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Postado em 24 January 2005 Escrito por Izzy Nobre 3 Comentários


Eu os vi, vocês não


Sim, sim, sim: o show do Slipknot.

Antes, explicarei de forma resumida o acontecimento que me roubou o uso do computador durante uma semana que me serviu pra tomar consciência de o quão chata minha vida é sem essa maldita internerd. A despeito de todas as atividades que eu adotei para matar o tempo (piscina, leitura, academia, sexo), a crise de abstinência digital era de revirar o intestino. Fui pego mastigando o cabo da internet, numa lastimável tentativa de saciar a necessidade de logar na rede mundial de computadores pra discutir em fóruns.

Eram três horas da tarde. O show, se não me falha a memória, abria às cinco. Acontece que o público aguardado estava quase batendo na casa da dezena de milhar, e o local não era lá tão grande. Portanto, era imperativo que saíssemos de casa com uma certa urgência, evitando aquele comum porém desgradável pisoteamento na porta de entrada.

O combinado seria que meu pai me levaria à casa de Bruno, meu ex-baterista, e que iríamos ao show com ele. O problema é que eu tinha dado um pulinho rápido no apê da patroa, e quando voltei aqui pra casa, meu pai tinha sumido. Meu PC não queria funcionar de maneira alguma, e trancado nele – num arquivinho .txt no desktop – estavam os números telefônicos de Bruno e de todas as outras pessoas que poderiam me ajudar localizar esse filho duma puta rampeira. Além disso, leva uma hora pra chegar a Toronto, e o show era numa cidade-satélite ainda mais distante, Mississauga. Assim sendo, independente da situação, àquelas três horas eu já deveria estar saindo de casa rumo ao Arrow Hall. Com sorte, eu estaria chegando lá um pouco antes das portas abrirem. Obviamente, a fila já estaria monstruosa e eu estaria consequentemente fodido, e muito bonitamente por sinal.

Quem me conhece sabe que tenho pavio curto e um problema sério de ansiedade. Andando de um lado pro outro com o telefone na mão e sem saber como localizar meu pai – que teve o celular roubado durante sua estadia no Brasil, olha que beleza -, ou Bruno, ou ao menos como chegar à casa dele, a raiva e impaciência escalaram.

A raiva movida pela impotência diante da situação veio à superfície. Então, sem mais essa nem aquela, tensionei o corpo e liberei a raiva na forma de um chute no meio da parede do quarto do meu pai.

Qual não foi minha surpresa ao literalmente cair dentro da parede. Aparentemente as paredes canadenses não dispõem do aparato estrutural e/ou tecnológico (conhecido popularmente no Brasil como “cimento”) necessário para suportar chutes nervosos. Gesso não é exatamente diamante, então o mero peso do meu corpo franzino foi suficiente pra abrir um formidável rombo na parede. A inércia fez o resto do trabalho, depositando metade do meu corpo dentro do buraco, e a outra metade (a cintura pra baixo) apontada para o ar.

Alguns segundos se passaram naquela posição constrangedora. Cansado de ficar cara a cara com fragmentos de gesso e com as pernas no ar, içei-me (tá certo isso? “Icei” me parece estranho…) pra fora do buraco e contemplei a cagada que eu joguei em cima da já complicada situação. Resumo da ópera: meu pai viu o buraco, ficou muito puto e confiscou meu PC.

No fim das contas, acabei resolvendo os problemas logísticos envolvendo nossa ida ao concerto. Meu pai nos levou até o Arrow Hall, em Mississauga. Ele nos deixou lá na fila e se mandou.

A fila era um espetáculo à parte. Medindo pelo menos 50 pessoas de cumprimento e umas OITOCENTAS de largura, ela desafiava minha percepção da realidade. Só então entendi que a fila estava dando voltas e voltas, como várias letras S umas coladas nas outras com superbonder ou sua versão genérica, cuspe. Eu e a patroa nos dirigimos ao finalzinho daqueles S’s humanos.

O show já havia começado. Aquela fila era composta por pessoas que também se atrasaram e estavam portanto perdendo a abertura da apresentação. Enquanto me perguntava qual o tamanho dos buracos que aqueles indivíduos abriram em suas paredes, escaneei a turba. Punks, metalheads, skatistas, patricinhas, gente normal, estavam todos lá provando que Jesus só não agradou todos porque ele não aprendeu nada com o Slipknot.

Além de seu tamanho titânico, outra característica marcante da fila é sua capacidade inigualável de não mover-se nenhum centímetro sequer durante pelo menos meia hora, a despeito do fato de que as portas do Arrow Hall já estavam abertas e de que os fãs mais violentos já ameaçavam matar um de seus amigos se a fila não começasse a se mexer. A fila, indiferente a esses fatores que em qualquer outra situação significariam imediata movimentação ou ao menos a chamada de policiais, permaneceu estática.

De repente, aconteceu. Foi tão subito que fui pego totalmente de surpresa. Achei que iria cair. Minha mão, que estava distraida(porém prestativa)mente cocando minha bunda, voou de encontro aos apoios de metal que organizavam a fila, buscando evitar o iminente encontro do meu rabo com o asfalto gelado. Pessoas gritaram, cairam, peidaram, perderam carteiras. Tão repentina como havia comecado, a estonteante velocidade de dois passos por hora em que a fila se moveu cessou. Estavamos agora 60 centímetros mais perto de Corey Taylor e sua trupe, que é dividida entre dois grupos distintos, os Músicos Talentosos (Mick e Joey) e os Não Músicos e Menos Talentosos Ainda (aqueles pseudo-percussionistas ridículos que fazem muito pouco no palco além de correr de um lado pro outro).

A partir de então a fila comecou a “andar”. A cada espasmo da linha, éramos jogados para frente à astronômica velocidade de algumas polegadas por dia. O freio que impedia essa velocidade aluciante de me desprender da força gravitacional terrestre era um garoto punk que estava na minha frente. Aliás, justiça seja feita: o responsável pela minha parada não era o garoto punk mas sim seu suvaco punk, onde meu nariz invariavelmente se enterrava após cada série de movimento/parada da fila. A inércia, novamente, trabalhando em prol da minha fodeção.

Após cheirar muitos suvacos punks (eu furava a fila sempre que possível mas sempre acabava atrás de algum outro punk), nos vimos dentro da casa de show. A banda que berrava no palco era uma tal de Dead 13, ou Dawn 13, ou Damned 13, ainda não consegui definir. Os testemunhos oculares dos meus amigos não entram em acordo quanto ao nome que pendia no topo do palco, mas foda-se, ninguém foi pra ver essa bandinha bunda.

Após alguns instantes de headbanging de categoria (a grande vantagem do meu recém-adquirido cabelo comprido é a possibilidade de headbeanguear de verdade), a patroa decidiu dar um pulinho no stand de merchandising, onde camisas, sweaters, bonés e assentos de privada com a imagem da banda aguardavam compradores dispostos a dar pelo menos 30 dólares por cada item. Seguiu-se o diálogo, traduzido porém reproduzido na íntegra:

[ Becca ] Ah amor, quero ir comprar umas baboseiras lá na merch stand. Vamos lá comigo.

[ Kid ] Ok. (pensando “O dinheiro é teu mesmo…“)

(a patroa passa direto da banquinha de mercadorias e se dirige à saída do Arrow Hall)

[ Kid ] Sem querer indagar mas já indagando, pra onde diabos tu tá indo?

[ Becca ] Vou lá fora pegar minha carteira.

[ Kid ] ?!?!?!

[ Becca ] Tá ali, ó.

(Aponta pra um canto do lado de fora do Hall, onde seu casaco jazia)

Isso mermo. Enquanto eu achava que ela tinha deixado o casaco dela no coat check do local, essa gringa ingênua que dorme aqui em casa nas noites de sábado e não consegue falar “desisto” sem arrancar risadas tinha simplesmente jogado o casaco dela do lado DE FORA da casa de shows, sem qualquer tipo de vigilância que seja, com sua bolsa, carteira, CD player, cartão de crédito e, mais importante, suas pílulas anticoncepcionais. Curioso pelo motivo que a levou a fazer tal coisa, perguntei carinhosamente se a mãe dela a havia deixado cair no chão quando ela era bebê. Então percebi que havia uma miríade de casacos jogados ao chão do lado de fora. Ela me explicou que isso é lugar-comum em shows. Prevendo o calor dos infernos que faria do lado de dentro do estabelecimento, a geral simplesmente joga os casacos no chão do lado de fora. A patroa meteu a mão no montinho formado pelo casaco, pescou a carteira, estendeu a mão pra mim e me levou de volta pra dentro – antes mesmo que eu tivesse a chance de pilhar aquele monte de canadense bobinho. No entanto, convenci-a a trazer o casaco de volta pra dentro. Meu sentido aranha detectou brasileiros nas proximidades, é melhor se prevenir.

Sobre esse acontecido, não tenho palavras. Vindo de um país onde roubam sua carteira de dentro do seu bolso, fiquei simplesmente estupefato. Metade de vocês não acreditarão mesmo, e em verdade em verdade vos digo: fodam-se.

(continua…)

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

3 Comentários \o/

  1. Eduardo says:

    Nossa, aqui é capaz de roubarem até no “guarda-volumes” kkkkkk

    Quanto ao show, show grande é assim mesmo. Lembro que quando fui no do Metallica,aturei 3-4 horas de fila mais umas 3 horas de espera. Ainda bem que peguei cadeira e “esperei sentado” (com o perdão do trocadilho).

  2. Sid says:

    De Slipknot pra remix de soundtrack do mario. É, não dá pra negar, seu gosto musical evoluiu..