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Postado em 14 February 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Cena anterior: Cheguei no SkyLoft e recebi, juntamente com alguns amigos menos habilidosos com esquis, uma aulinha bunda sobre o esporte.

Lá estava eu, tendo recebido minha aulinha de (menos de) trinta minutos sobre não me arrebentar em árvores e outros esquiadores. Para um canadense, talvez fosse suficiente; de fato, meus amigos gringos esperavam impacientes pelo fim da aulinha para poder descer a montanha de costas e dando saltos mortais, essas coisas que canadenses fazem quando não estão jogando hockey do dois ou cortando triângulo em feltro. Enquanto isso, eu dava passos desengonçados, me equilibrando precariamente com meus novos pés de um metro e meio de metal colorido.

O instrutor finalizou a aula, convencido de que já estávamos preparados para enfrentar as descidas congeladas sem quebrar algo importante como o pescoço ou, Deus o livre, o equipamento cedido pelo SkyLoft, o que causaria ao usuário um prejuízo no valor equivalente ao número de ossos que ele estralhaçaria na queda provocada pelo defeito nos esquis. Os mais familiarizados, ou seja, aqueles que não precisaram de ajuda pra pôr os snowboards ou se manterem em pé com eles, desceram a montanha assim que receberam permissão, gritando e fazendo brincadeiras uns com os outros. Morreu neste exato momento aquele velho lugar-comum de que gringos são frios e apáticos; poucas vezes na vida vi gente tão animada pra descer em alta velocidade um declive cujo atrito é nulo, tendo os pés firmemente presos a tábuas de madeira.

Após a descida dos canadenses, avaliei a situação. Lá estava eu, com esquis nos pés e recém-superficialmente-instruído nas noções básicas de um esporte em que uma falha não significa perder o gol ou fazer tesoura quando o oponente faz pedra, mas quebrar o pescoço em três pontos ou até mesmo perder os esquis alugados. Respirei fundo e caminhei desajeitadamente até a beirada das montanhas, decidindo cuidadosamente em qual delas eu esquiaria (substitua a palavra “esquiaria” por “cairia de forma humilhante na frente da geral, levantando-me em seguida e alegando não ter doído, a despeito do fato de que meu antebraço está fazendo um ângulo de 90 graus. “).

As trilhas são separadas em grupos de cores (a primeira escolha era enumerar as trilhas, mas os canadenses não são lá apaixonados por números, então recorreram à alternativa colorida, conhecida em outras freguesias como “solução jardim de infância”). Há trilhas verdes, azuis e pretas. Verdes são aquelas a qual enviam aquelas pessoas que estão aprendendo a fixar os esquis nos pés e que não têm planos de saúde, como é o meu caso. As azuis são as trilhas intermediárias, ou trilhas “sei esquiar mas o seguro morreu de velho“. As pretas são o destino de esquiadores olímpicos, pessoas que despertaram da Matrix e agora dominam a lei da gravidade ou daqueles com seguros de vida cujas cláusulas tiveram que ser calculadas em algum outro país, pois a cifra bate a casa das centenas de milhar e os canadenses ainda estão terminando a tabuada de dois.

Diante as opções, julguei-me pertencente a uma trilha verde e pus-me a caminho da mais próxima.

Aí entrou em cena aquele cara lá de cima que não gosta muito de mim.

Coincidentemente (ou “muitíssimo infelizmente“), alguém colocou uma imensa lata de lixo VERDE na entrada de uma trilha PRETA. Isso, aliado ao fato de que as plaquinhas que indicavam as cores das trilhas tinham aproximadamente o tamanho de um ícone num desktop cuja resolução é 1280 x 1024, provocou a maior descarga de adrenalina que senti na vida desde o dia em que dormi na casa da patroa e a mãe dela voltou de manhã cedo antes do previsto.

Posicionei-me na frente da trilha “verde”. Olhei pra baixo. “Esses canadenses devem ser muito fodas mesmo“, pensei, “porque a parede lá de casa é menos íngreme que essa porra de montanha, entrentanto é essa que os iniciantes descem“. Deus deve ter rido enquanto eu dava uma última olhada pra baixo. Dava pra ver alguns dos meus amigos lá embaixo, a mais ou menos dois quilômetros de distância. Usando o pensamento patenteado de quem está prestes a se aventurar a algo que escapa totalmente de suas habilidades mas ainda assim procura se reassegurar que vai conseguir, conclui que “se os canadenses conseguem, eu consigo também“.

Usando os poles, umas hastes de metal que dão pra gente cujo nome em português desconheço, me impulsionei em direção à beirada. Lembrei do palm pilot e do mp3 player que eu havia deixado no saguão do SkyLoft, e relembrei que tinha sido uma melhor idéia arriscá-los à índole canadense que à minha (falta de) habilidade como esquiador.

Após muita procrastinação, reuni os últimos resquícios de coragem que a altura da montanha não afugentou e me lancei em direção ao meu destino.

No começo tudo tava indo muito bem, como todas as coisas sempre vão até que você perceba que na verdade foi uma péssima idéia. Os esquis estavam estáveis (argh, isso soou horrível), a brisa fria batia no rosto e no cabelo, tudo uma beleza. Isso foi um pouco antes das coisas começaram a ficar azedas. Em pouco tempo, eu aprenderia uma lição muito importante no esqui, algo que eles não incluíram naquela aulinha: a velocidade que você atinge naquela porra é inversamente proporcional a facilidade de diminui-la. A cada segundo eu ficava mais rápido e menos capaz de fazer o tal “snowplow”, o movimento redentor que salvaria meus órgãos internos de serem trespassados por fragmentos ósseos resultados de uma fratura múltipla exposta. Não demorou nada para que eu começasse a ultrapassar o pessoal que tinha saído bem antes de mim. Estes, mais cuidadosos – talvez por saber que aquilo não era colina verde porra nenhuma -, não largavam o snowplow. Eu, que seria igualmente cuidadoso caso tivesse consciência do que tinha me metido, descia descaralhadamente.

Então ligou-se na minha cabeça aquele alarme que sempre dispara quando percebemos que perdemos nossa carteira ou quando você está assistindo um filme pornô na sala e se dá conta de que alguém chegou em casa há pelo menos 10 minutos atrás. “Me fodi“, gritava a voz na minha cabeça. Meu coração batia desesperado. Os poles nas minhas mãos eram totalmente inúteis agora, não dá pra usá-los pra parar quando você está indo mais rápido que uma Ferrari com gasolina aditivada. Eu estava ultrapassando todo mundo a uma velocidade estonteante, usando cada um de meus neurônios que venho desenvolvendo após quase duas décadas me equilibrando em duas pernas na árdua tarefa de não cair. Cada vez que eu me aproximava de alguém, batia o desespero. Desviar de esquiadores mais lentos quanto você está descendo a uns cinquenta quilômetros por hora (não é exagero) não é algo que se deve fazer se o seu objetivo é permanecer em pé. Miraculosamente, eu consegui curvar os esquis e passar muito rente a duas menininhas que se aventuraram na perigosa decida. Foi tão rápido por elas que a impressão que tive é que elas estavam paradas.

Aí a situação ficou pior.

(Agora você fecha o HBD e reza pra que eu poste a continuação)

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)