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Postado em 11 August 2004 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Sem mais delongas, o segundo capítulo da emocionante história das aventuras de Quide no Canadá, brigando com seus vizinhos. O próximo episódio sai depois das eleições.

Devo enfatizar neste ponto o bigode da primeira velha. Não era um bigode feminino como outro qualquer. Esses já são enojantes ao ponto de você enfiar um dedo na goela e pôr o café da manhã pra fora, só de ver. O bigode da velha canadenses era particularmente escroto, porque ele era meio torto, sei lá. Parecia que ela tinha perdido uma briga pro barbeador quando criança e desde então desistiu de remover os pelos. Era uma coisa intimidante e nojenta.

As velhas não deram trégua. A bigoduda perguntou quem tinha deixado o cachorro fora de casa. Ignorando o fato de que ele estava na corrente o tempo inteiro, a outra disse que ele estava “aterrorizando” a vizinhança. Respondi que não sabia, pois estava dormido. Ela, arrogantemente, disse que eu devia “prestar mais atenção no que ocorre na minha casa“.

E sim, meu cachorrinho de uns 4 meses que fica preso com corrente no quintal aterroriza o bairro.

Eu, diplomaticamente, apenas pedia desculpas – por nada – e tentava voltar pra dentro de casa. As velhas não queriam desistir de uma briga assim tão fácil.

– Olha lá, seu cachorro cavou um buraco ali na cerca…

Sim, era verdade. O Bud fez um rombo na grama do quintal, bem pertinho da cerca que separa minha casa da casa do vizinho. Não era culpa minha, obviamente. Cachorros são cachorros e eles cavam buracos, fazer o que? As velhas continuavam papagaiando, a dor de cabeça apertava, o cachorro latia e os mosquitos zumbiam na minha orelha, junto com as velhas.

Olhei pra ela, olhei pra cerca, olhei pra ela de novo, cocei o cotovelo, olhei pra cerca. Fiquei de saco cheio. Enquanto ela reclamava que o proprietário da casa vizinha ficaria muito puto por causa do buraco, perguntei:

– Ô minha senhora, você mora naquela casa?

A velha respirou tão profundamente quanto se alguém tivesse acabado de cair de paraquedas em cima de sua cabeça. A cara dela se desfez na hora. Ela estava tão entretida nas acusações que não se preocupou em arrumar bons argumentos para discutir. Antes que ela pudesse responder, apontei para a cara dela como se estivesse mostrando um imaginário pedaço de comida preso em seu não-imaginário bigode, e mandei o fatídico:

– Se você não é a dona daquela casa, por que se incomoda? Pra quê você vem até a minha casa reclamar de algo que não te diz respeito? Não tenho satisfações a dar a você por causa do buraco. Se o dono da casa vier reclamar, é um problema entre ele e eu, não você.

A vontade real era de mandar ela e o bigode se foderem com força, mas eu ainda tava com um tantinho de paciência e resolvi falar de forma até educada. De nada adiantou meus tratos de gentleman britânico: a mulher ficou PUTA. Começou a falar que eu era rude, que eu devia respeitar os mais velhos e um monte de coisas que velhas bigodudas falam quando seus vizinhos chutam suas bagaças.

Aí ela decidiu abandonar a noção de vez.

– Vou falar com seu pai quando ele chegar de viagem!

A risada que dei em seguida – natural, mas imensamente provocadora – deve tê-la feito entender que eu não me importava o mínimo com aquilo. É provável que meu pai risse da mesma forma, bem na cara dela, se ela fosse reclamar do que eu falei durante a discussão. Conheço o pai que tenho.

A mulher ficou ainda com mais raiva, se isso era possível. E aí a segunda idosa cometeu um deslize fatal.

– Jovenzinho, você está no Canadá agora. Aqui não é o Brasil…

Pisquei trinta vezes, digerindo a frase que ela tinha acabado de pronunciar. Eu não conseguia acreditar que a mulher tinha jogado minha nacionalidade no meio de uma discussão, daquela forma. Ela não foi diretamente ofensiva, mas o tom em que ela falou me pareceu ter uma pontinha de despeito, de desconsideração. Qualé, velhusca? Era hora de mostrar pra essas porras de canadenses de merda com quem eles estão lidando.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)