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Postado em 12 July 2004 Escrito por Izzy Nobre 2 Comentários

Luto


Quem me conhece sabe muito bem que não costumo postar detalhes da minha vida pessoal “gratuitamente“; geralmente faço isso tentando pôr humor no texto, tentando provocar risadas. Mas algo aconteceu na minha família e eu sinto uma espécie de obrigação em usar meu espaço virtual para registrar. Não tenho muitos amigos próximos aqui com quem eu possa conversar sobre isso, esse é o único lugar onde posso me expressar.

Faleceu ontem a minha tia avó, a tia Rita. Uma mulher simples, muito pobre, nascida e criada no interior cearense. Assim como muitos outros em sua época, saiu do sertão para tentar a sorte com os irmãos na capital.

Minhas melhores lembranças de infância se passaram na casa da minha avó materna, onde a tia Rita morava. Fui praticamente criado por ela, porque meus pais trabalhavam muito quanto eu era pequeno e não tinham condições de pagar alguém para cuidar de mim.

Lembro-me que ela ainda trabalhava quando eu era muito pequeno. Era faxineira em algum prédio do governo do Estado; ganhava qualquer mixaria, mas estava sempre me dando presentes, doces, essas coisas. Ela me mimava muito. Eu sou o neto mais velho, então rolava uma certa “preferência não declarada” na família. Todo mundo sacava isso.

Sabe, esse tipo de coisa faz a gente pensar muito sobre a nossa própria vida. Faz a gente perceber que a existência em si não tem muito sentido. Nós é que passamos a vida inteira procurando um sentido pra ela. No fim, os outros é que julgaram o que conseguimos.

Sabe, ela não fez muitas coisas na vida. Foi uma mulher pobre, humilde, inculta. Foi a pessoa que me criou durante mais da metade da minha vida. Alguém muito importante para mim.

Eu gostaria de ao menos postar a data de nascimento dela, como se costuma fazer em lápides, mas eu não sei quando ela nasceu. É provável que nem ela mesma soubesse. Onde ela nasceu dificilmente se faziam registros de nascimento. Ela era analfabeta, nunca frequentou escola na vida.

Eu não vou poder comparecer ao funeral dela. Eu costumava achar isso uma bobagem: “pra quê fazer questão de ir ao enterro de alguém? Já tá morto, ué…

Mas nao é bem assim. A tal da “vontade de dar uma última despedida” da qual eu sempre ouvia falar é um sentimento real.

A última vez que a vi foi antes de embarcar para cá. Eu não sabia que seria a última vez que a veria. Talvez eu tivesse me despedido melhor.

Realmente não gosto de postar esse tipo de coisa. Não gosto de expor minha vida a não ser que seja com o propósito de fazer humor.

Mas essa citação honrosa é o mínimo que posso fazer por alguém que cuidou de mim como uma mãe, quando meus próprios pais não estavam por perto. Eu devo isso à memória dela.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

2 Comentários \o/

  1. […] E estava amargando um pé na bunda, também. Eu estava noivo quando vim ao Canadá; mais ou menos 2 semanas após chegar aqui, descobri que a garota já tava com outro namorado. Somado à situação de merda em que eu já estava vivendo, foi um baque monstruoso — até cogitar suicídio eu cogitei, pra você ver como estava a coisa. Ah, sim, e meus pais iniciaram um processo de divórcio poucas semanas após chegar aqui, também. Alguns poucos meses depois, a tia avó que me criou morreu. […]