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Postado em 9 December 2004 Escrito por Izzy Nobre 2 Comentários


“Assuncê beba esse sangue misturado com a cachaça e vá jogar bola de gude numa encruzilhada, que Exú vai foder bonitamente com mizifi Quide!”

Meu Deus, jogaram uma macumba em mim. Macumba pesada.

Ter dias ruins é algo normal para todos os seres humanos, mas quando muita coisa ruim acontece DE UMA VEZ, você começa a se perguntar a si mesmo: será que caguei na cruz em uma vida passada? Existem dias ruins, dias horríveis, dias catastróficos, dias em que ônibus espaciais explodem segundos após a decolagem, dias em que jogam bombas atômicas em cidades japonesas e dias como o que passei hoje.

O dia de hoje foi uma série sensacional de eventos desastrosos. A sequência foi tão homogênea e constante que quem a ouvir poderá pensar que estou inventando-a. Infelizmente não tenho essa sorte ou criatividade. Os fatos relatados neste post vieram a ocorrer no dia de hoje, na gélida cidade de Oshawa, no Canadá. Se algo de ruim aconteceu com você hoje, leia esse post com carinho e pense “caralho, ainda bem que não sou o Quide!”

Comecemos do começo.

Como fui dormir tarde na noite anterior, acordei em cima da hora pra escola. Hoje era um dia importante: Como estamos no final da sessão, era dia de provas finais. Perder aula no dia de hoje seria impensável.

Esfreguei os olhos ainda remelentos e noto um insuportável cheiro de merda no ar. Bud, o cachorro enviado por Belzebu para atormentar os canadenses, devia ter dado uma aliviada pelas redondezas. Injuriado por saber que não teria tempo pra limpar a sujeira, pulo da cama pra me arrumar. Qual não foi minha surpresa ao perceber que o chão estava mais macio que de costume.

A merda canina fresquinha foi comprimida contra o chão pelo meu peso. Parte da massa fecal escapou pelos lados do meu pé e por entre os dedos, fazendo um “squish”.

O sangue ferveu imediatamente. Pisar em merda recém cagada usando sapatos já é uma situação desagradável, de pés descalços então é simplesmente repulsivo. Tive a impressão que consegui até sentir as larvas caninas se movendo abaixo dos meus pés. Eu cortaria meu pé, mas eu não tinha tempo para apreciar a calamitosa situação e amaldiçoar a falta de sorte; eu estava atrasado pra aula.

Uma coisa que eu sabia teoricamente é que merda é um redutor de atrito. Ao deslizar na camada de merda que havia sob meu pé, cair de costas – sem camisa – em cima do tolete recém pisoteado e bater a cabeça na quina da cama, tive certeza.

Preguejando contra a criação divina, corri pro banheiro. Me lavei mais ou menos, sai pulando do chuveiro pelado pra me arrumar. O tempo corria contra mim, e a merda estava apenas me atrapalhando.

Na saída do banheiro e com os pés molhados, escorreguei mais uma vez. Não cheguei a ir ao chão, mas no desespero de buscar um apoio, meti a mão esquerda na parede. Meus dedos estão doendo até agora.

Vesti-me de qualquer jeito… aliás, não me vesti: joguei roupas no corpo. Minha indefectível camiseta do Slipknot estava (aliás, ainda está) pelo avesso. Feito isso, sai correndo. Ao chegar no térreo, lembrei que não havia trancado a porta do apartamento. A essa altura meus óculos já estavam embaçando de raiva; parecia que o próprio destino queria impedir minha ida à escola, e para tanto apelando até mesmo pra funções biológicas caninas.

Corri para a parada de ônibus, apenas para ver o Central Park #5, o ônibus que eu deveria pegar, saindo. Bufando inconformado e sabendo que o próximo só passaria em meia hora, decido entrar no primeiro ônibus que aparecesse e transferir para qualquer outro que passasse próximo à escola.

Entro num Ritson, cujo motorista garantiu que me levaria até a parada do Rossland. Este último me levaria até a escola.

O problema do plano é que eu não sabia onde era a avenida Rossland, e então pedi ao motorista que me avisasse quando chegássemos lá. Acontece que o filho da puta, distraído conversando com um passageiro, acabou esquecendo de me avisar. E só foi me falar pra descer TRÊS PARADAS após a tal avenida.

Lá vai o Kid descer da porra do coletivo e caminhar, embaixo de neve, até a Rossland. E adivinhou quem previu que o ônibus estava saindo logo em seguida. Os horários de ônibus aqui são todos metodicamente programados; um ônibus sempre passa minutos após o anterior. Se eu tivesse saltado na parada certa, estaria a caminho da escola. Deus, seu filho da puta, da próxima vez venha sozinho ao invés de mandar merda de cachorro e motoristas imbecis.

Então eu estava na parada, embaixo de neve, semi-coberto de merda de cachorro – o banho de cinco minutos não resolveu o problema do cheiro – , e esperando o próximo ônibus. Eu quero dizer, meu dia já tinha sido muito divertido até então, mas nada como esperar QUARENTA E CINCO MINUTOS EMBAIXO DE NEVE E VENTO A DOZE GRAUS CENTÍGRADOS NEGATIVOS. Em um momento tive a impressão que minha orelha tinha congelado e caído, mas estava com medo de tirar as mãos dos bolsos pra verificar e perder os dedos também.

Finalmente o ônibus chegou. A essa altura do campeonato eu já havia perdido a primeira prova, a de Healthcare. Foda-se, pensei, ao menos chego a tempo de entregar os summatives (trabalhos que valem a nota final) das outras matérias. Que eu, como bom brasileiro, tinha terminado na última hora, e imprimido na noite anterior.

Subi no ônibus (leia ao contrário e essa frase continuará a mesma ). Ao puxar a carteira do bolso, eu CONSEGUI a proeza de derruba-la. Segurei pela corrente, mas a carteira abriu-se e minha única cédula, uma de cinco dólares, voou pra fora do coletivo.

Eu já não conseguia mais acreditar. Paguei a porra da passagem e fui sentar no fundão do ônibus.

Mas veja só você como o Quide é sortudo: justo hoje, JUSTO HOJE, o itinerário do Rossland mudou. Ele não vai mais pro Oshawa Centre (não é erro de digitação, “centre” é “center” em inglês canadense). Tive que descer em outra parada e pagar um terceiro ônibus, o Stevenson, que felizmente menos desgraçadamente me levou à escola sem maiores sobressaltos.

Conforme eu já havia predito, a prova de Healthcare já tinha sido aplicada. Tomei um belo zero. Sem muito o que poder fazer, dirigi-me as próxima aula, World History e Man and Society.

Não haveria aula hoje, deveríamos apenas entregar os summatives. O professor chega à minha cadeira com a prancheta, anotando nomes dos alunos que entregaram os trabalhos. Meto a mão na mochila, mas ela volta vazia.

Os trabalhos estavam na minha impressora, no apartamento.

Não houve conversa. O professor marcou mais dois sensacionais zeros no meu currículo, um pra cada summative que eu me omiti de entregar.

A frustração tomou conta de cada centímetro do meu ser. Porra, fazer trabalho já é uma encheção de saco, e eu os fiz pra nada?

Na hora do almoço, derrubei as três fatias de pizza que comprei no refeitório, quando tropecei no cabo do fone de ouvido do mp3 que insiste em ficar preso embaixo do meu joelho. O aparelho saltou pra fora do bolso, e ao atingir o chão, cospiu o SD card recém comprado a quase três metros de distância. Felizmente não precisei cometer suicídio ali mesmo, pois o aparelho ainda funciona (ou pelo menos tá funcionando até agora).

Quase chorando, me dirigi para a última aula do dia, Business and Life Administration (a.k.a. “Everyday Math”). O summative estava na minha mochila, mas apenas parcialmente terminado. A professora deu-nos uma hora para termina-lo.

Eu já estava imaginando que algum infortúnio aconteceria. Sei lá, do jeito que o dia estava se desdobrando, eu não me surpreenderia se uma rajada de vento jogasse meu trabalho pela janela e eu, na ânsia de capturá-lo, acabaria sendo atropelado no meio da rua por um snowplow – os caminhões que “varrem” a neve da rua.

Mas nada aconteceu. Com ajuda do meu celular, terminei todos os cálculos do negócio. Entreguei o trabalho à professora, recolhi minhas tralhas e me dirigi à saída, colocando o celular no bolso.

Ou eu achava que tinha colocado no bolso. Meia hora depois, eu estava de volta à sala, procurando o celular desesperadamente. Ele simplesmente sumiu. Claro, eu só fui perceber disso quando já tinha caminhado até a parada de ônibus, e perdido o primeiro coletivo.

Na sala do Andy Darkis, o diretor da escola, eu estava inconsolável. Ligaram para o celular, mas o troço apenas chamava por duas vezes e então dava sinal de ocupado – o que poderia significar que alguém estava usando-o. Voltei pra casa destruído moralmente, com três zeros no currículo. com resquícios de merda de cachorro nas costas e sem celular. Era meu último dia de aula (o período acaba antes do Holiday Break e volta em janeiro), minha sorte resolveu tirar férias antes.

O que é melhor, eu deixo pra perder meu celular logo no último dia de aula, quando os vagabundos da escola saem pelos portões pela última vez pra nunca mais voltar (e levando meu aparelho telefônico).

Mas não foi de todo ruim. Ao menos roubei um exemplar de Senhor dos Anéis da biblioteca da escola.

Quem de vocês filhos da puta jogou essa macumba braba?

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comments

Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

2 Comentários \o/

  1. Gabriel P. says:

    Haha! Merece uma repostagem, Quide!

  2. Pedro Ivo says:

    Nesse dia, o Izzy se fodeu, com força.