei com um bipolar que eles deram o passaporte para livrar da carga. Ao pedir assitencia fui tratada como merda que são ele. GENTE NUNCA TROQUE NOSSA TERRA BRASIL NOSSO vERDE AMARELO. ELE SABEM QUE vOCE É MESMO ESTANDO LONGE E TE CUIDA COMO PATRIA AMADA BRASIL. NOS LATINOS SOMENTE SOMOS MÃO DE OBRA BARATA. E MUITO TRABALHADORES. SOMENTE ISSO QUE ELE INTERESSA DE NOSSA GENTE. SAI FORA POR EMERGENCIA E TE DÃO AS COSTA. FUCK PAIS DE MERDA. FRIO E CALCULISTA. PODE DEIXAR QUE MEU PAIS TA DANDO DE COMER A ELE.

  5. Adriano disse:

    Rindo demais,esse cara deve ser mesmo é mentiroso!!!
    Ainda diz que a criminalidade ai no Canada é alarmante,ele devia vir morar Em Campinas-SP ,onde morre gente todo dia…