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Postado em 24 June 2004 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Apesar de não ter nenhum motivo para isso, eu me orgulho de ser brasileiro. Não falo de forma pessimista assim pelo estado caótico do nosso país. A falta de motivos para orgulho patriótico é simples: o país existe independente de você. Você não é responsável por nada das coisas boas que existem em solo nacional (que convenhamos, se limitam às belezas naturais). Fazemos pouco ou mesmo nada para contribuir com a nação. Portanto, como podemos ter orgulho de algo que não fizemos? Não faz sentido. Se orgulhar do lugar onde você nasceu é pura burrice. Ainda mais quando você nasceu no Brasil.

Mas sou um burro também, porque por algum motivo me orgulho de ser brasileiro. Engraçado que isso não acontecia antes de eu ter vindo pra cá. Descobri aos poucos que brasileiros são o povo mais sagaz que já caminhou nessa Terra, com exceção, claro, dos Koopa Tropas. Alguns deles tinham até asas, não há como competir com isso.

Mas semana passada, pela primeira vez desde que cheguei aqui, senti VERGONHA de ser brasileiro. E tudo por causa disso aí.



No último fim de semana, fui alugar um filme com a patroa numa locadora aqui perto. De repente, não mais que de repente, avistei o DVD de Cidade de Deus na prateleira dos “Top 10”, os filmes mais alugados do momento. O orgulho patriótico burro – se orgulhar por causa de um filme – me fez sair chutando tudo em meu caminho até alcançar a caixa do DVD, apanha-la e ler a descrição tosca em inglês no verso.

A alemã chegou logo atrás. Contei a ela que era um filme brazuca, que foi indicado ao Oscar, pá e tal. Ela se demonstrou extremamente interessada em aluga-lo.

Foi aí que de repente, me bateu uma extrema vergonha do lugar de onde venho. Enquanto favelas, tráfico à plena luz do dia, crianças cometendo assassinatos e fights pulíça X malandros se tornaram coisas comuns para nós, aos olhos de um cidadão de um país desenvolvido são coisas impensáveis.

Não me entendam mal. Não sou daqueles brasileiros ufanistas, que idolatram o país e falam bem dele em toda oportunidade. Pelo contrário. Nunca tive vergonha de contar pro pessoal aqui que viver no Brasil era uma putaria sem tamanho, uma aventura emocionante. Aliás, eu fazia isso fazia com uma certa empolgação até.

– Quer dizer que vocês deixam as portas de casa destrancadas aqui?!

– É sim. Vocês não fazem isso no Brasil?

– Porra, tu é louco rapá? Até trancando os caras entram, roubam tua TV, assaltam tua geladeira, cagam no chão da sala, passam a mão na bunda da tua mãe e te dão um chute só de sacanagem. Se deixar a porta aberta eles tiram os parafusos das dobradiças e levam ela também.

Contar esse tipo de coisa para alguém cujo o maior problema com criminalidade que ele conhece é shoplifting (neguim safado roubando em lojas, ainda que tenha dinheiro pra pagar) é curioso. Os caras arregalam os olhos, não conseguem acreditar de jeito nenhum.

O problema é que imagens falam mais que mil e duas palavras. O que o filme mostra é um país acabado, pobre, violento, feio. Pra quem mora lá, é fácil entender que o Brasil não é bem assim.

Não vou ficar com aquela babaquice de dizer que “o país é grande, bonito, tem potencial, blá blá blá…“, disso todos vocês já sabem. Sei que muitos me taxarão, mas não preciso ficar justificando minha opinião. O país é fodido, ponto final. As pessoas não colaboram, ponto final. As imagens REAIS do nosso país envergonham alguém que as mostre a um estrangeiro, ponto final.

Há certas coisas que os gringos simplesmente não conseguem conceber. É inútil explicar que aquilo não é a realidade no Brasil inteiro, que a violência exagerada se limita às cidades maiores e todas as outras desculpas que inventamos pros turistas. Alugando esse filme, a única imagem que eu estaria dando do meu país seria a de um traficante entregando uma arma pra um moleque e mandando-o escolher qual dos amiguinhos ia matar. Inconscientemente, minha mulé ia me ver como um pobre coitado que fugiu de um país onde traficantes mandam. Não por “burrice gringa” da parte dela – a generalização que fazemos para nos defender disso -, mas por falta de uma imagem mais lisonjeira. A legenda “Based on a True Story” estampada na caixa do filme não ajuda em nada. Como eu vou dizer que aquilo é exagerado se o filme é baseado numa história real?

Não sou contra fazer filmes que mostrem a realidade do nosso país. E certamente não sou contra a divulgação internacional deles. Acontece que, para os gringos, certos nuances da nossa cultura (como por exemplo, gente pobre e feia sentada numa calçada tomando cerveja e tocando samba enquanto um neguim corre no background atrás de uma galinha) são equações de quinto grau: eles olham, olham, olham e não entendem. Eles não estão acostumados com pobreza e feiúra, e ninguém vê com bons olhos o que não entede.

Não que eu desvalorize características da nossa herança cultural – e mesmo que fizesse: qual o motivo para valorizar? – mas acontece que você não pode esperar que pessoas que nunca viram uma favela na vida compreendam esse tipo de problema. E aí as pessoas começam a olhar pra você com uma certa pena, como se você fosse alguém inferior que eles por causa do lugar onde cresceu. É inconsciente e não há como evitar. E isso eu não quero.

O melhor que posso fazer para passar uma boa imagem do Brasil pra ela é negar a realidade geral do filme e procurar no Google imagens bonitas das praias do Rio de Janeiro.

Isso, confiem em mim, não é motivo de orgulho nenhum.

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About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)