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Postado em 29 July 2004 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Oh, os tempos de internet discada… Em que belo mundo vivíamos, não? A internet lenta nos educava de uma forma que nunca saberemos valorizar, ou que muitos sequer conhecerão. Agora que todo mundo tem ADSL, internet a cabo, a rádio, a microondas e fogão, já tá tudo fudido.

No meu tempo, não tinha esse negócio de passar o dia inteiro conectado. Internet era um luxo que nos dávamos apenas nos fins de semana, ou durante as madrugadas. Graças a essa prática, eu aprendi o significado do pulso único, decorei todos os feriados nacionais do nosso calendário e descobri técnicas formidáveis para se manter acordado até a meia noite, horário da internetagem liberada. Hoje em dia o moleque mal liga o PC e, antes de ouvir o barulhinho de boas vindas do Ruíndows, já tá conectado, checandos e-mails, lendo comentários do blog e arrumando confusão numa comunidade do Orkut.

Não existia Google. Nós tínhamos que usar o Cadê, ou no máximo, o Yahoo!, que se somados e elevados à decima terceira potência não chegariam nem aos pés do sensacional banco de dados do deus dos sistemas buscas da internet atual. Se eu quisesse saber qual a capital da Guatemala ou a população do Turcomenistão, tinha que ESTUDAR. Tinha que pegar um ônibus, ir à biblioteca e garimpar entre os quinhentos milhões de livros um que pudesse tirar minha dúvida inútil. Ainda que preferíssemos pesquisar na internet, as duas horas que os resultados da busca demoravam para aparecer já eram suficientes para que desistíssemos daquele negócio de procurar respostas na internet e fôssemos fazer algo de mais valia.


Bate papo sem frescuras


Programinhas de bate-papo com opções como webcam, conversa por áudio, conferência, joguinhos e outras farofagens? Porra nenhuma. Tínhamos IRC, que servia exclusivamente pra teclar (e trocar pornografia, mas isso não vem ao caso).

Naquele tempo se exercitava a escrita. Hoje em dia não se tecla, a comunicação é feita inteiramente por smiles do MSN. Veja como esses emoticons substituem com facilidade sentenças inteiras:

= “Oi, tudo bom? Vi uma foto sua em algum site por aí e te adicionei na esperança que um dia você libere pra mim

= “Caralho, você é bicha mesmo? Achei que era brincadeira do pessoal!”

= “Sabe como é, isso nunca tinha acontecido antes. Da próxima vez eu juro que me concentro mais…”

= “Sei não, ein. Da última vez você foi embora sem pagar e eu me fodi.”

= “Você é interessante pra caralho.”

Não, não. Nada de imagenzinhas. A gente usava dois pontos e um parêntese. Essa era a nossa cara de feliz.

Sites eram objetos de status internéticos. Dizer “eu tenho um sáite, sabe” era o equivalente atual de “tou com CounterStrike e um Cd key original, e não te dou“. Você era até mesmo invejado. Se você conseguisse colocar um contador de visitas ou um guestbook, então!


Um belo trabalho de webdesign primitivo


Quem tinha um website era considerado O HACKER DA TURMA, ainda que linguagem HTML pouco – ou nada – tivesse a ver com atividades haxors. Vale lembrar que, naquele tempo, hacker não era quem invadia seu computador. Era aquele cara que sabia o básico sobre um, como desmonta-lo e faze-lo funcionar de novo.

Era padrão: o cara pegava um CD com cliparts e gifs animados toscos, apanhava para um editor de html paleozóico, arrumava um espacinho de uns cinco megas no Xoom, GeoCities ou StarMedia e colocava no ar uma página sem conteúdo algum, milhares de bugs e o indefectível “e-mail para contato”. Sim, nossa inocência nos fazia acreditar que um desconhecido qualquer visitaria aquela porcaria e ainda sentiria vontade de mandar um e-mail pra gente.

Mas naquele tempo, nós SABÍAMOS fazer páginas. Não existiam template shops com códigos pra gente copiar e colar. Hoje em dia até cachorros têm blogs, idosas viram modelos e não mandamos e-mails nem pras nossas próprias mães em seus aniversários.

Baixar vídeo de mulher pelada?! Impraticável. Não existia Kazaa, Emule ou similares antros de p2p (punheteiro to punheteiro). No máximo, nos satisfazíamos com um arquivo zipado com 20 fotos de amadoras, enviado por um amigo no IRC, que supostamente seriam de alguma ^-^LaNiZiNhA^-^ e suas amigas – de nicks igualmente toscos – , todas frequentadoras do canal #rio_de_janeiro. Não havia diversidade: eram sempre as mesmas fotos de meninas barrigudas, feias e peladas no box de um banheiro de alguma casa de praia. E entre as “modelos”, sempre tinha aquela que, segundo seu amigo, já foi comida por ele. Ou talvez uma amiga dela, porque ele sempre se confundia e apontava outra dizendo que as duas “eram muito parecidas”.

Com o advento da internet rápida pra caralho, qualquer um consegue achar e baixar filmes que vão desde um inocente strip tease incompleto até um vídeo de cinquenta minutos estrelando uma mulher cagando na boca de um cara que está sendo ao mesmo tempo sodomizado por um cavalo. Ou seja, todos esses doentes sexuais aí afora encontram a realização de suas fantasias profanas na grande rede mundial.


O melhor programa de digitação do mundo


E o que dizer dos jogos online?! A internet lenta me fez aprender sobre hardware e software, me fazendo preferir apenas jogos fuleiros, de gráficos asquerosos e que ninguém queria jogar mesmo, mas que eram os únicos que rodavam numa internet de 36,600 kbps. A baixa taxa de transferência da conexão não permitia o uso de programas de comunicação por áudio, então tínhamos que digitar todas as mensagens. Você tem idéia de quanto é difícil mirar a arma laser, digitar “toma essa, seu n00b fela da puta!“, voltar as mãos ao mouse e mandar um tiro na cabeça do n00b fela da puta em questão? Isso exigia uma coordenação motora impressionante. Minha invejável abildade de dijitação – totallmeent perfeita e sem erros ortógráficos, perçeba – veio daquelas noites de partidas intermináveis de Quake num servidor vagabundo da Uol.

A jogatina online nos tempos de internet discada exercitava até mesmo nossos dons premonitórios: por causa do lag, tínhamos que adivinhar onde o inimigo estaria dali a cinco segundos. Então, atirávamos naquele ponto, esperando que nossa previsão fosse correta. Era quase como brincar de queimada com olhos vendados, com a única diferença que você empunhava uma bazuca e seu inimigo não era o vizinho menor, e sim algum miserável nerd americano.

Falando em miseráveis nerds americanos, quem não teve um desses como o primeiro contato no ICQ? Internet ainda não era uma coisa muito popular. Era raro conhecer algum amigo que também acessasse, então você tinha que se virar com seus parcos conhecimentos da língua inglesa pra arrumar amiguinhos virtuais de outros continentes. Isso, além de te dar prática na língua estrangeira, expandia seus horizontes sociais, o colocava em contato com a cultura mundial e um monte de outras coisas bacanas. Já hoje em dia, um chat no MSN contém exatamente as mesmas pessoas que você já vê todo dia na escola.

Esses guris de hoje em dia não sabem porra nenhuma, pois receberam tudo nas mãos. Eles nunca saberão a emoção de ouvir o barulhinho do modem após cinquenta e duas tentativas frustradas de conexão. O mundo gira rápido para eles, que estão montados em conexões Velox de duzencinquenteisseis cabáites. Morreu a internet arte.

Progresso é o caralho. Vou instalar um modem dial up aqui nessa porra. N00bs de Quake, eu voltei!

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)