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Postado em 15 June 2004 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Mais um encontro com a polícia canadense. Mais um susto, mais demonstração de abuso de autoridade, mais uma decepção.

Conforme eu já comentei neste meu querido diarinho, eu tenho uma sorte do caralho que fez com que minha namorada se mudasse para um prédio próximo à minha casa. Por ironia do destino, ela agora mora no mesmo prédio em que eu a conheci – onde houve aquela primeira festa, que foi justamente quando tive meu primeiro “contato” com as gentis autoridades canadenses. Puta coincidência do cacete, vou te contar.

Enfim.

Passei a tarde ontem com ela e o pessoal, e à noite fui deixa-la em seu prédio. Voltei andando para o condomínio onde moro. Ao passar pela rua do Chris – o outro guitarrista da minha banda -, vi duas viaturas policiais com as sirenes ligadas. Como qualquer brasileiro que é um filho da puta curioso e adora ver a desgraça alheia, desviei meu itinerário em direção à rua do Chris.

À luz baixa, dava pra ver pessoas na frente de uma garagem, ouvindo música e bebendo cerveja. Quatro policiais estavam no lugar, discutindo com os caras. Não dava pra ver QUEM estava discutindo com os policiais, mas tive a impressão de ter ouvido a voz da mãe do Chris. Ela estava gritando com o policial. Continuei no meu caminho.

Antes de eu ter saído para deixar a patroa em seu domicílio, já estava acertado que eu e meu irmão iríamos dar um rolê pela cidade com o Chris. Cheguei, fiz um formidável Nissin Miojo (na verdade, seu equivalente canadense) e fui à casa do amigo. Ele estava na garagem do vizinho, Bob, tomando cerveja e ouvindo música. Chegando lá, explicaram-me o que havia acontecido: uma vizinha filha da puta tinha ligado para a polícia por causa do barulho. Os policiais não podiam fazer muita coisa, pois ainda não eram onze da noite (horário a partir do qual não se pode fazer algazarra). Os tiras foram embora.

Bob e a mãe do Chris estavam visivelmente embriagados. Bob nos chamou para a casa, para mostrar alguns trabalhos dele com madeira. Mesas, armários, essas coisas.

De repente, ouvimos gritos. Chris vai até a porta da frente para saber o que tinha acontecido. Ele volta correndo e pede ajuda para Bob, explicando que a polícia havia voltado, e que estavam prendendo sua mãe.

Corremos todos para a porta, para tentar ajudar. Qual não foi minha surpresa ao ver não um, nem dois, nem três, mas QUATRO viaturas. Alguns segundos depois, mais duas viaturas chegaram ao local, bloqueando completamente a estreita rua do condomínio. A mãe do Chris estava algemada, e sendo levada para dentro de um dos carros.

Quando saímos, os tiras olharam todos para nós. Eram mais ou menos vinte policiais. Um deles estava à paisana, mas com a indefectível Glock 9mm pendurada no cinto, e um olhar muito safado. Chris estava revoltadíssimo, e gritando contra os policiais. Um dos tiras se aproximou e explicou que estavam prendendo a mãe dele porque ela tentou atacar um deles. Eu até poderia acreditar nisso, se eu não tivesse visto o que aconteceu logo em seguida.

Bob se aproximou do círculo de policiais, para tentar intermediar a situação caótica. Ele estava ainda alterado pela bebida, o que me deixou em estado de alerta. Eu SABIA que alguma merda ia acontecer. O viado do Chris não tava nem aí, gritava com os policiais, falava palavrão, esse tipo de coisa. Ele começou a se mostrar alterado, então corri pra frente dele na débil tentativa de segura-lo caso ele pensasse em fazer alguma merda – e digo “débil” porque ele mede mais ou menos 1,85m, e pesa umas três vezes o meu peso. De qualquer forma, achei melhor ao menos tentar impedir que ele complicasse a situação.

No meio do círculo, Bob tentava argumentar com os policiais. Em um dado momento, ele levantou os braços, o que eu entendi como uma forma de mostrar rendição, e que queria apenas conversar.

Foi o que bastou. Diante de nossos olhos supresos, o círculo de policiais fechou-se contra Bob. A frase “you’re under arrest!“, que eu ouvi incontáveis vezes nos filmes, pareceu muito mais séria e chocante sendo proferida a dois metros de distância de onde eu estava. No chão, os policiais esforçavam-se para dominar Bob, que devia ter lá seus dois metros de altura e uns 150 quilos. Entre os gritos dos policiais, ouvi-o dizendo “i’m not resisting, i’m not resisting!“. Um policial segurava seu braço nas costas, e ameaçava quebra-lo.

Os dois policiais que estavam mais próximos de nós viraram as costas para a turba que lutava contra o homem caído, e posicionaram-se de frente para nós, como forma de impedir qualquer tentativa de ajuda. Até parece que eu ia me meter no meio.

Quando Bob já estava totalmente imóvel próximo ao meio fio, um policial apareceu DO NADA e fez algo que ninguém conseguiu acreditar: meteu um pontapé na altura da barriga do prisioneiro, que já estava totalmente dominado pelos policiais.

A revolta foi geral. Nesse ponto, vários vizinhos já estavam observando a cena. Alguns tentaram dialogar com os policiais, mas foi em vão. Bob foi levado para a viatura, que partiu em seguida. Quando a coisa acalmou, percebi que um dos policiais ERA O MESMO que tinha ameaçado a mim e aos meus amigos naquela primeira festa. Ele me viu, e me reconheceu também. O olhar dele foi sinistro.

Hoje à noite vou à casa do Chris para saber no que deu toda aquela putaria.

Uma coisa é certa: não é apenas no Brasil que os policiais fazem o que bem entendem.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)