Hbdia
  • Feed do Hbdia
  • Twitter
  • Youtube

Postado em 6 February 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

A correria naquele outro dia foi porque eu estava atrasado (como sempre) pra ir à escola. Acontece que este não era um dia normal de escola. Neste dia eu não iria humilhar meus colegas matematicamente analfabetos com minha habilidade de resolver equações de primeiro grau, ou recortar triângulos em feltro. Iriámos esquiar!

Que escola legal“, vocês devem estar pensando. E é mesmo. A cada dois meses, a diretoria premia os vinte melhores alunos da escola com uma viagem pra algum lugar legal. Como sou aparentemente o único no prédio que sabe fazer de cabeça contas de adição de números de dois dígitos, é uma concorrência um tanto quando injusta pros pros canadenses.

No bimestre passado, fomos ao Playdium, uma cadeia de arcades altamente foda. Jogos, comida, viagem até lá e de volta, tudo de grátis. Brinquei num simulador de vôo com três telas de cristal líquido e mais botões que o avião de verdade por quase uma hora seguida. Enchi a barriga de batata frita não comesse frituras há anos. Tirei muitas fotos pra escrever um post sobre o acontecido e fazer inveja aos coitados que gastam dinheiro jogando King of Fighters em arcades mais velhos que a tia da minha avó, mas não encontro mais as fotos HD. Oh well.

Então, a viagem pro chalé, o SkyLoft. Antes de nos dar os passes pro troço, a coordenação da escola nos fez assinar um longuíssimo termo de compromisso:

Entendo os riscos que os esportes de neve significam. Assumo total responsabilidade sobre qualquer calamidade que me possa ocorrer, citadas abaixo mas não limitadas a:

– Fraturas nos braços, pernas, dedos, crânio ou qualquer outra estrutura óssea;

– Perda de dentes;

– Deslocamento, torções, rompimento de ligamentos ou tecidos musculares;

Frostbite*

– Cortes e consequente perda de sangue;

– Queda dos
lifts e todas a lesões que isso implica;

– Ataques de velociraptors;

– Esmagamento por geladeiras que porventura caiam sobre você (um risco constante);

– Colisão com aviões;

– Ser atacado por um velociraptor enquanto uma geladeira cai em você

– Etc.

E um espaço embaixo pra assinar. Cada item lido diminuia a vontade de participar do negócio. Os caras queriam deixar BEM claro que se você se fodesse lá em cima, não era culpa de ninguém a não ser de você mesmo.

“Bom, é de graça mesmo!” pensei, pondo em prática tudo que aprendi nesses anos sendo brasileiro. Se há uma coisa que não se rejeita, é algo que não custa nada. Ignorando-se obviamente o fato de que esse algo pode provocar um acidente doloroso que ceifará sua vida ao mesmo tempo que você berra desesperado em arrependimento por ter assinado o tal termo de compromisso.

Mas é de graça.

Assinei o papel e entreguei de volta pra secretária.

– Ô, você esqueceu de preencher o espaço do seu cartão de saúde.

– Hm, eu não tenho cartão de saúde.

– …

– E você quer ir… assim mesmo?

– Hmm… pra falar a verdade tou meio em dúvida.

– Eu também estaria, se fosse você. Afinal, às vezes…

– O almoço lá vai ser de graça, né?

– É, mas…

– Toma o formulário. Vou sim.

E fui pro ônibus da escola.

Isso aqui vale uma ressalva revoltada. Seja lá quem foi que projetou ônibus escolares, essa pessoa não devia ter pernas, ou nunca viu seres humanos que tivessem tais membros. O espaço entre as fileiras do ônibus escolar (não sei se todos são assim, você que já andou num ônibus escolar diferente se dê por sortudo) era menor que a distância entre meu dedo indicador e médio. Minhas pernas estavam presas entre o meu assento e o da frente, fazendo com que meus joelhos quase encostassem meu queixo. Se alguém me visse de perfil, poderia me confundir com um N maiúsculo. Me segurei nessa torturante posição até chegarmos no chalé.

A viagem até o lugar me fez pensar nos riscos que eu estava prestes a correr. Se eu seria exposto a velocidades e impactos que estraçalham ossos, quebram dentes e rompem músculos, como eu protegeria o palm pilot e o mp3, meus fiéis seguidores que me acompanham pra todos os lugares? Cocei meu queixo com o joelho, pensativo. Quem se preocupa em fratura exposta múltipla ou rompimento transversal quando Ossos e músculos têm um sistema de auto-reparo?! Se eu cair de bunda em cima do meu mp3 player, comé que fica? Quem vai me dar um novo? Diante dessa real preocupação, comecei a pensar direito no que eu havia me metido.

Aí me lembrei do que a patroa tinha feito com a bolsa no dia do show do Slipknot. Quando entramos no chalé, peguei minhas bugigangas tecnológicas (que somam um valor de mais de R$ 600), botei dentro da mochila e simplesmente larguei-a num cantinho do chalé, perto de um banco. Agora era a hora de provar a índole desses canadenses.

Fui ao lugarzinho onde os funcionários do local nos entregam o equipamento que estaria preso nos nossos pés enquanto caíamos colina abaixo. Havia duas opções: snowboard e esquis. Como todos me falavam que esquis eram mais fáceis de controlar que snowboard (nota: MENTIRA DO CARALHO), optei pelos esquis. Ao me entregar o equipamento, o funcionário do SkyLoft me entregou também o seguinte papelzinho, que tem como utilidade tranquilizar e inspirar confiança em brasileiros que mal se acostumaram com neve e nunca puseram esquis na vida:


Se você morrer, não pode dizer que eles não avisaram


Prendi a porra toda nos pés e caminhei desajeitadamente em direção às colinas, onde um instrutor aguardava os menos entrosados com as atividades de inverno. Eu e mais uns seis carinhas recebemos todas as noções básicas do esporte que deu pra enfiar numa micro-aula de trinta minutos (o que significou que alguns voltaram pra casa sem saber dar saltos mortais triplos). Não que fizesse muita diferença, e todos sabem disso: a única coisa que alguém que está descendo uma montanha com esquis precisa saber é diminuir a velocidade sem que isso envolva uma colisão de frente com uma árvore, uma lata de lixo ou outro esquiador – o que causaria danos a árvores, latas de lixo ou outras pessoas. Portanto aqueles trinta minutos não realmente ensinavam nada de muito importante, era apenas um “tentem não se matar no caminho” disfarçado de aula. Então a única coisa que realmente aprendemos nessa “aula” foi como reduzir a velocidade (reduzir a velocidade, e não parar. Iniciante no esqui só pára quando encontra uma árvore, uma lata de lixo ou outro esquiador).

Então, pra diminuir a velocidade, nos ensinaram uma técnica chamada snowplow (leia-se “isnou-pláu”). Essa complexa e revolucionária técnica consiste em cruzar as pontas frontais dos esquis, transformando o que era outrora um feixe paralelo de tábuas de fibra de vidro em duas linhas concorrentes. Abaixo, mais um de meus incríveis GIFs explicativos:


Abre e fecha, abre e fecha


Bem, eu sou iniciante no mundo do esqui, mas não são um leigo completo. Quando criança, joguei muito aquele joguinho de esqui do Windows, uma fonte inesgotável de conhecimento esportivo e animações composta de três pixels e duas cores que se você espremesse os olhos pareciam vagamente com esquiadores. Se esse jogo me ensinou uma coisa, é que devemos desviar de árvores, linhas coloridas no chão fazem você saltar trinta metros no ar, e que o monstro acinzentado que come esquiadores no fim da montanha é invencível.

(Adendo: Lembro que passei grande parte da minha infância tentando descobrir o que diabos era aquele monstro pixelado. Quando eu não estava tentando desvendar a que espécie ele pertencia, estava pensando numa forma de escapar de suas temíveis garras. Obviamente, eu não teria passado anos bolando uma estratégia de fuga se o primo do amigo do vizinho não tivesse dito que um cara da escola dele conseguiu escapar do monstro…)

Então, apoiado pelos meus conhecimentos no esporte – duas varetas de metal que em diversas ocasiões foram a única ajuda contra a força da gravidade -, me senti preparado pra enfrentar a primeira montanha.

(Continua no próximo episódio)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe sua opinião aí. Você não tá fazendo nada mesmo!

comments

Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)