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Resenha – The Settlers pra iPhone/iPod touch

Postado em 12 novembro 2009 Escrito por Izzy Nobre 49 Comentários

Quando o iPhone começou a se tornar uma plataforma de games de verdade, eu falei pra mim mesmo com um suspiro – “Já pensou se a Ubisoft lançasse The Settlers na AppStore?”.

Era um sonho que eu julgava impossível. Como já falei em outras ocasiões, The Settlers ocupa posição igual (senão superior) a Super Mario World no meu sagrado panteão de jogos de infância. Entretanto, a série era obscura demais pra atrair a atenção de neófitos randômicos na AppStore – só mesmo os jogadores veteranos comprariam, e a iniciativa da empresa seria pouco rentável. A franquia não é um caça-níqueis lucrativo como Metal Gear Solid ou Need For Speed, que vendem horrores só pelo nome.

Bom, aparentemente eu não prestei atenção nas lições dadas nos desenhos da Disney, pois de fato nada é impossível – a Gameloft, uma respeitada gamehouse do mundo mobile, lançou The Settlers pra iPhone e iPod touch na semana passada. E rapaz, que lançamento incrivelmente do caralho.

The Settlers trata-se de uma clássica série de estratégia iniciada no Commodore Amiga em 1993 pela Blue Byte, uma produtora de games alemã, e é a versão eletrônica do jogo de tabuleiro Die Siedler. Serf City (traduzido livremente como “Cidade dos Servos”, uma referência feudal) era o nome original do jogo quando foi inicialmente levado à América do Norte. Por algum motivo, o título caiu em desuso e a Blue Byte optou pela tradução direta do nome em alemão – “Os Colonizadores”.


Olha o jogo original aí, em toda a sua glória pixelada.

A série tem sete jogos (e alguns add-ons) e já tentou a sorte no mundo portátil há alguns anos com Settlers DS, um port injustificavelmente porco de The Settlers II – que é considerado por muitos o melhor da franquia, diga-se de passagem. A Ubisoft ainda tá me devendo por essa imperdoável desfeita, aliás. Delegar o port do jogo pra Gameloft – que tem muitos sucessos no currículo – foi uma excelente idéia.

The Settlers II foi o último que manteve o gameplay estabelecido pelo primeiro jogo da série. Desde o terceiro título, The Settlers abandonou algumas convenções dos primeiros jogos e se moveu numa direção mais próxima à do RTS tradicional – como por exemplo, o jogo passou a te dar controle direto sobre algumas unidades específicas que antes agiam autonomamente.

E embora eu tenha passado os últimos anos torcendo o nariz ao ponto de fratura diante as versões atuais do clássico, a Gameloft fez um trabalho tão bem acertado em Settlers pro iPhone, que eu me vi destruindo um paradigma e preferindo a versão nova à clássica.


Xeu explicar algo aqui logo de cara – esta versão de The Settlers não é uma versão açucarada e minimizada pra caber na premissa casual do ambiente gamer do iPhone. Não estamos lidando com um The Settlers-light, como foi o caso com Command and Conquer ou Rise of the Lost Empires, outros RTSs que chegaram na AppStore um pouco antes. Você estará jogando uma versão que traz todo o conceito que a série criou no PC. Até onde pude perceber, a Gameloft não fez concessões no que diz respeito a conteúdo.

Visualmente, a Gameloft também não economizou em nada. Os cenários são ricos e as animações, bem detalhadas. O mundo de The Settlers parece lotado com vida – seus colonos passeiam por aqui e ali transportando materiais (ou fazendo malabarismos e outras traquinagens quando estão ociosos), animaizinhos correm, voam e nadam pela tela, as ondas batem nas praias, cada prédio no jogo é visualmente distinto e exibe animações correspondentes… É difícil achar um ponto na tela sem atividade. E isso enche os olhos.

Às vezes é um barato apenas “passear” pela sua cidade acompanhando a construção de novos edifícios, ou as interações entre os colonos. Conheço uma penca de gamers que certamente se encaixam no perfil da galera que vai passar um bom tempo apenas apreciando a dinâmica de suas cidades. Frequentemente você terá que fazer isso pra analisar a eficiência das suas indústrias, aliás, e executar mudanças onde necessárias.

O áudio também não fica atrás – a trilha de The Settlers é completamente imersiva. Desde passarinhos cantando ao ferreiro martelando sua bigorna até o ruído dos riachos e as machadas do lenhador, tudo que você vê acontecendo é registrado sonoramente quando você arrasta a tela pras proximidades da fonte do barulho. Isso ajuda a te manter ligado à cidadezinha que você carrega na palma da mão. Só há uma música, mas você pode ouvir as músicas que traz no seu iPhone.

E o gameplay? Então, The Settlers foi um precursor do gênero RTS, mas usando uma direção que permanece original e única há mais de 15 anos. E num mundo em que cão come cão e todo mundo copia as inovações alheias quando estes estão de costas, isso é notável.

Dizer que The Settlers é um RTS, embora correto, talvez dê ao leitor uma idéia errada sobre o jogo. Apesar de ser um dos primeiros games do gênero, The Settlers tem uma premissa dramaticamente diferente dos jogos que vieram a se tornar carros-chefes do estilo, como Starcraft, Command and Conquer e Age of Empires.

Ao invés de um jogo de estratégia militar com um pequeno foco em coleta de recursos como essencialmente 99% dos RTSs, em The Settlers a infraestrutura de extração e refinamento dos recursos compõe a maior parte do jogo.

O tema medieval, o relacionamento entre produção e transporte de bens, o cuidadoso planejamento no equilíbrio numérico e posicionamento de suas “fábricas” e a pitada de combate tornam o jogo um meio termo entre SimCity e Warcraft. Enquanto a maioria de jogos lida com produção de recursos de forma superficial, The Settlers é essencialmente só isso.

Não é tão boring quanto parece no papel (ou na tela do seu computador, pra atualizar a figura de linguagem). Vou dar um exemplo prático.

Digamos que você queira treinar um soldado – apesar do combate exercer um papel marginal no jogo, ele ainda é necessário pra vencer as missões. Pra isso, você precisará de um colono desocupado a quem você possa treinar, uma espada, e ouro (pra pagar o treinamento). Até aqui é simples, embora já seja mais profundo que qualquer outro jogo em que o treinamento geralmente requer apenas ouro/qualquer outra unidade monetária. Em 99% dos RTSs, suas tropas surgem meio que do nada.

Comecemos com a espada, que requer madeira e ferro. Pra madeira, você precisará cortar árvores com um lenhador, e em seguida transformar as toras em tábuas de madeira numa marcenaria. Tábuas são usadas em todas as construções, portanto a união casinha do lenhador + serraria é uma combinação primordial no jogo.

Já o ferro vem do minério de ferro bruto, que é combinado com carvão pra ser derretido e convertido em barras de ferro pelo ferreiro. O mineiro precisa ser alimentado pra trabalhar extraindo os minérios, então você precisa estabelecer uma cadeia de produção alimentar antes disso tudo (fazendas produzem trigo que é moído em moinhos, resultando em farinha que é combinada com água pra fazer pão na padaria. Esse é UM exemplo de como fazer comida no jogo, há outros).

Agora que você tem madeira e ferro, ambos materiais são combinados no arsenal pra fazer a sua espada. Finalmente, a espada é levada ao quartel, onde é apanhada por um colono que, ao ser pago com ouro, vira um soldado.

E pra te mostrar o quão profunda a rede é – todos as profissões que a produção do seu soldado envolveu (lenhador, fazendeiro, ferreiro, mineiro, marceneiro, etc) requerem suas próprias ferramentas e colonos desocupados. Pra produzir tais ferramentas, o circulo de produção recomeça.

Complexo, mas perfeitamente lógico e fácil de aprender. Como você pode ver, essas correntes de produção se repetem ao longo do jogo, e o resultado é que você acaba com uma metrópole agitada e cheia de indústrias conectadas e interdependentes – mais ou menos como o mundo real.

Se ao longo do caminho uma das etapas encontra um sobressalto, você precisará circunventear o problema rapidinho ou toda a rede entra em colapso e se torna ineficiente, ou pior – completamente paralisada.

Essa é a premissa em The Settlers – toda uma infraestrutura é necessária pra chegar a um produto final, de uma forma que espelha o mundo real de uma forma mais adequada e elegante que qualquer outro jogo de estratégia que você já jogou. Após se acostumar com a dinâmica de Settlers, conjurar soldadinhos do éter usando simplesmente “créditos” em outros RTS parecerá assaz simplório.

Logo no começo do jogo você tem uma área pequena pra estabelecer sua cidade. Torres e castelos aumentam pouco a pouco a área do seu feudo, portanto você tem que construi-los regularmente ao longo das suas fronteiras, ou acabará sem espaço e matéria prima pra continuar o jogo. Com exceção das árvores, que podem ser replantadas, os recursos são esgotáveis e você precisa prestar atenção nisso.

Parece complicado, e talvez um pouco intimidante, e realmente é no começo. À primeira jogada, não é perfeitamente claro o que você precisa fazer pra estabelecer uma rede de produção. É por isso que as duas primeiras missões compõe um tutorial que te pega pela mão e guia pelo caminho das pedras.

Confie em mim, sua paciência em domar o conceito do jogo – 10 minutos no máximo, na real – valerá a pena. A satisfação de ver suas decisões logísticas se manifestando na telinha do iPhone/iPod touch como uma cidade virtual eficiente é algo que você dificilmente encontrará em outro jogo de simulação/estratégia. E veja bem que digo isso como profundo apreciador de jogos do gênero.

Pra entender o charme de The Settlers, compare-o a um jogo como SimCity, que tem uma idéia similar em matéria de estabelecer uma cidade eficiente e lucrativa. Em SimCity há uma porção de decisões logísticas relativamente arbitrárias, como “evite colocar as áreas industriais perto das residenciais”. A lógica por trás disso é que os sims não apreciam morar perto das áreas industriais, que tendem a ser mais poluídas.

O problema é, quem iria imaginar isso a menos que você visse o tutorial? A menos que você lesse isso em algum lugar ou alguém te desse a dica, você teria essencialmente que ADIVINHAR que isso é um aspecto de simulação que o programador incluiu no jogo. SimCity é cheio desses pequenos detalhes que, por não oferecer feedback visual de suas ramificações, passam completamente despercebidos.

O mesmo não acontece em The Settlers, porque os resultados do seu planejamento de manifestam de forma mais clara. Não precisa assistir um vídeo-tutorial de 40 minutos pra entender que, se a casinha do lenhador estiver muito longe da marcenaria, o transporte de toras demorará muito, e a produção de tábuas de madeira será ineficiente. Isso acabará atrasando todas as suas construções.

Igualmente, se há apenas uma fazenda produzindo pra dar o pontapé no ciclo trigo -> farinha -> pão pra cobrir a demanda de sete minas, é bastante óbvio por que sua produção de minérios será lentíssima. Portanto, é recomendável várias múltiplas fazendas pra uma padaria – assim, o padeiro terá bastante farinha em estoque, e o output de pão será constante, sem depender de cada colheita individual.

Você não precisa de uma especialização em engenharia pra concluir que o motivo pelo qual as seis construções que você iniciou há meia hora nem sairam do chão ainda é porque você só treinou UM colono construtor – que tá levantando cada edifício sozinho, e apenas um de cada vez. Imagina quanto tempo demorará pra estabelecer a infraestrutura da sua cidade!

Eu poderia continuar dando mil exemplos de decisões logísticas ineficientes, mas eu tenho certeza que você tomará as suas quando estiver aprendendo a manha do jogo.

Certamente você colocará os pés pelas mãos ao menos uma vez no jogo depletando todo o material básico de construção sem ter antes aumentado os limites da sua colonização pra adquirir áreas com mais matéria prima. Em versões anteriores isso significava derrota, mas a nova versão permite que você destrua um outro edifício pra obter de volta uma porção de materiais básicos de construção.

Agora, os pontos negativos – o primeiro é o consumo de bateria. The Settlers, por ser um jogo em que há muita ação acontecendo na tela, faz o processador trabalhar redobrado. E como os aficcionados por tecnologia mobile sabem bem, isso acaba resultando em maior uso de bateria. Seu celular não morrerá em apenas uma hora de jogo, mas o consumo é notavelmente maior.

O segundo ponto negativo é a ausência de um modo “freeplay”, ou seja, um sandbox em que você possa jogar indefinidamente sem conexão com a campanha. A falta do modo, que era o que o único que eu sempre jogava, é decepcionante, mas não quebra as pernas do jogo – a campanha tem duas dúzias de missões que demoram em torno de 3 horas pra vencer, e que podem ser rejogadas a bel prazer uma vez que completadas.

O terceiro ponto negativo é, ironicamente, o que torna o jogo um clássico – sua complexidade. The Settlers definitivamente requer um pouquinho mais de dedicação que a maioria dos jogos do gênero, e isso talvez intimide os novatos. Entretanto, como mencionei antes, a recompensa é grande. Não deixe de experimentar só porque há uma curva de aprendizado.

Pra sintetizar todo este texto, aí está um vídeo do gameplay, filmado por este que vos fala. O vídeo é em inglês porque eu não gosto de limitar esses vídeos apenas ao internautas brasileiros, mas se você leu o texto acima, a narração é dispensável:

Veredito: The Settlers é um RTS icônico por sua complexidade, e (talvez por causa disso) a tentativa anterior de leva-lo ao mundo portátil falhou miseravelmente. Porém, é com grande felicidade que eu digo que essa versão é excelente e definitivamente vale seu dinheirinho suado.

O jogo vai te manter entretido por um bom tempo – Demorei mais ou menos 30 horas pra completar a campanha romana, e ainda me faltam 18 missões pra fechar o jogo – ou seja, eu praticamente nem comecei, e ainda poderei re-jogar missões anteriores quando quiser experimentar aqueles cenários novamente.

Em suma, se você tem um iPhone ou um iPod touch e se amarra em jogos de estratégia em tempo real, ESTE é o que você deve adquirir. O jogo custa módicos 7 dólares na AppStore, e você pode compra-lo clicando aqui.

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Categorias: Games

49 Comentários \o/

  1. José Henrique disse:

    Cara, esse jogo pelo que eu vi o Kid falar é muito parecido com Knights and Merchants, o negócio de ter que treinar um colono, fazer a espada, a partir de madeira, tábua etc… muito parecido a parte de alimentar as tropas, levar a comida até elas, ou trazer elas até um “refeitório” não lembro bem o nome, saudade de knights and merchants

  2. Maleenha disse:

    Kiiiiiiiidê, meu garoto!
    Tem como você colocar o post do Air Soft na coluna dos posts em “Destaque”?

    é um post bem informativo e eu queria mostrar prum amigo meu. :D

    Abraços.

  3. Tiago Durante disse:

    To jogando esse trem igual maluco… Já era doido pelo antigão do PC…

    MAS, tenho visto, inclusive em fóruns, acho que um foi até vc mesmo quem postou, problemas com controle de tropas.

    Eu tenho esse problema também, espero que logo saia um update, pq acabo perdendo unidades de bobeira por causa disso.

    Tirando esse ponto, ‘MAGAVILHA!’.

    []s!!

  4. camilo disse:

    the best game ever

    ta talvez não o melhor de todos …
    mas o melhor no gênero estratégia com certeza
    otimo post congratz

  5. phantomlink disse:

    Legal o review kid, só uma pequena correção: Ferro + carvão = aço!

    Abraços! ;D

  6. [...] The Settlers, um dos meus jogos favoritos da vida toda, foi lançado pro iPhone. Me senti como no dia que descobri o [...]

  7. Jappa o disse:

    Heey Kid.
    tentei dar uma olhada no Settlers, porque gosto de RTSs com ESSE estilo, e lhe digo que ainda prefiro, e recomendo, o Stronghold.
    Experimenta lá, depois me diz o que achou xD

  8. Kid disse:

    Jappa, tá se referindo a Strongholds? Esse aqui?

    http://www.youtube.com/watch?v=awA6wmw8aCI

    Se sim esse estilo de jogo não tem NADA a ver com Settlers.