Hbdia
  • Feed do Hbdia
  • Twitter
  • Youtube

Postado em 23 February 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

(Finalizando o post sobre a viagem de esqui paga pela escola. Ô escola boa, puta que pariu.)

Acidentes? Claro! Não seria uma ski trip se ao menos uma pessoa não tivesse voltado pra casa com um pé quebrado.

Esqui é um esporte radical, e obviamente o preço de toda essa radicalidade foi a falta de consideração com segurança. Em 1999 o Ministério da Saúde do Canadá entrevistou dez mil esquiadores e chegou a uma estarrecedora conclusão: um em cada três esquiadores já caiu em cima dos outros dois. Não é raro ver notícias de mortes associadas ao esporte; ontem mesmo um homem deu um tiro na cabeça usando esquis, o que serviu pra aumentar a lista das tragédias envolvendo a atividade. Esqui é considerado pela Organização Mundial de Saúde o terceiro esporte mais perigoso do mundo, logo atrás de pular de paraquedas sem paraquedas e pegar dardos com a boca.

Caí um bocado de vezes, mas felizmente não sofri nada muito grave. Houve, no entanto, situações memoráveis (das quais escapei ileso). Em um determinado momento atropelei um garoto que se materializou sem aviso na minha frente, bem no finzinho de uma das colinas. A batida foi uma das coisas mais intensas e emocionantes que já experimentei na vida. Nos momentos imediatamente anteriores à porrada, cerrei os dentes com força e joguei os poles pra trás, pra tentar reduzir a quantidade de metal envolvido na cacetada. Gritei pro moleque se segurar – algo que eu sabia ser fútil, mas não custa tentar -, já que eu não tinha mesmo como parar, e coloquei os braços na frente da cara pra proteger o óculos e mandei ver.

O molequinho imbecil que achou que poderia passar na minha frente (a despeito do fato que eu me movia pelo menos trinta vezes mais rápido que ele, ou seja, o pivete jamais conseguiria atravessar a colina sem ser interceptado por mim) levou uma brasileirada no meio da barriga. Nos enroscamos numa bola de pernas e braços e rolamos por uns dois metros de distância do ponto de impacto. Por algum tipo de milagre dos santos do esqui, nem eu nem ele nos machucamos. Isso surpreendeu tanto aos que testemunharam a cacetada quanto a mim: a força do impacto foi sucifiente pra arrancar um dos esquis do meu pé, mas no entanto não provocou sequer um arranhão.

Todavia, alguns não foram tão sortudos como eu. Vi uma porção de acidentes violentos na neve; curiosamente, o grau de violência andava lado a lado com a comicidade dos tais acidentes. Achei que isso tivesse algo a ver com meu prazer em assistir gente se fodendo com requintes de boniteza, mas talvez isso seja uma análise precipitada. Um estudo mais profundo provavelmente revelaria que acidentes são inerentemente engraçados, e que eu não sou de forma alguma culpado por cair no chão rindo quando alguém se enfia de cara num muro de concreto na minha frente.

Um dos esquiadores saiu da trilha – o que acontece com uma assustadora frequência -, e tentou provar que a física estava errada ocupando o mesmo lugar que uma árvore. As leis naturais encarregaram-se de dar ao esquiador a dolorosa lição de que cada cacetada tem uma reação igual em intensidade e em direção diferente. Ou de maior intensidade que coloca os ossos em direções diferentes, esqueci o enunciado exato.

Em miúdos: a porra toda foi legal pra caralho. Some a emoção provocada pelas altas velocidade à diversão acompanhada por testemunhar as cacetadas em primeira mão, e eleve ao fato de que foi tudo de graça e você terá uma idéia aproximada do dia incomparável que aquilo foi. Apesar de que seja um desafio à sorte e que isso nunca seja uma atitude inteligente, espero voltar aos esquis em breve

Ah, e quando voltei ao saguão minhas tralhas (mp3 e palm pilot) estavam no mesmo cantinho, intocadas. Aliás, intocadas não: a mochila tinha sido movida de lugar pois eu supostamente a deixei numa área inadequada. Entretanto, o conteúdo da mochila estava incólume. É curioso pensar no outro lado deste espectro: quando meu pai esteve no Brasil, deixou o notebook no chão por TRÊS segundos pra entregar o cartão de embarque no guichê da compania aérea, e esse foi o tempo mais do que suficiente pra que algum paulista safado surrupiasse sua maleta com o computador portátil, papéis do casório, moedinhas de cinquenta centavos e alguma hipotética revista de sacanagem que meu pai carregasse lá dentro.

Vou te contar. Não me levem a mal e nem venham com frescurinhas, mas não tem como não falar a verdade: a cada momento que passo aqui fora, diminui a vontade de voltar pro Brasil.

(Exceto, é claro, pra visitar certas pessoas…)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe sua opinião aí. Você não tá fazendo nada mesmo!

comments

Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)