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Postado em 19 October 2004 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Como alguns amiguinhos já sabem, eu arrumei um bico pro Halloween. Um amigo meu me indicou pro pessoal do Cullen Gardens, um restaurante temático numa cidade próxima. Durante o período do Halloween, o restaurante contrata uma porrada de moleques pra usar fantasias e assustar as pobres criancinhas que se aventuram pela vila em miniatura que fica aos fundos do imenso restaurante.

Logo de cara, resolvi aceitar. A grana era boa. Mas eu não sabia o que me aguardava.

Sexta feira foi meu primeiro dia. Cheguei no lugar, fui à sala de armários. Meus coleguinhas já estavam lá, colocando suas fantasias. Tinha uma menina (bonitinha, até) trajando uma roupa de diabinha; um outro cara vestido como um esqueleto que brilhava no escuro, e um terceiro moleque usando uma hilária roupa de troll. Fui ao meu armário e descobri uma fantasia de Planeta dos Macaquinhos.



Beleza.

Meia hora após colocar a fantasia, o troll engraçado e eu caminhávamos para as nossas estações. Era incrivelmente difícil andar com os pés de macaco, e ainda por cima vendo o hilário troll na minha frente, com aquela cabeçona e mãos gigantes. O menino caveirinha, que ainda não tinha saído da sala de armário, apressou o passo e rapidamente nos alcançou. Os dois comentavam entre si que eu peguei “o melhor lugar”. Me senti um tanto quanto confortado ao ouvir isso. Os guris me indicaram onde eu ficaria, desejaram boa sorte e se mandaram pela estradinha que dá forma à vila.

Assim que cheguei à estação, olhei em volta pra ver se nenhum guri estava vindo. Após a confirmação, tirei a máscara desesperado e respirei profundamente: aquela porra tinha acabado de me dar claustrofobia. Em breve ela me daria uma suadeira do caralho também, mas eu só ia descobrir isso mais tarde.

Recoloquei a máscara e examinei minha “estação”, como eles chamam. O lugar onde eu ficaria era basicamente um playground modificado, para parecer cabandas de madeira, no meio da floresta. Passei a investigar o lugar. As entradas do playground estavam bloqueadas por tábuas de madeira, certamente para impedir os guris de subirem no lugar. Joguei meu machadinho de plástico pra dentro e, como se a fantasia tivesse me conferido genuinas habilidades macacais, pulei as tábuas com desenvoltura.

E caí de cara do outro lado. Me recompus rapidamente. Uma parte da armadura da minha fantasia quebrou (o protetor da canela esquerda), então deixei-o por ali mesmo. Foda-se.

Repensei minha posição e achei que seria melhor ficar mais próximo da trilha, ao alcance dos transeuntes. Desci e me posicionei ao lado da escada.

E então eu fiquei completamente imóvel, como se fosse parte do cenário. Espalhados pelo playground, havia manequins fantasiados como macacos também. Então o truque era ficar completamente imóvel. O lugar onde eu estava era o mais próximo da trilha, então a galera ia passando, após ver todos os outros, julgava que eu era também um manequim.

É claro que nesse momento eu pulava na frente dele brandindo meu letal machadinho de plástico, fazendo crianças gritarem de pavor. Alguns saiam correndo em disparada, outras voltavam correndo pela trilha escura. Algumas começavam a chorar, e creio que essas ouviam minhas risadas abafadas por trás da máscara de macacaquinho.

O mais curioso é que algumas vezes os pais se assustavam mais que as crianças. Esses vinham perto de mim e falavam “Porra, me pegou ein? Bom trabalho!” e apertavam minha mão, naquela típica cortesia gringa. Aí, como eu já estava sem qualquer resquício da minha notória vergonha (sou tímido pra caralho), começava a dançar em cima da plataforma de madeira. As criancinhas deliravam, me abraçavam, pediam pra ser minhas amiguinhas, e pra tirar fotos comigo e ofereciam doces. Obviamente só me importei com os doces, que foram jogados pra dentro da fantasia (ela não tinha bolsos), para serem coletados mais tarde na sala da staff.

Lá pelas oito horas, quando começou a ficar mais frio, uma garota da equipe veio trazer um chocolate quente pra mim. Ela o colocou em cima da viga de madeira onde eu apoiava minha mão. Só que tinha gente vindo o tempo todo, não ia dar tempo de tirar as luvas e a máscara e beber o negócio. Porra, não dava nem tempo de pegar o troço e esconder. Eu tinha que ficar totalmente parado.

O problema é que o copo fumegante de chocolate quente denunciava-me. Sempre que eu assustava alguém, a pessoa gritava (certamente tentando provar a própria sagacidade, e que não tinha sido realmente assustado): “eu sabia que ele era real, tinha um copo de café do lado dele!“.

Então resolvi ser criativo. Quando alguém se aproximava, eu berrava:

Rwaaaaaaarrrrdon’t drink my chocolatearrrrrrrrrrrrr!!!!

E a galera, após o susto, se cagava de rir. Pra completar, eu começava a dançar a macarena. A criançada pirou.

Em uma certa ocasião, duas meninas – de aparentes 15 anos – pararam na minha frente e começaram um longo debate para definir se eu era real ou não. Uma delas podia jurar que me viu movendo a cabeça, enquanto a outra dizia que estava prestando bastante atenção mas não notou nada. As desgraçadas não passavam, e estavam a uma distância grande demais para eu conseguir assusta-las (o efeito é melhor se a pessoa está perto de você). Aí uma das desgraçadas teve uma idéia brilhante:

“Já sei, vamos jogar pedras nele!”

Ah, maldita. Nesse ponto minha perna já estava doendo e eu precisava mudar a posição do corpo para distribuir o peso para a outra, e meu nariz começou a coçar. Todos vocês sabem que coceira no nariz é um negócio de louco. Mas que se foda: não ia mover nem um milímetro. Essas eu ia pegar de jeito.

Vi quando as meninas se abaixaram pra apanhar pedras. Cerrei os olhos com força e mordi os lábios, me preparando pro ataque. Segundos depois, senti uma pedrinha batendo contra a minha armadura. Abri os olhos. As felas da puta, não satisfeitas, se abaixaram novamente e apanharam um monte de pedras. Segundos depois fui METRALHADO por algumas centenas de milhares de pedregulhos.

Depois do apedrejamento, as meninas decidiram que era seguro passar. Uma delas veio pra perto de mim, de zoação, pra dar tchau.

Pulei na frente dele agitando o machado. A menina caiu pra trás, enquanto a outra saiu correndo em disparada. A que caiu no chão deu um berro agudo, achei que ela ia chorar. Ouvi ao longe a risada da fujona. Decidi ser bonzinho e estendi a mão para ajudar a menina caída. Ela mostrou insegurança, então tirei a máscara. Ela me viu e começou a rir. Me abraçou e, fingindo raiva, me deu um murro de mentirinha no rosto.

No fim da noite, na sala das fantasias, os scarers se reúnem para contar os melhores sustos. E tou por enquanto liderando com a da mulé que quase derrubou a câmera digital*.

*Explico depois.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)