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Qual o problema do internauta brasileiro?

Postado em 25 abril 2010 Escrito por Izzy Nobre 131 Comentários

Eu não poderia jamais negar que de 10 coisas que eu digito no meu computador e envio aí pro seu através da internet, 9 foram cuidadosamente arquitetadas pra ferir os nervos de alguém.

Por algum motivo, reações exageradas por causa de provocação online me fazem rir (não que eu seja completamente imune a elas, já dei meus chiliquinhos também).

brigaClica pra ver bem grandão

Mas não foi o caso da conversa acima, entretanto. A julgar pelo chilique histérico que veio em seguida, concluo que sugerir uma pesquisa no google aparentemente é o mesmo que xingar a mãe do indivíduo.

Eu detesto o orkut. E nem é por motivos pseudo-elitistas estilo “sou bom demais pra usar aquilo”, não. Eu acho o site meio feio, e a estrutura dele meio desorganizada. O sistema de fórum do orkut, por exemplo, é o mais lixo jamais desenvolvido. Eu me espanto que um serviço tão porco pertence ao google.

Mas como há uma preferência nacional pelo serviço, me sinto meio que obrigado a acessar aquilo ali pelo menos uma vez por semana, pra ver o que há de novo com amigos e familiares. O Brasil ainda não migrou pro Facebook – e a julgar pelo nosso costumeiro atraso em relação a tudo, é capaz ainda de passarmos pela era MySpace primeiro -, e por isso tenho que manter frequência nas duas redes.

Por um lado até gosto disso, porque organizo minha vida brasileira e minha vida canadense de formas distintas. Ver um monte de status update em português misturados com posts em inglês me dão uma agonia que apenas outras vítimas de transtorno obsessivo-compulsivo compreenderiam.

Então, orkut né. Apesar de não gostar, dou um pulinho lá de vez em quando. E por isso participo de algumas comunidades de brasileiros na minha cidade, como esta.

E a comunidade é muito sem graça. Há pouquíssimos brasileiros na minha cidade, e por causa disso a comunidade está sempre abandonada. Os poucos tópicos que surgem pra quebrar a monotonia são sempre os mesmos:

  • Estou indo fazer intercâmbio em calgary no mês ______, quem mais está indo????
  • Tá difícil de arrumar empregos em Calgary???//

Eu sou uma pessoa que se irrita com facilidade com o comportamento alheio, e esses dois tipos de tópicos batem em cheio lá naquele meu gene que controla minha chateação.

Em primeiro lugar, eu jamais compreenderei esse fetiche que intercambistas têm de encontrar o maior número de brasileiros possível em sua viagem ao exterior. Na maioria das vezes essa turma já está vindo passar um período bem curto de tempo (entre um e três meses), o que já torna a viagem essencialmente inútil pra finalidade de aprender inglês.

Aí pra assegurar que realmente não aprenderão nada sobre o idioma ou a cultura estrangeira, os malucos se rodeiam de outros brasileiros.

Mermão, tu tá vindo passar TRÊS meses no Canadá, pra em seguida voltar a viver sua vida inteirinha no Brasil. Custa muito abandonar temporariamente o contato constante com a própria cultura…? Não é justamente esse o propósito do intercâmbio, caralhos?!

Pro imigrante que veio passar o resto da vida aqui, vá lá – se relacionar com brasileiros é às vezes a única forma de manter um vínculo com a cultura nativa. Mas se você não veio passar tempo suficiente sequer pra presenciar mais de uma mudança de estação, faça-me o favor de valorizar a grana que seus pais investiram nessa merda e mergulhe na cultura canadense porra.

E o segundo tipo de tópico, o mendigo de empregos, foi o que provocou a confusão que deu a luz a este texto.

Neste tópico, o sujeito perguntou como anda a situação de empregos em Calgary. Logo de cara é uma pergunta meio idiota, afinal de contas, existem diferentes áreas de atuação, e nem todas elas passam pelos mesmos altos e baixos. Pra responder essa pergunta, no mínimo precisariamos saber em que área de trabalho ele se interessa.

Resolvi ser gente boa e não aloprar o cara apontando este detalhe. Ao invés disso, sugeri uma pesquisa no Google. A maioria dos meus empregos foram achados graças ao google, e uma pesquisa como “(nome da cidade) jobs” dá um bom insight sobre como anda o ecossistema trabalhístico da região.

E o chilique comeu solto. Uma usuária que assina como VK respondeu aquela micro-frase de cinco palavras com nada menos que 13 linhas – tudo em caixa alta, como manda a cartilha dos imbecis – me esculachando pelo que ela interpretou como falta de vontade de ajudar o sujeito. Logo abaixo veio mais desocupados se unir ao coro da primeira. O bom e velho “se não quer ajudar fique calado!” não demorou pra aparecer.

E lá vou eu explicar praquela cambada de mongol que, na verdade, eu havia prestado ao sujeito ajuda melhor do que qualquer outra pessoa que respondeu o tópico.

A lógica é que uma pergunta solta dessa forma numa comunidade pequena resultará em poucas respostas, e todas elas nada além de relatos anedóticos que não contém substância real. Como é que eu te ajudo se eu digo “ahhh, o mercado de trabalho de Calgary está ótimo, tem uma padaria contratando lá na esquina!”?

Por outro lado, pesquise “calgary jobs” e você achará listagens completas com números, salários, endereços, áreas, enfim, um monte de informação relevante pra você concluir por si mesmo como anda o mercado de trabalho na região. Até expliquei pro cara que foi assim que pesquisei sobre minha área de atuação antes de dar prosseguimento à minha carreira acadêmica.

Saber se virar é, na minha opinião, um dos skills mais valiosos que alguém pode cultivar. E a era das redes sociais parece ter causado em nós uma cegueira seletiva que nos impede de ver que temos métodos que dispensam ajuda externa.

O problema, na minha humilde opinião de merda, é que o brasileiro é uma espécie de mendigo virtual. Como se não bastasse essa impressão de que o mundo deve algo a nós, há uma aparente incapacidade de se virar sozinho.

Aquele tal “jeitinho brasileiro” (me refiro à perspicácia em resolver problemas de forma não-convencional, não à malandragem) de que tanto nos orgulhamos – e eu queria muito saber de onde veio a idéia que McGyverzismo é exclusividade brasileira – parece ter dado lugar a uma dependência debilitante de que alguém nos explique tudo nos mínimos detalhes.

Por isso que vemos tanta gente que depende do orkut pra fazer download de suas séries e quadrinhos favoritos. Esse hábito de pedir ajuda aos outros pra tudo já virou padrão.

Veja o caso meu caro amigo TioSolid, que é dono de um site sobre console modding. Toda semana ele atualiza seu site com algum novo homebrew pra PSP ou algo similar, com instruções detalhas pra instalação e ressalvas do tipo “não funciona nos consoles de código XPTO”.

Sure enough, nesses posts sempre aparece comentários do tipo “TENHO UM XPTO SERÁ QUE ISSO AÍ FUNCIONA PRA ELE??”, seguido por um “INSTALEI ESSE JOGUINHO NO MEU XPTO E ELE ESPLODIU SINSERAMENTE ACHO QUE VOU PROCESSAR O DONO DESTE WEBSITE”. Seria hilário se não fosse triste!

O infeliz tem literalmente toda a informação que ele precisa bem ali, na altura dos olhos, de forma concisa e em português simples, e AINDA ASSIM não é capaz de mover um músculo pra se virar sem auxílio de outrem. Mesmo que seja necessário apenas ler dois parágrafos, o cara prefere algo que é extremamente menos eficiente – pedir ajuda pra outra pessoa e esperar que ela o responda.

É exatamente o que aconteceu naquela comunidade de brasileiros em Calgary. E o pior é a inversão de valores – o sujeito pede o peixe, eu tento ensina-lo a pescar (de forma muito concisa, talvez esse tenha sido meu erro), e acabo sendo visto como o filho da puta na história.

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131 Comentários \o/

  1. Flavio disse:

    CComo disse um aí (em cima ou embaixo, não sei onde meu coment vai ficar), só tem dinamarqueses, irlandeses, ingleses, suecos, alemães postando aqui. Sinto-me um estrangeiro forçado a reduzir a minha pequenês de ser brasileiro e abanar o rabinho para esse panteão de Deuses da Internet. Tão superiores, tantos dinamarques, esse panteão de Deuses Nórdicos Virtuais, sábios e belos, estão me reduzindo a um nível de sub-raça que está me fazendo rever tudo o que acreditei e aprendi na minha vida. Por um momento passei a achar normal ficar “revoltadinho” com a inclusão social e digital, porque de repente a internet deixou de ser dessas bundas amassadas de tanto permanecerem sentados em suas cadeiras de escritórios. Tudo o que sai de suas mentes preconceituosas são criticas perversas a uma nacionalidade composta em sua maioria de trabalhadores, gente que batalha para cacete, e ainda passam a chamá-los de burros e preguiçosos. Esses “estrangeiros” por opção se sentem num mesmo nível de uma pseudo superioridade da sociedade, algumas anfitriã, para os que estão morando lá, e sentindo-se na autoridade de esculachar o próprio povo que de repente lhes pareceu tão estranho e distante. E esses “imigrantes” ficam sem se dá conta que se o bicho pega para os nativos, uma crise financeira, adivinhem quem vão querer perseguir pra depois fuder?? Somando a tudo isso me parece que de repente eles num belo dia acordaram e perceberam o quanto são especiais e nasceram na terra errada. Olharam-se num reflexo de uma colher ou de uma vitrine de uma loja brasilga e pensaram olhando para o céu: este não é meu lugar…

  2. Alexandre disse:

    “Como disse um aí (em cima ou embaixo, não sei onde meu coment vai ficar), só tem dinamarqueses, irlandeses, ingleses, suecos, alemães postando aqui.”

    Nada precisaria nem ser acrescentado, mas vou lhe fazer um favor. Não percebe que a sua própria poesia carrega a semente do preconceito que você tenta refutar? “Vocês não são dinamarqueses, logo não podem dizer que nós brasileiros somos inferiores!”. MAKES PERFECT SENSE. Um erro tão grotesco de raciocínio me legitima a chamá-lo de imbecil.

  3. Flávio disse:

    Caraca agora que vi o coice do cara ali, o Alexandre. Eu postei aqui porque tanta gente falando merda, aí nao resisti e respondi. Até q o postador oficial daqui é engraçado, aí um bando de puxa-saco o segue. Na verdade diz que os brasileiro que postavam aqui estavam “deslumbrados” como os gringos e pareciam europeus esculachando, se sentindo da nacionalidade mencionei etc etc, e tenho mais o que fazer. Isso aqui nao serve pra porra nenhuma mesmo. Vou continuar a ler o blog porque o dono dele sei la´quem é, é divertido, faz criticas divertidas e até concordo com muita coisa,,,, e fui!

  4. Taina disse:

    Falta de sevirarzismo é um dos males que assolam essa juventude. *com ares de senhora da mais alta sapiência*.

  5. caue disse:

    o que os internautas achou sobre o filme AVATAR?

  6. João disse:

    Hahahaha você iria adorar o Yahoo perguntas, cada uma melhor que a outra, esses dias eu encontrei uma “pra que serve o outlook?” (Y)

  7. Medieval disse:

    É porque se você fizer isso no brasil: Empregos em Xique-Xique, e digitar isso no google, você não ver droga nenhuma.

    NO brasil se você quer achar emprego pela internet, e ver todas as possibilidades, você tem que pagar um site que forneça esse serviço, porque de graça você só verá oportunidade para os grandes centros urbanos.

    Então, possivelmente ocara mora em algum lugar tosco e ele achou que cagari é assim também. Faltou a ele a pespicácia, de que internet na américa do norte já era usada desde a época do modem de 8Kbps, entã é natural que lá usem mais a internet, e tenha muito mais informações no google do que pesquisando aqui.

    Tudo isso foi ruído de informação. Um quebra-pau desnecessário se você tivesse dito antes do “googlear”.. Rapaz, meu emprego aqui eu achei da seguinte forma.
    E concluísse dizendo que o google no canadá está em todos os ramos e lugares.

    beijo na bunda.

  8. pertubado - bairro do salgado disse:

    da vontade de dar uma surra boa num fdp trolll desses

  9. Fábio Prates disse:

    Tudo o que eu sei eu aprendi por conta própria, sempre que eu pedia ajuda para alguém era por não poder fazer, mas mesmo assim eu não confiava na ajuda, hoje eu sou um intermédio entre muitos amigos e parentes que pedem algo para mim que basta procurar no Google (é o que eu faço, mas se os lembrassem disto eles reclamariam muito, e no caso dos parentes me odiariam mais), não sei como podem ser tão decadentes assim, mas o cara da comunidade do Orkut queria mesmo é puxar assunto (sei que o post é antigo, o cara ja deve estar no Brasil a uns meses).

  10. João Paulo disse:

    O complicado da internet é a preguiça de se comunicar direito. Ao meu ver, é só isso. As pessoas realmente têm um pouco de preguiça de pesquisar, ir atrás e tudo mais. Mas ao mesmo tempo, temos preguiça de digitar, explicar direitinho o que queremos ou o que estamos respondendo. Isso, infelizmente, gera uma série de ambiguidades.
    Afinal de contas, a frase do Izzy de “Se você googlear você acha” pode ser tanto de ajuda quanto de sarcasmo! E isso, sim, é uma peculiaridade da linguística brasileira. No exterior, as pessoas se comunicam por palavras. No Brasil, nos comunicamos com palavras e com tons de voz. Uma mesma frase pode ser dita com jeitinho, numa entonação simpática e agradável e também pode ser dita num tom extremamente rude e mal-humorado.
    Na internet, não tem como ouvirmos o tom que a pessoa quis transmitir. E dai, a maioria interpreta como sendo o tom negativo. No caso, o sarcasmo.

    Peculiaridades do Brasil =D
    Mas valeu pelo texto. Sou fã dos posts do blog! Sempre um ponto de vista bacana, principalmente sobre a internet.