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Postado em 2 January 2005 Escrito por Izzy Nobre 2 Comentários

Outro dia no supermercado uma mulher viu meu broche com a indefectível bandeirinha brasileira (presente da Maya) e começou a puxar conversa.

– Porra, que tragédia aconteceu lá no seu país, né? Esse negócio de maremoto…

– O maremoto foi na Ásia.

– Hmm… O Brasil não é na Ásia, não?

(…)

Na ocasião, eu mal sabia o que tinha acontecido. Quando cheguei em casa, fui pesquisar um pouco melhor sobre o acontecido.

Até o momento, a contagem já passou os cem mil mortos. A Organização Mundial de Saúde espera algo em torno de 150 mil mortos, em decorrência a epidemias que podem acontecer por causa da contaminação da água.

Eu sinceramente não consigo entender que existem pessoas que acreditam que existe um Deus bondoso lá em cima. Se há alguém super poderoso controlando este universo, na melhor das hipóteses ele simplesmente não quis ajudar a humanidade, e na pior, é ele quem está mandando essas coisas aqui pra baixo.

Na boa, quando é que cairá a ficha de que estamos por conta própria aqui no andar de baixo? Pendurem seus rosários, fechem suas bíblias. Deus está de férias.

Acho engraçado quando, falando com minha mãe, ela diz “vou orar pra que dê certo”. Aos que não sabem, minha família tinha pesado background religioso. Meu pai era pastor de uma Assembléia de Deus; minha mãe tocava guitarra no “ministério de louvor”, que é o nome bonitinho que evangélicos dão pra bandinha da igreja.

Desde criança, nunca entendi a lógica por trás de uma oração. Se Deus achar que você precisa/merece alguma coisa, ele dará sem que você precise pedir (como uma cura milagrosa, ou uma promoção no trabalho). Logo, não é sua oração que dará a “benção”.

Caso contrário, se ele não achar que você merece, pra quê gastar tempo orando? Segundo a bíblia, Deus não muda de idéia – embora essa mesma bíblia mostre em várias ocasiões Deus voltando atrás em certas decisões.

Logo, se ele não quer te dar algo, orar não adianta coisíssima nenhuma. Se você vai ganhar, você vai ganhar. Se não vai, não vai. E acabou. Não tem essa de “eu orei/jejuei/fiz promessa e Deus me deu“, afinal, é a vontade dEle que sempre prevalece. Se a vontade dEle já era te dar a “benção”, você perdeu tempo orando/jejuando/fazendo promessas à toa.

Até porque, se Deus te ajuda, ele está apenas provando que é um filho da puta injusto.

É uma lógica simplíssima. O mundo, como todos sabemos, está solto na putaria maluca. Deus, o chefão, por algum motivo não se manifesta. Os evangélicos têm mil e uma desculpinhas na ponta da língua pra explicar porque Deus não se move e ajuda pessoas necessitadas. Se você perguntar ao mms, ele te dará uma respostinha mais ou menos que, na cabeça dele, justifica o motivo pelo qual Deus deixa uma criança de cinco anos ser estuprada por um pedófilo, ou uma mulher grávida ser atropelada ao atravessar uma avenida. Mas se a dona Fátima, que participa dos cultos na igreja dele, for à frente contar o testemunho de como Deus curou sua hemorróidas, mms levantará a bunda da cadeira, com as mãos ao alto, dizendo “Glória a Deus, aleluia!

Isso é o que eu não entendo. Quando uma merda muito grande acontece, todos cruzam os braços atrás das costas e assobiam. Se algo bom acontece, “foi Deus”. Mas pera: você acabou de me explicar que Deus não se manifesta no mundo – por quaquer motivo que seja – e por isso o mundo é uma desgraça. Quer dizer que pra curar a unha encravada do seu tio, ou ajudar seu primo burro a passar no vestibular, Jeová resolve mexer seus pauzinhos cósmicos?

Acordem, caralho.

Eu não planejava voltar ao assunto de religião tão cedo. Acontece que, lendo a matéria no UOL notícias sobre a tragédia na Ásia, certas coisas não passaram despercebidas.

“Até agora, o paulista não sabe como conseguiu sobreviver à força da onda. Ele disse que se protegeu num muro e que contou com a ajuda de uma árvore.

“Essa água veio e me arrancou dessa parede. Eu quase me afoguei umas três, quatro vezes tentando nadar. Fui batendo em tudo, rolando. Nadei contra essa força toda, não sei como, foi coisa de Deus. Eu consegui me segurar numa árvore, subi e fiquei lá em cima até tudo se acalmar”.

O amigo dele contou que estava dentro de uma loja quando a onda gigante apareceu.

“Eu tentava nadar para fora da loja e o carro estacionado em frente à loja fechou a porta. Eu passei por baixo do carro e tentei nadar contra a correnteza e várias pessoas tentavam agarrar o meu pé. Aí eu vi umas grades que os tailandeses usam para pendurar roupa. Me segurei numa delas, mas a força da água a arrancou da parede. Eu grudei em uma e consegui escalar a parede e fiquei parado lá em cima da construção, porque eu não sabia o que estava acontecendo. Estava tudo caindo, tudo destruindo. Por Deus, ficou só o meu telhado de pé. Fui um abençoado“.

Novamente, eu fico surpreso com a maneira que as pessoas parecem QUERER acreditar que Deus existem, ou que são favoritinhas dele.

Em nenhum momento este ignóbil – que merecia muito bem ter morrido, pra deixar de ser vacilão – parou pra pensar que, se há mesmo um Deus, Ele poderia muito bem ter “abençoado” todas aquelas pessoas. Ou que, quem sabe, poderia ter até evitado a tragédia toda. Afinal, Deus pode tudo.

Mas não. Numa desgraça de nível INTERNACIONAL, o cara pega um fator minúsculo (a própria sobrevivência) e atribui-a à predileção que um ser superior tem por sua pessoa. Ele, entre vinte mil infelizes, foi o mais digno de ser salvo. Deus deixou crianças órfãs e pais chorando a dor da perda de seus filhos, mas tinha que mexer o dedinho pra salvar o paulista riquinho que tava passando férias num paraíso tropical.

Pior que, assim como em outras circunstâncias, a pessoa pega algo que foi puramente mérito próprio e atribui a um Criador Maluco. Deus te ajudou, ou você simplesmente estudou e passou no vestibular? Deus te ajudou, ou o remédio que o médico receitou funcionou como previsto? Deus te ajudou, ou você apenas deu um pouco de sorte, e conseguiu resistir à força da água?

Sinceramente, antes esse jumento tivesse morrido. Um imbecil a menos não faz falta; ainda mais um que pensa que é um favoritinho de uma Força Transcendental.

E esse maluco não é um caso isolado. Nove entre dez sobreviventes atribuem sua sorte a Jeová, e isso é apenas porque o décimo deslocou a mandíbula e não pôde dar declarações.

Acordem, seus merdas. Ou, da próxima vez, não corram nem nadem – fiquem aí esperando pela salvação divina, enquanto aqueles que não nasceram com retardamento mental correm desesperados.

E nas próximas férias, fiquem no Brasil mesmo. É certamente uma desgraça de país, mas ao menos nossos conterrâneos morrem apenas por balas perdidas e desvio de dinheiro que impede o hospital público de prestar um bom atendimento. E, no caso de uma enchente, os favelados precisam apenas se mudar de uma caixa de papelão pra outra.

O mais legal é que, se houvesse um maremoto no Brasil, não haveria muito pra ser destruído. Seria um desperdício de tragédia que poderia muito bem detonar argentinos, por exemplo.

Mas a água limparia boa parte da sujeira que vocês, brasileiros porcos do caralho, produzem ao jogar latinhas de refrigerante e casquinhas de sorvete parcialmente comidas pela janela do carro. A ajuda internacional seria mais produtiva que o Fome Zero (se bem que Fome Zero não é padrão de comparação pra nada). A construção do país – não digo “reconstrução” porque isso implica em dizer que havia algo lá antes pra ser destruído – seria custeada por países ricos e de bom coração e, com alguma sorte, pelo menos metade dos cristãos morreriam (afinal, é só o que tem nesse país).

Deus, se você existe, por favor mande um maremoto pro Brasil. Prometo que dou um pulinho lá durante a ocasião só pra você pensar que me pegou.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

2 Comentários \o/

  1. Pedro Ivo says:

    PUTAQUEPARIU, meu ponto de vista sobre religião é o mesmo!

  2. Vinícius Martarello says:

    Nossa Kid esse seu texto me fez refletir muito sobre a existência de deus, estou acreditando cada vez menos nele, quero ver na hora de dizer isso pra minha família