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Postado em 14 November 2004 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários



Como alguns sabem, estou estudando agora. Na verdade já faz quase 3 semanas, mas a preguiça não tava me deixando escrever. Tou numa escola especial, pra pegar o certificado do – equivalente ao – segundo grau.

Fazia muito tempo que eu não estudava. Moro aqui há onze meses, mas não estudo faz uns cinco ou seis anos. Claro, eu frequentava uma faculdade federal e estava matriculado no CEFET do estado onde morava, mas daí a estudar é um salto muito grande. Salto esse que, por sinal, a preguiça não me permitiu dar.


Primeiro dia de aula, o entusiasmo é contagiante


A escola é dividida basicamente em três grupos. O grupo A é composto por skinheads, que tradicionalmente odeiam pretos* e estrangeiros. Já o grupo B é formado por negões de 2 metros metidos a rappers, que odeiam brancos e roqueiros. Há inclusive um integrante deste grupo lendo meu palm nesse momento, por cima do meu ombro. Se manda, porra. Sim, é você mesmo, pare de ler meu texto.

E o grupo C é composto por mim, que não sou branco o bastante para ser aceito pelos neonazistas, nem bronzeado o bastante pra receber aprovação dos rappers. E a cor da minha pele não é o único problema. Meu gosto musical me põe como inimigo dos rappers, enquanto minha nacionalidade não me torna querido entre os neo-nazistas.

Brasileiro sofre, vou te contar.

Mas, por algum motivo que desconheço, os skinheads gostaram de mim. Todo dia, nos intervalos, me junto a eles no pátio da escola. Chris (um tatuador que sempre usa as mesmas calças camufladas, os mesmos suspensórios e o mesmo gorro com uma suástica bordada) é o contador de piadas preconceituosas oficial. Todo dia ele aparece com uma maldosa anedota diferente sobre negros, mexicanos, negros mexicanos, cubanos, e por aí vai. Aí todos riem, se viram pra mim e dizem “Yeah, but, yo, Brazil is alright, dude. Carnaval, Ronaldinho, Max Cavaleira, beaches, bitches, yeah!” e todos concordam enfaticamente. A propósito, dois dos skinheads são fãs de Angra e Sepultura.

As aulas são divertidíssimas. E, como eu já havia previsto, tive problemas nas aulas de matemática. Numa atividade sobre porcentagens e juros, simplifiquei todos os cálculos com a nossa famosa regrinha de três – que praticamente pulava direto pra resposta dos problemas, de tão simples que eram. A professora me deu meio ponto pelas atividades e disse que da próxima vez quer ver mais do que apenas os resultados. Deu vontade de enfiar o caderno na garganta dela.


Escrevendo este post


A propósito, esse foi o primeiro post totalmente escrito no Palm, na escola – exceto, claro, pela adição das imagens. Se eu já não estudava antes, imagina só agora.

Mas é bom ter algo pra fazer. Eu já tava cansado de passar o dia inteiro na frente do PC, tendo que lidar com vocês e tal. É bom chegar em casa sabendo que tem alguma atividade pra fazer, algo útil pra terminar. Não que eu faça as atividades que eles passam; chego em casa, jogo a mochila no sofá do meu quarto e venho pro PC. Mas é bom ter algo pra fazer.

Logo no primeiro dia de aula, escaneei a sala e me apresentei pros que aparentaram ser mais amigáveis. A desculpa da nacionalidade é ótima pra puxar assunto. O professor falava uma coisa, eu virava pra menina do lado – não me sento perto de macho – e, dando uma de desentendido, perguntava “o que diabos ele falou?“. A menina, pacientemente, repetia o que o professor falou. Aí eu dava o bote:

– Se você não entender o que eu falo, tenha paciência. Meu inglês ainda não é muito bom…

E forçando no sotaque latino, pra deixar a estratégia ainda mais infalível. De dez em dez tentativas, a reação foi a mesma: um sorriso surpreso, acompanhado pela pergunta:

– Nossa, é mesmo? você é de onde?

Xeque-mate.

– Sou brasileiro.

Pronto. A calcinha da menina já estava molhada a essa altura. Brasileiros têm uma fama FENOMENAL no exterior, vocês não fazem idéia. Volta e meia essas revistinhas femininas fazem a repetitiva enquete “qual o país mais sexy do mundo“, e o resultado é invaríavel: somos nós. E minhas coleguinhas de sala obviamente lêem tais revistinhas, pra minha sorte.

E nego ainda acha ruim quando digo que sou do País da Putaria.

E isso resume as duas primeiras semanas de aula. Vejamos o que o futuro trará.

*Antes que alguém corra pros comentários pra me chamar de “racista”, explico: a palavra “negro”, em inglês, é considerada EXTREMAMENTE racista. No momento em que escrevi este post, uns quatro malucos negros se revezavam, perto de mim, observando o que eu escrevia. Em nome da minha integridade física, achei melhor omitir o termo pseudo-racista.

E vai se foder, “preto” é uma cor e nada mais. Palavras têm o sentido que damos para elas, e se você quer atrelar um significado negativo à palavra “preto”, quem está sendo realmente racista aqui?

“Negro” é apenas um eufemismo medroso que nunca é utilizado em outros casos. Quando foi a última vez que você usou uma blusa negra, ou foi atropelado por um carro negro? Não me façam escrever outro post sobre pseudo-racismo.

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About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)