Hbdia
  • Feed do Hbdia
  • Twitter
  • Youtube

Postado em 24 July 2004 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários


Vida escolar


Não era apenas na faculdade que eu tinha minhas emocionantes aventuras. As presepadas em que eu me metia vêm de uma data mais longíqua: o ensino fundamental. Desde aquela época minha vida estudantil já era uma grande putaria que não prometia muito além de uma formatura arrastada por pena dos professores, e um emprego de meio expediente em algum escritório meia-boca (opa, eu já trabalhei em um).

Naquele tempo, a atividade criminal que eu desempenhava era o maligno roubo de merenda escolar. O pátio da escola era o cenário das ações mafiosas. O esquema era basicamente o seguinte: eu e alguns colegas de mau coração (assim como este que vos fala, que quando morrer vai diretinho pro inferno) interpelávamos as crianças que comiam avidamente seus pastéis de queijo com orégano – que eram uma delícia e custavam um real na cantina da escola -, com a intenção maliciosa de toma-los, usando força bruta e beliscão no peito se necessário. Ou seja, a turma enquadrava os pivetes e metia aquela pressão.

Essa era a nossa tática maestral: abordar o alvo em grupo. Dificilmente alguém se rebelava contra a exploração se atacassemos todos juntos. Claro que o pastel teria que ser dividido entre a quadrilha, mas os resultados de um ataque em massa eram sempre melhores.

Se o garoto fosse esperto, ele racharia o lanche com a turma e ninguém saía ferido ou chorando pra coordenação. Se não…

Bem, nos primeiros instantes não acontecia nada, e o malandro achava que ia sair impune. O pobre infeliz continuava a comer seu pastelzinho de queijo com guaraná quando de repente, não mais que de repente, alguém passava correndo e ACIDENTALMENTE mandava um tapão na mão do moleque, derrubando seu pastel. Antes que a criança ao menos pensasse em recolher o lanche do chão (alguns sopravam a areia do pastel e continuavam a comer sem a menor cerimônia, aqueles pivetes da quarta série eram uns nojentos mesmo), a turma ACIDENTALMENTE corria pra cima do quitute e ACIDENTALMENTE pisoteavam-no até que ficasse irreconhecível. Então ACIDENTALMENTE cantávamos um hino de escárnio, apontando para a cara do egoísta que não quis repartir a guloseima com os marginais que não tinham dinheiro para comprar uma.

(Tudo sem querer, porque somos todos inocentes.)

A vingança era maligna, mas essa era a lei. Divida o lanche e todos ficam felizes; tente escapar da extorsão e algum INFELIZ ACIDENTE poderia acontecer num futuro próximo.

Tática mafiosa mesmo. Eu era o comandante das nefastas operações de roubo de lanche, quase um Al Capone de 14 anos. A diferença é que eu era bem mais bonito.

E que ninguém ousasse cagüetar os criminosos!

Ocasionalmente uma vítima corajosa nos reportava às autoridades. Uma vez um certo guri, cujo pastel pisoteado trouxe lágrimas aos olhos, correu para a coordenação da escola pra dedurar todo mundo. “Ah, esses filhos da puta me pagam“, deve ter pensado o pobre menino lá com seus botões pré-escolares. O moleque inconsequente assinou a própria execução.

Por medo da nossa retaliação, o X-9 não apontava diretamente o autor do crime (aquele que maldosamente derrubou seu lanche). O máximo que ele fazia era “foi aquele ali, tia!” Nesse instante, “aqueles ali” já tinham se espalhado, se afastando da cena malandramente, como quem não quer nada.

Algumas vezes o coitado nem ao menos conhecia aquele que derrubou seu pastel, porque o colégio era grande. E além disso, todos sabiam que, uma vez fora dos portões da escola, o buraco era mais embaixo… Dessa forma, passei um ano inteiro lanchando de graça, impune.

Para evitar as delatações, inventei uma nova estratégia que foi posteriormente agregada oficialmente à prática tradicional (posso dizer sem modéstia que praticamente re-inventei o conceito milenar de roubar lanche, que vem desde os tempos bíblicos): o lance era dar à coisa um tom de brincadeira. Se chegássemos rindo, pulando, com gracinhas e firuleiras, podíamos alegar que estávamos apenas brincando e não realmente intencionados a roubar o lanche do guri. Essa idéia genial me livrou de várias suspensões, pois não havia como provar as intenções nefastas.

Notem que minha mente demoníaca voltada para o mal já me dava seus primeiros frutos. Caralho, acho que nunca na vida tive uma idéia que levasse alguém a pensar em coisas boas ou que servisse para o bem da humanidade. Todas resultam em confusão entre a galera, brigas insolúveis ou quedas de aviões.

Mas melhor que isso era roubar lanche diretamente da cantina do colégio. Em dias de rush, quando ninguém trazia lanche de casa, a cantina ficava absurdamente lotada. Os carinhas que trabalhavam na cantina ficavam sobrecarregados, e tudo que viam em cima do balcão eram as dezenas de guris com suas mãos estendidas, esperando receber seus lanches, enquanto gritavam “cadê meu lanche, me dá meu lanche, puta que pariu, quero meu lanche…“.

Eu e alguns amigos nos infiltrávamos na turba, estendíamos os braços e nos juntávamos ao coro do “cadê meu lanche, me dá meu lanche…“. Totalmente confusos pelo nosso barulho (que se juntava com o forró que a cozinheira ouvia em seu radinho de pilha enquanto fritava mais lanches), os balconistas da cantina saiam entregando – quase JOGANDO, pra falar a verdade – pasteis para todo mundo. Vez ou outra algum dos nossos conseguia filar um. Se ninguém mais conseguisse pegar um salgado, aquele que teve êxito tornava-se vítima da mesma extorsão que os guris menores sofriam.

Era um mundo cruel, mermão.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe sua opinião aí. Você não tá fazendo nada mesmo!

comments

Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)