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As "7 pedras de crack por dia" do Charlie Sheen: mais um FAIL do jornalismo brasileiro

Postado em 1 março 2011 Escrito por Izzy Nobre 74 Comentários

E já que o assunto da semana é Charlie Sheen…

Nessa semana o canal americano ABC veiculou uma entrevista com nosso Senhor e Salvador Charlie Sheen.  Como sabemos, o Messias está meio desvairado e tocou o foda-se de maneira nunca antes vista: mandou o criador do seu seriado se foder, desistiu de reabilitação — embora insista que parou de usar drogas — e fugiu pra uma ilha paradisíaca onde ele está comendo três gostosas neste EXATO MOMENTO.

De alguma forma a mídia jornalística espera que acreditemos que o cara é digno de pena. Enquanto isso você está aí tirando xerox no seu estágio.

Então. O Good Morning America foi lá entrevistar o nosso herói, cujo nome real caso os senhores não saibam é Carlos Irwin Estevez, e o resultado foi este vídeo (que poderia muito bem servir como prova de que ele não abandonou as drogas coisa nenhuma, mas isso é outro assunto):

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=h5aSa4tmVNM[/youtube]

(os cornos desabilitaram o embed do vídeo, assiste lá)

O resumo do vídeo é essencialmente a mensagem que o Reverendo Sheen já vem pregando há algum tempo: “fodam-se”.

Mas há algo peculiar nesse vídeo. Atente para o momento 2:28. O doutor Sheen diz o seguinte:

“I don’t know, man. I was banging seven-gram rocks (…)”

A frase era uma resposta à pergunta da reporter Andrea Canning sobre quanta droga o cara estava consumindo. Traduzida, a frase significa:

“Sei lá, broder. Eu tava detonando pedras de sete gramas (…)”

Não sou usuário de drogas, mas sei que “rocks/pedras” pode significar pelo menos três tipos de droga diferente — crack, ópio, e crystal meth. Tais pedrinhas são minúsculas, geralmente medidas em miligramas.

Que o ator andava fumando “pedras de sete gramas” me pareceu uma hipérbole — e considerando o tom da entrevista, essa é provavelmente a hipótese mais cabível. De repente ele nem consome drogas em pedra realmente (o cujo público alvo é geralmente gente pobre, ricaços cheiram pó), e ele usou a figura da pedra como alegoria pra quão drogado malucão vidaloka ele era.

Aliás, eu imagino que uma pedra (seja lá que droga for) de sete gramas sequer caberia num cachimbo. Pensa só: crack é vendido geralmente em dois formatos, pedras de 1/4 de grama e pedras de 1/10 de grama. Imagina a pedrinha de crack que você já deve ter visto no jornal ou nos filmes, e vamos supor que ela era a maior que os caras vendem, essa de 250 miligramas.

A tal “pedra de 7 gramas” que o Charlie Sheen alegou fumar seria portanto VINTE E OITO VEZES mais pesada que uma pedra convencional. Imagina o tamanho dessa merda.

Conclusão: o cara estava obviamente exagerando e galhofando o tom da entrevista.

Mas não foi isso que os jornais brasileiros noticiaram.

Me dá agonia ler isso

Até onde sei, foi a Folha que publicou a matéria primeiro. Como tradução ao “banging 7-gram rocks“, o intérprete ofereceu o “fumando sete pedras de crack por dia”, o que é bizarramente errado em três níveis:

  • “Seven-gram” significa “de sete gramas”, não “sete pedras”;
  • O ator nunca falou “crack”;
  • A frequência “por dia” foi completamente inventada.

Incrível como um erro de tradução alterou completamente o que o cara falou. Charlie Sheen admitiu, meio em tom de gozação, que se drogava muito (e usou como exemplo hiperbólico fictícias pedras de sete gramas, algo que já sabemos fugir completamente do padrão em que as drogas são oferecidas).

O tradutor da Folha transformou uma brincadeira numa confissão chocante — “eu fumava sete pedras de crack por dia”, inserindo na frase do cara três palavras que o ator NUNCA FALOU e alterando o significado da frase totalmente.

E pra misturar mais a merda, dois bilhões de sites reportaram a “confissão”. E até o momento, nenhuma errata da Folha. E nem terá, provavelmente.

Agora, imagina as outras traduções de merda que essa turma em cargo de reportar as “notícias” já deve ter deixado passar…?

Tradução é quase uma arte. Eu já trabalhei com isso (aliás, eu VIVO diariamente com isso, já que moro no exterior), e conheço como ninguém as dificuldades de adaptar as nuances de um texto pra outro idioma. Algumas palavras não existem na outra língua, há também piadinhas que dependem de referências culturais ou particularidades da grafia/sonoridade das palavras (algo que nunca sobrevive ao processo de tradução). É complicado mesmo, e muito do que compreendemos como TRADUÇÃO é na realidade ADAPTAÇÃO.

Traduzir um texto é como jogar um sapo no liquidificador. O resultado é ainda, tecnicamente, um sapo (no sentido de que todas os componentes que fazem do sapo um sapo ainda estão lá), mas mutilado a um ponto irreconhecível. Mas isso não é desculpa pra que um jornal cometa uma cagada dessa.

Na próxima vez que você vir alguém citando as tais sete pedras de crack por dia, POR FAVOR, mostre este texto pra ela.

[ Edit ] Opa, eles corrigiram o erro!

Pena que era outro.

A melhor parte? O tal Cellep na área de publicidade é um CURSO DE INGLÊS.

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74 Comentários \o/

  1. [...] como algum tradutor acabou queimando a língua e o amigo @izzynobre apurou a tempo: Ou clique aqui http://hbdia.com. E se você tinha alguma dúvida sobre o tal jornal mencionado no link anterior, está aí o EGO [...]

  2. nosceteipsum disse:

    um dos melhores textos que já li aqui!

  3. Lexico disse:

    Sei que o foco aqui é a tradução, mas mesmo assim pode-se observar no Charlie:
    1- (Sequelado?): O cara tá meio doido, no sentido que o discurso dele é meio errático (as ideias estão um pouco desconexas)
    2- (Mania?): Ele está se achando de certa forma invencível, acredita ser diferente.

    Ele realmente é diferente (todos são), mas também vai morrer (todos vão).
    O cara bem que parece estar na filosofia do Marley:
    “Para que levar a vida tão a sério, se a vida é uma alucinante aventura da qual jamais sairemos vivos.”
    “Vocês riem de mim por eu ser diferente, e eu rio de vocês por serem todos iguais”
    “Preocupe-se mais com a sua consciência do que com sua reputação. Porqe sua consciência é o que você é,e a sua reputação é o que os outros pensam de você. E o que os outros pensam, é problema deles.”
    “Não ligo que me olhem da cabeça aos pés..porque nunca farão minha cabeça e nunca chegarão aos meus pés”
    e outras…

  4. smohere disse:

    Tópico fail. A matéria já tinha sido corrigida antes (só ver a data na foto).
    E que estardalhaço em cima de uma besteira, hein? Esse é o HBDIA entrando para imprenssa cor-de-rosa.

  5. Felipe Machado disse:

    Mas que ele esta com uma cara de crackeiro, isso esta…

  6. Cara, isto é mais um exemplo de “Churnalismo”.

    Olhem a definição do termo no Guardian.co.uk:
    http://www.guardian.co.uk/media/video/2011/feb/23/churnalism-press-releases-news-video

    O jornalismo real está se perdendo. As mídias americanas são uma vergonha (sério) e o mundo, infelizmente, está acompanhando esta tendência…

    Triste.

  7. César disse:

    Hahahaha, fucking imbecils.
    A Folha vive dando cagada. Assim como o Estado, o JT, a Veja, o Agora, o Diário e qualquer outro meio em que o nome da empresa seja maior do que o próprio trabalho deles.
    Impagável a errata! O canal estava errado. Ponto.
    Fucking morons.

  8. OZombeteiro disse:

    CELLEP!!! AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHH

  9. [...] da Folha talvez tenha lido meu post — que, até onde sei, foi o único escrito sobre o assunto, ou pelo menos o único que [...]

  10. Jack disse:

    Nos Estados Unidos é comum para quem usa drogas e tem muito dinheiro procurar cocaína com maior pureza, sem as misturas que fazem para render maior volume e lucro, essa cocaína com maior grau de pureza muitas vezes é vendida em pedras prensadas, o que serve como uma marca registrada ou diferencial da cocaína comum. Quem compra é que destrói a pedra a transformando em pó novamente para cheirar, injetar ou até mesmo fumar misturando em algum tipo de fumo ou outras drogas

  11. [...] simplesmente manda 7 gramas de alguma pedra por aí e sai desse jeito (é só dar o [...]

  12. O problema com traduções no Brasil é que um profissional é muito caro (pros padrões brasileiros) e tem-se a ilusão de qualquer estagiário pode sair traduzindo, desde que tenha cursado 2 anos de Yazigi ou morado no exterior.
    Ledo engano.
    Para se formar tradutor estuda-se versão da língua, cultura do país de origem da língua (e dos principais falantes dessa língua), literatura dessa língua, tem-se mais de 8 cadeiras só do idioma aprendendo gramática, idiomáticos e uma série de intrincadas relações das duas línguas (a sua materna e a que você irá traduzir) e isso em entrer no conhecimento linguistico que envolve tudo isso e que é necessário para evitar esse tipo de situação embaraçosa.
    Todos esse pontos são ignorados solenemente quando um jornal grande coloca um cara que, visivelmente não ter a formação, para traduzir uma matéria/vídeo/depoimento.
    Outro exemplo do amadorismo do ramo no Brasil: Legendagem. Aqui o que mais se vê são erros grotescos de tradução nas legendas de grandes emissoras, quando não usam as legendas dos grupos da internet (que são, via de regra, muito mais bem feitas do que as “profissionais”).
    Novamente, o que pesa é o custo de ter um profissional preparado e formado para isso. Aqui no Brasil a coisa corre sempre no “mais barato” sem se preocupar com qualidade.
    É bizarro, mas longe de ser incomum.

  13. Texto muito bom. Legal pra caramba mesmo. Estou prestes a começar o meu curso de jornalismo em uma faculdade federal e espero ter a oportunidade de publicar verdades sobre palhaçadas como essa em algum lugar muito visado. Realmente excelente, parabens.

  14. Pedro disse:

    Belo post, dei risada!

  15. Sedan75 disse:

    Ótimo post!

    Ainda assim, penso em 2 hipoteses. Uma “cagada” devido a pressa em ser o primeiro a deflagrar o podre de Charlie ou realmente fazer sensacionalismo a lá “RedeTV”, com akele programa idiota de fofocas de artistas… sei lá o nome… que tem akele apresentador tosco com o chavão “aumento mas não invento”.

  16. buy gold disse:

    Admito que tenho um lado sensual toda mulher temSandy cantora anunciada como nova garota-propaganda de uma cervejaria. Ela alegou que ficou impossibilitada de trabalhar como atriz por causa do relacionamento e teve contratos publicitarios cancelados. Isso me soava como um elogio indireto do tipo nao e uma vergonha que do pescoco para baixo voce esta questionavelKate Winslet atriz em entrevista a revista Glamour Gosto do Silvio Santos ele foi maravilhoso comigo durante 21 anos depois comecou a me menosprezar.

  17. villecafisso disse:

    Cara nada a comentar isso e ridiculo o melhor e a empresa de Idiomas ao Lado HihI …

  18. Marin disse:

    é totalmente possivel véio fumar uma pedra de 7 gramas e com certeza é de crack ou meth pela maneira q ele falo e se encontra. opio nao é em pedra .

  19. [...] de tudo, antes de qualquer outra coisa, recomendo fortemente o post do @izzynobre sobre o assunto. Depois, recomendo fortemente {{àqueles que falam inglês}} que assistam ao vídeo da entrevista [...]