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Postado em 8 November 2004 Escrito por Izzy Nobre 2 Comentários



Primeiro porre a gente nunca esquece.

Sexta feira foi, como todo mundo já sabe, meu feliz aniversário. Lá pelas sete da noite, Andy e seus coleguinhas – a maioria deles estudam comigo – me chamaram pra uma festinha em minha homenagem. Me arrumei e fui à casa do cara, saltitando pelas ruas gélidas canadenses no meu trenchcoat a la Matrix que vocês já devem conhecer.

Ao chegar lá, percebo que quase todos já estão bêbados, e os que ainda estão sóbrios estão trabalhando nisso. Logo de cara, o anfitrião me dá um abraço e estende uma garrafa de vodca em minha direção, desejando um happy birthday.

Como qualquer um que me conhece sabe, eu não bebo. Quer dizer, bebo um pouquinho de nada, praticamente não se leva em consideração. Não gosto do sabor de álcool, sou um maricas mesmo. Mas o Andy, que já tinha a voz pastosa àquela altura, fez um desafio que me deixou pensativo.

“Porra, Izzy. Tu já tem vinte anos nos coro e nunca ficou bêbado? Manucu, rapaz. Vira essa porra!”

Minha indecisão deve ter sido transparente, porque ele então mudou o teor do discurso, tentando ser mais convincente.

“Vamulá, eu viro uma, e você vira uma, beleza?”

Pensei com meus botões e decidi que não poderia ser tãããão ruim. Andy virou a garrafa, tomando um gole profundo. Tive medo que ele exigisse que eu imitasse o seu gesto, ingerindo aquela mesma quantidade da bebida. Bah, foda-se. Mandei tudo às favas, tomei a garrafa da mão dele e entornei-a na boca, despejando o conteúdo ardente na minha garganta.

A sensação foi similar a beber perfume. A aquela porra queimou minha garganta, então lembrei das instruções da patroa (que não estava presente, mas que já tinha me dado aulas sobre bebedeira): “se queimar, engole duma vez!

Foi o que fiz. Evitando ao máximo encostar a língua na bebida alojada nas minhas bochechas, inclinei a cabeça pra trás e deixei o líquido fluir. Devo ter feito de alguma forma atrapalhada, porque um pouco da vodca saiu pela minha boca e molhou meu cavanhaque. A geral deu um berro, enlouquecida. Só de lembrar do gosto daquele negócio, me dá vontade de vomitar.

Fui sentar na cama do cara, onde me aguardavam a Jess (irmã do meu guitarrista) e a Katie (a famosa diabinha). Ambas me abraçaram e me deram um selinho, algo que achei bastante convidativo. Talvez elas estavam calorosas assim porque era meu aniversário, e vai ver que há uma regra não-escrita que diz que meninas devem liberar pra aniversariantes, ou algo assim. O clima de libertinagem era contagiante. Foi impossível não pensar “porra, já pensou se eu fico bêbado e acabo fazendo merda com essas meninas aqui?” Tentei espantar tais pensamentos da mente, afinal, apesar de ser um bom brasileiro safado e chegado à uma boa putaria, tenho uma namorada e gosto pra caralho dela.

Mal sabia eu que meus medos se concretizariam muito em breve.

A bebida não tinha feito o menor efeito. Eu ainda conseguia pensar e conversar normalmente, mesmo após três, quatro, cinco goles da vodca. Apesar do gosto de perfume na boca, eu não estava sendo alterado pela bebida.

Mas também não conseguia mais beber de jeito nenhum. Nas vezes seguintes em que a garrafa foi oferecida a mim, virei-a, mas sem engolir uma gota sequer, fingindo que estava bebendo. Eu pensei que o Andy bêbado não notaria a diferença, mas me enganei bonitamente: se há algo em que um bêbado presta atenção, é o nível da bebida na garrafa. E ao não perceber variação nele, mesmo após eu tomar dois ou três goles, ele percebeu que o negócio não ia descer mais. Então, trouxe uma caixa de suco de laranja da geladeira.

Ele encheu um copo até a metade com vodca, e completou o resto do suco de fruta. Em seguida, estendeu o copo pra mim e falou, rindo como um bobo, que se eu não tomasse, ia espalhar pra todo mundo que eu era viado. A voz dele já estava completamente mudada, era um pouco difícil acompanhar o que ele dizia. Não querendo desapontar meu anfitrião, tentei beber a mistura.

Sem chance. O negócio tava concentrado demais. Então, a cada pequeno gole que eu tomava, completava o espaço deixado no copo com mais suco. E repeti o procedimento, até que a concentração de álcool no drink ficasse aceitável. Eu já não sentia a queimação inicial; talvez por que o teor alcoólico já era baixo demais, ou talvez porque eu já estava acostumado com a sensação.

Todos em minha volta já estavam completamente caídos, com exceção do Andy, da Katie e eu mesmo. Apesar de já ter bebido uma grande quantidade de vodca (e lembrando que eu não bebo nem cerveja, ou seja, não tenho a menor resistência contra bebida), ainda conseguia pensar e falar coerentemente. Ou ao menos eu achava que sim.

O mesmo não podia se dizer dos meus colegas. A grande maioria dos convidados estava ou caídos no chão, ou no sofá, ou na cama. Andy, ainda acordado, tentava colocar um DVD do Marilyn Manson (com caixa e tudo) dentro de um videocassete, enquanto a Katie sugeria que caminhássemos até o MrSub, lanchonete onde minha patroa trabalha, pra visita-la. Aceitei, e deixamos os bebuns pra trás.

Na metade do caminho, percebi que eu estava cambaleando e tropeçando sem o menor motivo. E sei lá por que razão, aquilo parecia engraçado. A Katie ria, e eu ria. Um se apoiava no outro, caminhando meio que sem rumo na avenida Taunton.

Não lembro quem começou, se fui eu ou ela. Tenho impressão que foi ela, mas não posso afirmar com certeza. Quer dizer, se alguém algum dia descobrir, essa será a desculpa: ela começou.

Só lembro que, do nada, nós dois estávamos nos atracando nervosamente num beco escuro no meio do caminho. E o pior: ela é justamente a menina de quem o Andy gosta.

Vou pro inferno mesmo.

E tudo parecia engraçado, então eu continuava rindo. Minhas risadas eram abafadas pela boca dela, que também começou a rir. Então sobreveio-me uma vontade irresistível de mijar, e por muito pouco não mijo em cima da minha companheira inebriada. Quando voltei pra perto dela, tive a impressão de estar crescendo – por um instante, eu parecia mais alto do que era. E a Katie, cada vez menor. E isso também era engraçado.

Essa sensação se repetiu depois que cheguei em casa, horas depois, e vim pro computador. Nerd bêbado é foda, ao invés de dormir como os bêbados normais, vai checar e-mail. Sentado na cadeira, eu conseguia até mesmo VER o monitor, a mesa, o teclado e tudo a minha volta ficar mais baixo, enquanto eu crescia. E quanto mais alto eu ficava, menos capacidade de manter o equilíbrio eu tinha.

Sempre conversei com amigos – supostamente – bêbados no MSN, mas não foi o caso. Não tive vontade de conversar com ninguém, só vim pro computador. Não lembro nem quem tava online. Fiquei na frente do PC por uns três minutos, sem saber o que fazer. Então abri Paciência e comecei a jogar com o dedo.

(Sim, eu tenho um monitor touchscreen, morram de inveja.)

Mas as coisas não pareciam mais tão engraçadas quando eu estava sozinho. O jogo ficou tedioso, então fechei o programa e fui pra cozinha comer Ruffles. No meio do caminho senti vontade de mijar pela milésima vez. É senso comum que álcool causa efeitos curiosos no sistema urinário, mas eu não sabia que essa reação acontecia tão rápido. Achei que demorasse algumas horas, sei lá. Sou um cabacinho de bebidas mesmo.

Acordei na manhã seguinte sentindo um horrível mal estar, aliado a uma irresistível vontade de vomitar, ainda mijando pra caralho e curioso pra saber como deve ser ficar bêbado MESMO – do tipo que se mija ainda com as calças ao redor da cintura, cai no chão e dorme com a cara em cima de um pedaço de pizza.

Falta muito pra eu chegar lá. Pelo menos não fiquei com dor de cabeça.

Lições aprendidas:

– Vodca é ruim, mesmo misturada com suco de laranja;

– Ficar bêbado é engraçado pra caralho;

– Não conte pra sua mãe que você ficou bêbado, mesmo que tenha sido a dois dias atrás e que você deixe claro que não fará isso de novo;

– Quando for vomitar no outro dia, não se apóie nas beiras da privada. Caso faça isso, limpe o vômito da mão depois.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

2 Comentários \o/

  1. Pedro Ivo says:

    Então, tu meio que traiu a Bebba? O.O