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Postado em 17 February 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

(No episódio anterior, eu havia passado raspando em uma dupla de menininhas que sequer sabiam de onde eu estava vindo. Essa quase-colisão foi apenas o prenúncio do que aconteceria…)

Há dois tipos de neve, powder snow e packing snow. A primeira é a neve recém caída, ainda fofinha, não tocada por esquis os snowboards. Essa é a neve ideal para novatos porque, além de mais macia, ela causa mais atrito, que é aquela coisa que impede você de sair voando colina abaixo mais rápido que uma Ferrari com gasolina aditivada. Já a segunda é aquele tipo de neve porcaria que sobra após as Olimpíadas de Inverno. Vítima da pressão que os corpos gordos dos esquiadores promovem, a neve derrete. O clima ártico da montanha acaba por congelar a água novamente. Porém, ao invés de flocos, temos agora longas camadas de gelo.

E gelo, como todos sabemos, não causa atrito NENHUM.

Então, como se eu já não estivesse indo rápido o bastante após ter quase colidido com as duas menininhas, o gelo me arremessou pra frente com mais velocidade ainda. Nem que Jesus Cristo num F-22 poderia mais me alcançar. O gelo fica todo arrebentado por causa das prévias esquiadas, então passar por ele foi o equivalente a andar de patins num ralador de queijo. As imperfeições no gelo fizeram os esquis chacoalhar assustadoramente, e num momento tive a impressão de que eles estavam indo em direções opostas. Fiz um esforço hercúleo e trouxe-os de volta à forma paralela.

Um pouco à frente estavam meus amigos da escola. Este ponto era o mais rápido de toda a trilha. Como eu estava indo durante todo o trajeto “em paralelas”, ou seja, sem cruzar os esquis, eu estava indo pelo menos umas três vezes mais rápido do que todo o resto da galera. Vi-os tornarem-se cada vez mais próximos. Os miseráveis estavam indo mais ou menos na mesma velocidade, formando uma espécie de fila lateral bloqueando cada centímetro esquiável da trilha. Pra mim, é como se eles estivessem parados no meio da porra da trilha. Uma parede de canadenses esperando para que um brasileiro se arremessasse nela.

O desesperto de estar se movimentando àquela velocidade logo atrás de um monte de gente que sequer sabia que eu estava ali foi inigualável. Qualquer um que já desceu de patins ou skate uma ladeira muito íngreme e comprida e percebeu que havia alguém atravessando a rua lá na frente sabe do que estou falando. Sabendo que ia cair de qualquer jeito e que nada poderia ser mais embaraçoso (e doloroso), comecei a berrar desesperadamente.


Os canadenses ouviram meus berros e perceberam o que ia acontecer. A coisa toda não durou mais que cinco segundos, mas pareceu uma eternidade.

Ao mesmo tempo em que eu movia-me como um bólido montanha abaixo, os coitados se movimentaram num esforço um tanto quanto cômico pra sair da frente. Alguns mantiveram a calma e aplicaram seus conhecimentos no esporte para fazer uma graciosa curva pra direita e abrir o caminho, outros simplesmente jogaram-se de peito na neve. Abaixo, imagens captadas por uma câmera de vigilância do SkyLoft, e não um GIF animado feito com frames desenhados no Paint.


Depois de momentos de puro terror, a trilha chegou à área plana. Eu simplesmente não conseguia acreditar que havia descido aquela montanha sem cair. A adrenalina foi sendo consumida aos poucos, mas eu ainda sentia os efeitos do susto. Andei em direção aos teleféricos que levavam os esquiadores de volta ao topo da montanha, fazendo um lembrete mental de trocar de cuecas quando chegasse em casa. Ao chegar no topo da montanha, decidi enfrentá-la de novo. E de novo. E de novo. E me diverti pra caralho.

A primeira descida foi a única em que não caí. Ironicamente, foi também a em que atingi maior velocidade. Em todas as outras tentativas, acabei de cara na neve – o que confirmou uma teoria e aniquilou outra. Costumamos pensar que praticantes de esportes em países frios não se machucam tanto quanto nossos esportistas conterrâneos porque a neve não é tão dura quanto, digamos, asfalto ou uma bala perdida. Se trata de um ledo engano. Há dor em quedas na neve, e dores bem dolorosas eu vos digo. Voltei de Parry Sound com um puta hematoma na coxa, e não foi sequer por causa de queda em alta velocidade. Eu estava descendo uma colininha de nada num trenó e o troço levantou vôo numa pequena rampa. A queda, que não foi de mais que meio metro, me custou uma enorme mancha roxa na perna (que até assustou minha namorada, de tão grave que parecia), e três dias mancando.

E isso é apenas uma dos fatores que tornam seu agradável dia esquiando não tão agradável assim. Quando você cai em alta velocidade e sai rolando, seus braços e pernas às vezes dobram em ângulos impróprios para o bom funcionamento de uma articulação. Isso sem contar nos esquis que estão presos aos seus pés, que são mais um fator a ser considerado. Descobri que um corpo que cai na neve desenvolve um misterioso magnetismo; isso pôde ser comprovado pela estranha atração que sua cabeça exerceu sobre meus esquis todas as vezes em que cai. Sempre que eu caia, a impressão era de que eu estava me espancando com dois pedaços de metal. E eu batia forte, preferencialmente na cabeça.

Mas eu não fui o único a me acidentar. Aliás, em retrospecto, eu fui o mais sortudo…

(Acompanhe a continuação desse lenga-lenga no fim de semana. Ou não. Depende de vocês. Tão clicando, por acaso? Humpft.)

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)