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Postado em 1 September 2004 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Retomando a trilogia “As Veínha Duzinferno“.

Cenas dos últimos capítulos:

A mulher ficou ainda com mais raiva, se isso era possível. E aí a segunda idosa cometeu um deslize fatal.

– Jovenzinho, você está no Canadá agora. Aqui não é o Brasil…

Pisquei trinta vezes, digerindo a frase que ela tinha acabado de pronunciar. Eu não conseguia acreditar que a mulher tinha jogado minha nacionalidade no meio de uma discussão, daquela forma. Ela não foi diretamente ofensiva, mas o tom em que ela falou me pareceu ter uma pontinha de despeito, de desconsideração. Qualé, velhusca? Era hora de mostrar pra essas porras de canadenses de merda com quem eles estão lidando.”

Lembram? Então.

Eu estava segurando a corrente do cachorro quando essa putaria começou. Decidi que seria a perfeita hora de soltar o negócio no chão e cruzar os braços, com cara de mau. É difícil fazer uma cara de mau convincente quando você tem aparência de um guri de 12 anos, mas eu me esforcei. Larguei a coleira do cachorro, cruzei os braços e mandei um olhar fulminante para a velhoca.

Quase que imediatamente, ela percebeu a merda que tinha falado. Não é uma idéia muito boa usar a nacionalidade de alguém como um argumento numa discussão. Ainda mais quando essa pessoa vem de um país onde traficantes brincam de Banco Imobiliário com a cidade e brigas de namorados são resolvidas com facadas. Você não pode esperar uma boa reação.

Ela estava na minha mão agora. Juntei coragem.

“Excuse me”, eu disse, “what the FUCK did you just say?”

Percebam a especial ênfase dramática no “fuck“, imitando aqueles filmes legais que a gente assiste no cinema. A entonação é tão firme e intimidante que você chega a morder o lábio inferior quando pronuncia o F. O sonzinho que essa manobra provocou realmente intimidou a anciã, que deve ter engolido a própria dentadura nesse instante.

A velha entrou em pânico. Levantou os braços para cima, como um jogador que acabou de derrubar o outro na grande área mas nega o pênalti. Velha féla da puta, eu ouvi o que você disse.

A essa altura do campeonato, a outra velha – a do bigode – já tinha saído sorrateiramente da cena do crime (talvez para aparar as pontas de seu vistoso “mustache“), e assim abandonando sua amiga preconceituosa. Esta, por sua vez, se enrolava toda; não sabia se tentava explicar o que falou, se pedia desculpas, ou se corria desesperada para as colinas. Suas próteses ósseas deviam estar sacudindo-se para fora do lugar. Aproveitando esse momento de indecisão, comecei a pressionar mais.

Now, what the hell does Brazil have to do with this? What are you trying to imply here?

Pronto, a mulher achava que eu ia bater nela. Tenho certeza que depois dessa, ela precisou de outra hemodiálise; sua bexiga de centenas de anos não seria robusta o bastante para aguentar tão fortes emoções. Ela levantou os braços mais uma vez – expondo pálidas pelancas que eu certamente poderia morrer feliz sem ver -, e uma feição de terror se esboçou em seu rosto canadense. Ela começou a caminhar de volta para casa, sem querer se pronunciar sobre o assunto.

E eu finalmente percebi que beleza é fazer parte de uma minoria. Você pode estar completamente errado (o que nem era o caso), mas basta o oponente cometer um deslize imbecil desse, e você automaticamente ganha a confusão. Claro que se você começa a exagerar com isso, aos poucos as pessoas se tornam menos sensíveis aos seus gritos de “Apelou, perdeu!!“. Veja o que acontece hoje em dia com os negros. De tanto eles chamarem de racistas até quem esbarra neles na rua, hoje em dia a sociedade em geral começa a ser menos crédula quanto a esse tipo de acusação.

Eu continuava perguntando o que exatamente ela quis dizer com aquilo. Por um segundo eu pensei que talvez estivesse interpretando-a de forma errada. A forma com que ela se colocou automaticamente na defensiva eliminou minhas dúvidas: ela falou com maldade mesmo, velha desgraçada.

A outra suspeita é que ela não estivesse sendo preconceituosa, mas sim ameaçando. A maioria esmagadora dos imigrantes na América do Norte é ilegal. Talvez ela tenha julgado que essa fosse a minha situação no país. Qualquer um pode denunciar imigrantes ilegais à Imigração, então talvez por isso ela resolveu enfatizar o lugar de onde eu venho, como forma de me lembrar que eu posso voltar pra lá a qualquer instante. Alguns gringos costumam agir assim, como forma de coergir coagir os pobres imigrantes.

Mas a porta bateu na cara dela, pois não sou ilegal aqui.

A velhinha filha da puta recuava lentamente para dentro de casa, resmungando pra si própria. Ela jurou que me delataria ao meu pai mas, após esse vacilo, creio que ela ficou com medo de ser espancada por ele. E eu voltei para casa, pensando em uma vingança.

Que acabou nem acontecendo, muito infelizmente. Acabei me mudando sem ter o gostinho de uma desforra.

Quando contei a história pro meu pai, ele morreu de rir. A partir de então, sempre que ele ia sair com o carro pro trabalho, aguardava ansiosamente o momento em que a velha decidisse ir falar com ele. Batia a porta, colocava a chave no contato e olhava pra casa da mulher, aguardando. Ela nunca veio.

E aposto que agora, a imagem que ela tem dos brasileiros é a pior. Ainda que eu estivesse totalmente errado na confusão, pôr a culpa em todos os brasileiros seria uma generalização imprópria, afinal, ela só conhece um. Mas é assim que a mente desses retardados funciona: se um chinês bateu no seu carro, todos os chineses se tornam maus motoristas (ainda que a culpa do acidente fosse sua). E uso esse exemplo porque uma comparação idêntica aconteceu durante uma conversa com uns moleques aqui, outro dia.

Canadenses preconceituosos de merda.

E o Bud aguarda novas aventuras aqui no Summit Place.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)