Hbdia
  • Feed do Hbdia
  • Twitter
  • Youtube

Postado em 9 July 2004 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Eu nunca fui muito fã de televisão. Entretanto, sempre passava minha cota de umas seis horas diárias na frente do aparelho, sei lá por que. Acho eu fazia isso só pra me contrariar. Daí você vê como eu sou chato.

Aqui não há muitas coisas interessantes passando na TV. Claro, tem Simpsons e Family Guy que passam em uns 30 canais diferentes (e quase sempre no mesmo horário), mas tirando isso, a programação canadense fede. A estadunidense também. Não que a programação brasileira seja boa mas… não me atrapalhe senão eu acabo fugindo do tema do post.

Outro dia eu estava zapeando com o controle remoto e achei um programa interessante. Se chama Real TV, e é similar ao OS VÍDEOS MAIS INCRÍVEIS DO MUNDO, que passa aí no Brasil em algum canal underground que ninguém dá a mínima. Acho que é na Band. Ainda existe a Band?

Na chamadinha do programa, algo me chamou atenção: no próximo segmento, o programa exibiria um vídeo caseiro de uma prisão de traficantes. As cenas mostravam policiais empurrando dois neguinhos por vielas esburacadas, observados por uma turba de gente pobre e feia (perceba a redundância), cercadas por casinhas feias.

Meu amor à pátria despertou naquele momento. Aquele povo xexelento, as casas detonadas, as ruazinhas fodidas… Só podia ser uma favelinha no Brasil!!

O apresentador narrava a prévia do vídeo e, por trás de sua voz, eu consegui ouvir o som original da filmagem. Acho que ouvi alguém dizer “caralho!“.

Então, segundos antes da cena cortar e os comerciais entrarem, um dos polícias do vídeo se vira e deixa à mostra a manga do seu uniforme. Uma pequena bandeira do estado de São Paulo se fez visível.

Comerciais. Um remédio pra tosse, uma propaganda no McDonalds e algumas outras bobagens.

Volta o programa. Eu tinha razão, era um vídeo brasileiro! Que honra, meu Deus.

Ou não. Vou te contar, não é à toa que os americanos pensam que somos índios e ouvimos samba na floresta amazônica, quando não estamos jogando futebol, nos preparando para o carnaval ou invadindo o Orkut. As imagens da favela sugerem que fazemos de TUDO, menos algo que presta.

Os polícias pegaram dois “aviõezinhos“, o que na gíria malandra significa “aquele mané que faz o intermédio entre o traficamente fodão e aquele playboy que pensa que fai cheirar uma carreira da boa, mas na verdade tá inalando talco“. O narrador dublava os rapazes.

– Qualé chefia, num foi eu não, aí! Esse pó aí é pra mim mermo! Sou viciado, pô! Qualé?

– What´s the problem, mister oficer? I wasn´t the one carrying those drug! By the way, those are for my own personal use! I´m addicted!

Impagável. Meu irmão (que no momento se encontra na Flórida, que Deus o tenha) rolava de rir.

Aí os tiras levaram os dois rapazotes às “casas” de suas respetivas mães. Digo “casas” porque apenas uma morava em algo que se assemelha a uma residência convencional. A moradia da outra digna senhora muito se assemelhava com a caixa de papelão em que veio a TV em que eu assistia o programa. O narrador chamou as habitações populares de BARRACOS mesmo, em português, porém com aquele sotaque americano que todos conhecemos e amamos. Enrole a língua e tente pronunciar “barraco”. Foi isso aí. Hilário.

Em seguida, o apresentador discorreu brevemente sobre o método de construção e materiais utilizados pelos favelados para confeccionar os barracos: papelão, madeira podre, etc. E digo “confecção” porque, se duvidar, até costura eles usam para segurar as paredes dos moquifos.

Claro, quando falta cuspe.

Não é a toa a imagem que os gringos têm da gente. Além de índios dançarinos de samba, moramos em caixas de papelão e nossos filhos vendem drogas para sobreviver. Puta que pariu.

Onde eu estava mesmo? Ah, sim. Os gambés tavam recolhendo os marginais para suas respectivas casas (ou caixas de papelão, se preferir). Chegando lá, encontram as progenitoras de seus prisioneiros.

A reação das mães dos meliants meliantes, nos dois casos, foi violenta: elas explodiram em cima dos filhos, batendo e xingando. Mais traduções formidavelmente toscas!

– Seu filho duma puta! (tapa na cabeça) Vagabundo, marginal! Cachorro sem vergonha! (soco no ombro) Ainda bem que teu pai já morreu, pra ele não ter que ver uma putaria dessa! (voadora nas costas) Seu marginal sem vergonha, seu filha duma puta do caralho! (mais alguns golpes seguidos de um Fatality)

E o narrador, traduzindo:

– You are so inconsequent! You are just a lazy boy! God will punish you!!

O pau continuou comendo, porém sem tradução porque cacetada é uma linguagem universal, que nem a matemática. Teve até um belo gancho de direita, que significa a mesma coisa em qualquer país do mundo.

Infelizmente, em nenhum momento da pancadaria temos visão do rosto dos policiais. Mas aposto que estavam rindo pra caralho, porque não tentaram em nenhum momento impedir a mãe de espancar seu filho traficante e vagabundo.

O apresentador deu alguma lição de moral inútil no fim do quadro. Levantei-me do chão onde estive rolando de rir por uns dez minutos e recolhi-me ao meu computador, para escrever este texto.

E viva o Brasil, molecada. E se for traficar, não esqueça: use capacete.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe sua opinião aí. Você não tá fazendo nada mesmo!

comments

Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)