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Postado em 8 March 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

E como o assunto é religião e tudo o mais, acho que seria apropriado contar aqui o resultado da minha mais recente interação com essa galera que acredita que Deus é amor mas queimará os pecadores no quintos dos infernos até o fim dos tempos.

Conforme alguns amigos mais chegados devem saber (e se não sabem é porque não prestam atenção no que eu digo), há poucos brasileiros aqui em Oshawa. Além da Mayara, uma intercambista que comparece às festas a que a convido mas não fala nada a noite inteira, eu não conhecia nenhum outro compatriota nas redondezas. Até o dia em que o Mike, um cristão maluco lá da escola, me encheu o saco para que eu visitasse a sua igreja até que eu perdi a paciência e desistí de dizer “não”. Segundo ele, havia mais ou menos uns sete brazucas em sua congregação, incluindo o pastor. Brasileiros, mas crentes. “Todo mundo tem um defeito”, pensei, mas caralho ein? Crente E brasileiro. Imagina aí um batedor de carteita, mas que pede perdão a Deus após o crime.

Eu vivia prometendo ao Mike que visitaria a sua igreja, não por realmente querer ir lá mas porque isso revelou-se uma eficiente tática de repelir o cristãozinho. Mal ele chegava querendo me evangelizar, e eu dizia “Aê malandro, tou indo lá nesse domingo ein?“, e ele balançava a cabeça concordantemente e ia cuidar da própria vida.

Infelizmente tudo tem um prazo de validade, e a minha desculpa expirou após uns três meses de “Ei, não te vi lá no domingo!” Hoje, como não tinha nada pra fazer, resolvi dar um pulinho na igreja do moleque. Por mais chato que seja, cheguei à conclusão que, na pior das hipóteses, ao menos conhecerei mais brasileiros (embora eu ainda esteja na dúvida, pois isso talvez seria uma hipótese ainda pior do que a imaginada).

Mas enfim, reuní a família e me mandei lá pra igreja do moleque. Valeria ao menos o post.


Após uma breve confusão (chegamos à igreja mas simplesmente não conseguíamos encontrar a porta), estávamos dentro do templo e participando do “momento de louvor”, e quando digo “participando” me refiro ao sentido apático da palavra; bocejando e coçando a orelha enquanto os crentezinhos batiam palmas e choravam ao meu redor.

Após uns vinte minutos de cantoria e antes do término oficial do período de “louvor”, sentei-me e puxei o palm pilot pra dar continuidade a uma emocionantíssima partida de paciência. Antes que eu pudesse arrastar o 5 de espadas pra cima do seis de copas, o pastor apareceu magicamente em cima do púlpito e começou a pregação.

“As sete pessoas mais prejudiciais para a sua vida” era o tema do sermão. Uma a uma, o pastor ia dando as descrições das pessoas que, segundo ele, Deus não quer que você seja amiguinho. Pessoas que alimentam sua tristeza, pessoas que alimentam sua raiva, e por aí vai, sempre fechando os argumentos com pérolas do tipo “Deus não gosta disso”, “não é isso que Deus quer”, “o Senhor não se agrada disso”.

Coisa que ele não faria, caso fosse um pastor mais atencioso e dessa uma lidinha ocasional naquele livro que ele carrega debaixo do suvaco:

Ezequiel 28:6
Assim diz o SENHOR Deus: Visto que estimas o teu coração como se fora o coração de Deus

Contradições pastorais à parte, o culto foi até bom. Bocejei apenas cinco vezes, em contraste com os seis que costumo soltar em situações do gênero. Terminada a primeira parte do sermão (que não durou mais que 10 minutos, o que eu achei esquisito), o pastor entrou na continuação do estudo: “As sete pessoas mais úteis para a sua vida”. Aprumei-se na cadeira, cocei a bunda, ajeitei o cabelo e limpei o óculos. Lá vinha merda.

O pastor começou a numerar o que eu considero a lista de qualidades que transformariam o mundo uma utopia, e todas as pessoas em bundões por tabela. “Pessoas que valorizam seu esforço”, “Pessoas que te tratam bem a despeito das situações”, “Pessoas que alimentam sua auto-estima”… O cara tá pensando o quê? Achar uma pessoa com ao menos uma dessas características já exigiria umas quatro ou cinco mudanças de bairro. Esperar que você se rodeie de gente dessa qualidade é apenas inocência.

Mas o culto ainda tava indo rápido demais, pro meu espanto. Em menos de cinco minutos, o pastor já tinha passado por todas as definições de bundões que fariam seu dia melhor se eles fossem seus amigos ou colegas de trabalho. O pastor chegou na última característica.

“Pessoas que o ajudam a se desprender de bens materiais”.

Ahhhhhh! Tudo fez sentido. Só então compreendi porque todas as outras definições exigiram menos de um minuto para serem definidas. Chegamos na metade do sermão e o assunto parou justamente naquele que, no fim das contas, tem finalidade de jogar uma chantagem emocional nos fiéis.


Pastor esperto.

Voltei minha atenção ao joguinho de paciência, e de cabeça baixa ouvia o pastor. Enfático, quase chorando em alguns momentos, ele dizia que Deus se entristecia muito quando via uma nota de 50 dólares na sua carteira e você não jogava na cestinha das ofertas.

Há! Essa é boa, ein? Deus, que é supostamente “dono do ouro e da prata” (segundo a bíblia), Senhor do Universo e Mestre do seu Destino, precisa de cinquenta pilas! Mais especificamente, das suas cinquenta pilas. Acho que Deus não pode simplesmente arrumar dinheiro de outra forma, cabe a nós sustentar o malandrão.

O pastor finalizou a palavra, embora sem a menor menção do assunto principal. A pauta de fechamento do sermão foi “temos que ser mais generosos com relação às ofertas da casa do Senhor!” E o pastor ordenou a segunda passada das sacolinhas de oferta, suponho eu que foi pra completar as cinquenta pratas de Deus que a primeira passada não arrecadou.


“Vou dar minhas cinquenta pratas pra Deus, aleluia”

Foi um tanto quanto divertido. Acho que vou domingo que vem, só pra ver que assunto o pastor inventará para preencher os primeiros vinte minutos da pregação, antes que a palavra seja direcionada ao assunto principal: dinheiro.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)