E finalmente aconteceu – a Globo aparentemente acabou de descobrir esses tais de “blogs”.
Há muita coisa pra aloprar nesse vídeo – em particular, o embaraço do GraveHeart, que como os outros blogueiros da matéria foram instruídos a ler um statement escrito previamente e acabou saindo extremamente artificial, ou a menininha lá no meio da reportagem que não é importante o bastante pra que eu saiba quem é, aparentemente deslumbrada com o fato de que ganha “entre 300 e 1000 reais por mês (…) e pode sair sem depender de ninguém!”.
Deve ser sensacional viver com esse tipo de insegurança financeira, sem saber se a renda mensal terá 3 ou 4 dígitos. Uma puta aventura, imagino.
Entretanto, esses trechos são apenas marginais ao ponto principal desse texto.
Como vocês devem saber, eu sou meio (muito?) alheio a esse mundo da bloguice profissional serious business. Digo “serious business” aqui num contexto não inteiramente sarcástico, já que o mundo da auto-publicação já realmente se tornou um modelo de negócio. Mas como você está lendo o HBD, tenha certeza que há sim uma pitadinha de desrespeito e ironia salpicada naquele “serious business”.
O meu problema aqui é que me parece que há um grande número de probloggers com uma imagem incrivelmente inflada de si mesmo, do meio em que eles estão inseridos, e do seu trabalho. E uso o termo “trabalho” de forma extremamente liberal aqui, novamente temperada com outra generosa pitada de sarcasmo.
Tive vontade de escrever um texto abordando esse assunto quando rolou aquela polêmica do BlogBlogs, um campenga ranking de blogs brasileiros que tem o mesmo propósito de qualquer tipo de premiação ou ranking internético – masturbação mútua de egos e validação pessoal por meio de números intangíveis.
O que rolou com o BlogBlogs foi que há algumas semanas, alguns blogueiros se reuniram pra fazer linkfarm e assim inflar artificialmente suas colocações no tal ranking. Uma brincadeirinha boba, e hipócrita, porém idônea.
Digo “hipócrita” porque os organizadores do negócio tentaram pôr uma maquiagem de ação social no negócio, pagando um discursinho robin-hoodista de “justiça do povo” – a suposta “panelinha” dominava os rankings internéticos há muito tempo, estava na hora do povão tomar de volta o que aparentemente pertence a eles sem qualquer mérito.
Entretanto, não é preciso um intelecto superior pra concluir que na verdade os caras não estavam querendo dar nenhuma lição em ninguém – eles só queriam mesmo desfrutar de alguns momentos nos holofotes que eles culpam a “panelinha” de valorizar demais. Criticar alguém por algo que você secretamente queria ter ou ser é a definição literária de hipocrisia.
O que aconteceu em seguida foi análogo a uma luta entre um neo-nazista e um pedófilo – você não sabe por quem torcer. De um lado os probloggers berravam indignados contra algo que eles viam como a perversão de uma relevante e importante ferramenta no meio (tão relevante e importante que poderia ser manipulada em pouco tempo e com pouquíssimo esforço por gente que eles mesmo classificaram como completos idiotas).
Do outro, os “vira-latas” estufando o peito e desfiando novamente a ladainha decorada de justiça social, tentando mascarar sua sede por validação como algum tipo de lição de moral pros famosinhos, cuja sede por validação eles ironicamente criticam.
E no meio, os poucos que parece concordar comigo que ranking de blogs é algo tão incrivelmente irrelevante e sem importância que ninguém deveria se dar ao trabalho de sequestrar a parada, ou se doer terrivelmente porque alguém o fez.
Eu ouvi os argumentos de ambos os lados. Os fajutos que orquestraram o golpe no BlogBlogs soltaram o mesmo mimimimi de antes, que era essencialmente um manifesto socialista chinfrim que declarava quase dogmaticamente que todo mundo tem direito de algum reconhecimento, a despeito de seus próprios méritos. Ignorei imediatamente esse argumento, por ele ser retardado.
Já os blogueiros profissionais, ainda enxugando as lágrimas, disseram-me que esses rankings são ferramentas usadas pela mídia pra quantificar a relevância dos seus blogs, algo do qual eles dependem diretamente já que ganham a vida com seus sites.
O problema é – você já parou pra pensar que, se o seu ganha-pão depende diretamente de algo tão volátil como um arbitrário ranking de blogs que pode ser manipulado a qualquer momento com facilidade, talvez essa sua “profissão” não seja lá essas coisas todas que você faz parecer?
Tenho notado uma subcultura de glamourização do meio blogueiro. Blogs não são mais aquele diarinho virtual com leves aspirações humorísticas; agora são uma “ferramenta da mídia paralela”. São relevantes. São importantes. São o futuro da publicidade e marketing. Eles pagam as contas de seus autores.
Não nego que blogs se tornaram uma importante ferramenta de comunicação, aliás tenho um post quase pronto que explora exatamente isso. Acontece que eu interpreto “importante ferramenta de comunicação” e “importante modelo de mercado” como duas coisas extremamente diferentes. E em nenhuma delas vejo motivo pra esse não-merecido senso de importância.
Eu teorizo que essa glamourização do meio blogueiro se dá por um motivo interessantemente simples – a turminha que se voltou pro meio blogueiro como ganha-pão, em sua maioria, não tinha outras formas de sustento. São adolescentes, estudantes, gente jovem que na maioria dos casos ainda mora com os pais, não tem planos de carreira e não costuma ter muito dinheiro no bolso.
Levando em consideração o contexto dessa gente, não é tão surpreendente que aquela mocinha da reportagem se ache tão realizada por ganhar “entre trezentos e mil reais por mês”. Veja que a pose dela é quase idêntica àquela de um sujeito que acaba de receber uma mesada pela primeira vez e está maravilhado com a idéia de que pode comprar chicletes, fichas pro arcade e vibradores sem precisar suplicar aos pais antes pela exata quantia necessária.
Essencialmente, blogs deram alguns trocados pra gente que não tinha muitos antes. E surgiu esse quase juvenil deslumbramento com a nova independência financeira – se é que um salário que flutua entre 300 e 1000 reais por mês se qualifica como “independência financeira”.
E quando você começa a ver a coisa por esse ângulo não tão glorificado, você vê que essas aspirações blogueiras de “poderosa mídia alternativa” e “nova onda de publicidade” não passam de ilusões de grandeza.
Blogs não são tão relevantes quanto blogueiros querem que vocês pensem que eles são. Blogs estão se tornando uma vertente da publicidade pelo mesmo motivo que mexicanos ilegais dominam os trabalhos braçais nos EUA, ou a Índia é a opção número um pra callcenters de empresas americanas de tecnologia: vocês são os “lowest bidders”. Ou seja, vocês se oferecem a fazer o trabalho por menos.
Façam-me o favor de se despir dessa desmerecida prepotência. Vocês não são a “mídia relevante”. Vocês são escolhidos porque enquanto uma propaganda nas páginas da Veja custa dez mil reais, vocês fazem o mesmo por cem. E olhe que a Veja não precisa fazer de conta que concorda com a propaganda; a propaganda é completamente separada do jornalismo propriamente dito. Já vocês pisam em cima da linha que divide ambos e literalmente vendem suas opiniões.
Larguem mão de tentar pintar seu hobby como “jornalismo alternativo”. Vocês são nada além de vendedores de Herbalife, pessoas que são pagas pra convencer os amiguinhos/leitores a acreditar no que eles dizem e comprar o que eles vendem.
Tudo bem, eu entendo que pra gente despreparada e sem especialização profissional ou acadêmica, ganhar 200 reais pra postar fotos de creme de barbear no seu flickr parece uma forma excelente de ganhar a vida. Entretanto, não deixe essas duas maravilhosas notas de cem reais te darem a impressão de que você é algum tipo de formador de opinião.

Este é um jornalista

Este é um blogueiro
Captou a diferença?
Você não está sendo medido pelo seus talentos, está sendo medido pelo número de pessoas que verão o que você escreve. E como a audiência de programas de domingo no Brasil atesta, a maioria é burra.
E a menos que vocês gostem de depender de bicos, eu sugeriria arrumar um emprego.





[...] confesso. Mas, sabe que de alguns tempos pra cá, (na verdade o ápice foi depois de ler este artigo) fico imaginando qual é realmente a relevância de se ter um [...]
Profissão Blogueiro. Muito show esse texto: http://bit.ly/WOgm8
@trotta e sugiro que dê uma olhadinha nisto aqui. http://bit.ly/WOgm8
@ronaldrios por favor, prestigie. http://bit.ly/WOgm8
Achei este texto procurando por “blogueiro não é profissão”. Parabéns pela abordagem lúcida.
@e_d_e_n toma http://bit.ly/74esaV leia isso aí
Vendedores de Herbalife foi foda hein, na moral.
[...] finalizar, no Blog do Izzynobre (AKA KID) tem uma Leitura Recomendada para complementar esse [...]
[...] deste post, em que eu comparei os pro-blogger com aquele tipo de anúncio ambulante que você geralmente vê [...]