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Postado em 22 June 2004 Escrito por Izzy Nobre 1 Comentário

Eu nem sempre fui um vagabundo, sabe. Houve uma época na minha vida em que eu acordava cedinho de manhã, tomava um banho (ok, essa parte nem sempre), caminhava sonolento até a parada de ônibus – inevitavelmente lotado – e batia ponto numa empresa. Trabalhei quase um ano como operador do CPD de uma grande empresa de metalurgia do Maranhão.

(O dono era amigo da minha mãe e praticamente me empurrou pro emprego, pronto.)



O lugar onde eu “trabalhava” era parecido com esse aí, porém um pouco mais espaçoso. Digo “trabalhava” porque na verdade eu não trabalhava, eu ESFORÇAVA-ME AO MÁXIMO PARA NÃO FODER MUITO COM A EMPRESA.

Mas esse esforço era em vão. Bom, na verdade eu nem lembro de me esforçar muito – esse era o problema.

Enfim, independente das minhas tentativas contrárias, eu fazia merdas que fariam até mesmo o cara mais atrapalhado e inútil do mundo olhar pra mim revoltado e dizer “Caralho mermão, sai daí, deixa que eu faço!” Se chefe tivesse idéia das merdas que eu fazia quase todo dia, eu teria ido pra rua muito antes.

Existem seis níveis de cagada no emprego, que listei abaixo em ordem crescente de magnitude destrutiva:

1) Aquele vacilo pequeno, que pode ser escondido facilmente;

2) O errinho que é percebido por alguns, mas pode ser consertado antes que o chefe volte;

3) A pisada de bola estrondosa que todos percebem mas que, com sorte e ajuda dos astros, ainda pode ser remediada;

4) A merda astronômica que causa prejuízos irreparáveis e demissões;

5) A catástrofe apocalíptica que destrói a empresa além de provocar queimaduras de terceiro grau, processos e mortes;

6) As coisas que eu fazia quando trabalhava – também conhecido como Fator Quide(sgraça).

Meu trabalho não era muito complicado, mas ainda assim eu conseguia foder tudo e todos em minha volta. Parecia que um campo de energia negativa provocada por Vênus rodeava minha aura mística transcendental, provocando um sem-número de contratempos e putarias. Não era culpa minha não.

Uma de minhas funções era operar o sistema de controle de distribuição de material, designando rotas para os caminhões que entregavam ferro e aço aos pontos de construção ao redor da cidade. No programa, os bairros eram representados por números de 001 até 023, se não me falha a memória. Quando eu ia cadastrar uma nova entrega, digitava um desses números. O nome do bairro que seria o destino do material saía impresso numa folha, junto com a relação do inventário.

Pra começo de conversa, como eles atribuem uma tarefa dessas A MIM!? Qualquer pessoa que leia este diário virtual dificilmente me deixaria a cargo de sequer fritar um ovo, e nos os culpo. Se o chefe lesse o HBD nada disso teria acontecido.

Entretanto, vejam que a tarefa em questão era bastante simples, bastava prestar um pouco de atenção. Infelizmente, tal faculdade mental é uma desconhecida para mim.

Então eu de vez em quando (leia-se COM FREQUÊNCIA ASSUSTADORA) errava o número dos bairros e ocasionava a entrega de material em endereços errados ou inexistentes. Uma vez mandei um caminhão cheio de barras de aço pra um bairro que ficava praticamente numa cidade vizinha. Os caras chegam lá só pra descobrir que, onde deveria estar a construção de uma escola, funcionava uma padaria.

Minha outra função era ainda simples: eu deveria pegar as segundas-vias das compras efetuadas pela empresa e grampear nelas os canhotos das terceiras-vias. Aquilo tudo ia pro contador, para que ele controlasse o fluxo de grana dentro da compania. Um serviço SIMPLES. Ninguém seria capaz de foder algo tão trivial. Quer dizer, ninguém além deste que vos escreve. Um serviço simples não significa que eu não vou descobrir uma forma de faze-lo de maneira errada.

Uma vez, no fim do dia, após ter grampeado mais de DUZENTOS canhotos, percebi que havia anexado-os à PRIMEIRA VIA, ao invés da segunda. Eu teria que tirar todos os grampos, descer ao almoxarifado, procurar as segundas-vias do dia e regrampear tudo. Mas era minha hora de ir embora, porra. Sem consternação, passei uma liga elástica em volta dos papéis e entreguei na mesa do meu supervisor.

– Aê chefia, tudo beleza.

Outra vez, fui pedido para destruir as duplicatas antigas (as que tinham mais de um ano). O supervisor deixou bem claro que eu devia prestar muita atenção na data das duplicatas antes de rasga-las. Eles precisavam arquivar as mais recentes, a perda de uma delas não podia ser cogitada. Os documentos estavam todos dentro de um grande saco de lixo. Fui pegando, olhando a data e, dependendo dos números, rasgando ou colocando na caixa ao lado. Aí as influências góticas malignas se mobilizaram pra foder comigo mais uma vez. Eu ainda não tinha meu kit Merlin2004 Plus na época, infelizmente.

Havia muito mais duplicatas antigas que recentes, então quase todas que eu pegava, rasgava. Era o seguinte: Meter a mão no saco, pegar um papel, olhar a data, coçar o saco, rasgar. Acontece que, quando se começa a fazer uma coisa repetidamente, o cérebro liga o piloto automático e desliga a atenção.

Assim, a etapa “olhar a data” acabou sendo eliminada do procedimento.

Quando me dei conta, havia rasgado TODOS os papéis dentro do saco, com exceção de duas que ainda sobraram no fundo. Peguei os papéis consternado: nenhum deles era uma duplicata recente, o que significava que eu havia rasgado TODAS as outras.

Sem exasperação, fui até o armário de material de escritório, apanhei um monte de papel de duplicata e joguei no meio das que ainda não estavam rasgadas. Nunca fiquei sabendo qual foi a surpresa do meu supervisor ao descobrir que, onde deveriam estar as duplicatas recentes, nada havia além de duas antigas e papéis em branco. Aquela era minha última semana no trampo, e eu não vi o cara até meu último dia porque ele tava viajando.

Isso sem mencionar as incontáveis vezes que eu ia lanchar numa padaria próxima e, quando voltava ao prédio, dava DE CARA com o chefe, com as mãos cheias de quitutes e guloseimas. Isso me irritava demais. TODO MUNDO ia lanchar numa boa e nunca era pego no flagra. Bastava eu pôr o pé na rua e a porra do chefe por algum motivo tinha que sair da sua sala e dar uma volta pelo complexo. As salas ficavam acima do depósito de material, e volta e meia (leia-se SEMPRE QUE EU RESOLVIA SAIR PRA FAZER UMA BOQUINHA), ele ficava dando voltas lá por baixo. E era batata, sempre esbarrava com ele na entrada, trazendo pastéis e refrigerante nas mãos.

Havia muito mais merda, por exemplo, a bagunça que eu fazia com os cobradores. No sistema de cobrança, eu deveria atribuir certas duplicatas a certos cobradores. Eu sempre errava, designando as cobranças erradas para os cobradores errados. O que acontecia era que, como o cara não estava designado para efetuar aquela cobrança que eu registrei com o nome dele na máquina, ele não ia. E o devedor não pagava.

Falando em não pagar, o erro mais aloprante era sem dúvida o que eu fazia na hora de registrar pagantes e devedores. Na lista de devedores, um Enter em cima de um nome significava que o indivíduo já havia pago seus débitos, e seu nome era removido da lista. Como eu fazia sempre com pressa pra acabar logo, acabava dando Enter em nomes errados. Esse vacilo causava prejuízo à empresa (pois o sistema entendia que o fulano já havia pago algo que na verdade não pagou), e deixava puto o cliente que havia pago sua dívida, mas cujo nome não havia sido “Enterizado” por mim. Um formidável erro duplo.

Meu Deus, agora que escrevo essas memórias, percebo que não produzi nada naquele lugar – pelo contrário, só avacalhei. Seria melhor para a empresa se eles me pagassem para NÃO ir trabalhar.

É de se admirar que eu eu tenha passado quase um ano lá, tempo mais do que suficiente para destrui-la. Mais admirável ainda é que isso não aconteceu.

Yuri, eu sei que você vai avacalhar esse post. Então, antes de comentar, dê uma olhadinha nesta bela animação que fiz especialmente para você. É só pro Yuri, ok? Não clique no link se você não for ele, tá? Combinado.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

Um comentário \o/

  1. camilo says:

    ainda bem que trabalhar com artigos eróticos não é assim tão puxado pra vc neh …