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Postado em 16 March 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários


Fiz uma viagem à Toys R Us na última sexta feira e desembolsei cinquenta e sete dólares por esse jogo. Um pouco caro em relação aos outros jogos que já comprei, mas o preço alto não é sem sua vantagem: o jogo veio em um pacote especial que inclui um incrível headset, que me permite xingar um oponente cantarolando cantigas em homenagem à sua morte. Só isso já deveria valer pelo menos os 57 dólares, pensei.

E estava muitíssimo enganado. Esse pacote valeria meus dois rins, se o fabricante pedissem-nos em troca do título. E eu daria de bom grado, aceitando passar o resto da vida ligado a uma máquina de hemodiálise, se ao menos houvesse um PS2 e uma cópia de Socom no hospital.

Socom é O melhor jogo que o dinheiro pode comprar, ponto final. O game o coloca na pele de um Navy Seal (que significa Sea, Air and Land, mas já vi traduzido em filmes como “focas da marinha”), que são caras armados com fuzis, metralhadoras, granadas e minas, mas a serviço do “bem” – o que deve significar que eles matam seus semelhantes mas mesmo assim irão pro céu, acho. A história é… hm, não sei qual é a história. Sempre pulo os briefings e as animações de apresentação. O que eu sei que é você tem armas na mão, e quem está armado não precisa dar atenção a algo que não esteja se movendo em sua direção.


Um Seal investiga uma casa abandonada. A última coisa que passa por sua cabeça é uma bala 9 milímetros.

Foda-se. Ninguém compra Socom por causa do modo single player. Quando mal comecei a primeira missão e matei todo meu esquadrão com uma granada mal-jogada, percebi que seria muito mais interessante voltar minhas avançadas táticas de guerra para o modo online, onde eu posso ao menos ser xingado de volta se trucidar meu próprio time.

Após escolher meu nome e conectar ao servidor (o que foi bastante simples, ponto pros produtores), perambulei pelo lobby a procura de um jogo. Entrei na sala “n00bs only” e bati um papo informal com os jogadores. Digitar utilizando o joystick é um exercício de paciência, algo que não tenho. Preciso comprar um teclado USB o quando antes.


Um Seal corre pra atender o telefone, enquanto uma igreja evangélica arde em chamas na rua em frente

Começa a partida. O jogo nos coloca num cenário meio “Guerra do Vietnã”: selva densa, riachos cobertos por neblina, intimidantes torres de madeira espalhadas aleatoriamente pelo mapa. Devo dizer logo de cara: os gráficos são fantásticos. Nos mapas com neve, conforme descobri depois, suas pegadas ficam impressas no chão. Dá pra ver até o bafo do seu personagem. Não sou o tipo de jogador que vende sua afinição em troca de gráficos, mas Socom me impressionou.

Então, de volta ao Vietnã. Começamos dentro do riacho. A neblina cobria nossas cinturas, dava pra ouvir até o barulho dos mosquitinhos vietnamitas voando ao redor da gente. Havia outros três Seals comigo. Do nada, não mais que de repente, ouço uma voz na minha orelha. Era Matt, um Seal que se posicionava bem do meu lado, estabelecendo contato pelo headset.

– Hey dude, are you leading?

– No, I’m Izzy

Após rir da minha gracinha sem graça, Matt explicou que estava perguntando se eu lideraria. Sabe Deus porque o cara perguntou logo pra mim, que era provavelmente o mais novato ali, com menos de 0 horas jogadas. Mas aceitei o convite, dei uma olhadinha em volta e, sem pestanejar, mandei pro resto do esquadrão:

– É ali mesmo! Ali, do lado daquelas pedras. Vamos lá!

Obedientemente, o resto do esquadrão me seguiu – com exceção de um maluco que aparentemente ainda não havia dominado o sistema de controle de jogo, e foi visto pela última vez dando voltas em redor de uma torre. Sem dúvida aquele foi o primeiro a tomar um tiro na cara.


Os últimos suspiros de um terrorista

O esquadrão movia-se confiante, e o líder sem ter a mínima idéia de pra onde estava indo. Sem o menor aviso, ouvimos barulhos de armas à nossa direita. Viro-me para trás, para me esconder atrás de um corredor de pedras, bem a tempo de ver Matt tomar um BALAÇO no meio dos olhos. A animação foi linda; Matt levantou vôo para trás, impulsionado pelo impacto da bala. Ouviu-o dizendo “Fucking Shit!“, e o canal de comunicação se fechou (o jogo impede que jogadores mortos falem com os vivos, não porque isso é uma simulação mais realista do mundo real, mas para impedir que os defuntos dêem dicas pros companheiros que ainda respiram). Havia sido um headshot, então eu tinha certeza que era um jogador a menos no nosso time. O corpo de Matt, a essa altura já sem vida, atingiu a parede de pedra do lado oposto. Enquanto um bug estranho fez o corpo deitar-se em uma mesa invisível a uma altura de dois metros do chão, ouvi os outros soldados gritando loucamente no headset.

A experiência imersiva do jogo é surpreendente. A excelente ambientação, os sons realistas e o sistema de comunicação por voz dão a você a sensação de estar realmente num campo de batalha.

Após a morte dramática de Matt, os outros soldados se jogaram no chão, feito possível através da tecla triângulo. Balas começaram a zunir por todo lado, o que provavelmente indicava que o inimigo já sabia onde estávamos. Assisti perplexo os outros soldados se arrastarem pra longe do corpo do companheiro defunto e sumir embaixo da névoa. Eu estava sozinho.


Alguém com pouca sorte

As tiros inimigos silenciaram. Sem pensar duas vezes, saí atirando feito um louco, em todas as direções. Ouvi mais algumas rajadas e meu controle tremeu, o que indica que eu estava pegando chumbo. Voltei correndo pra trás da pedra. Esperei um pouco e percebi que novamente, os inimigos pararam de atirar. Então entendi que eles estavam me localizando por causa do barulho que eu fazia ao atirar em todas as direções como um desvairado.

Logo ao meus pés, estava o corpo do Matt. Ele havia largado uma HK mp5 silenciada…


Essa aí

…que reconheci imediatamente como minha arma favorita em muitos jogos online (como Soldat). Peguei a arma do presunto e saí correndo metendo balas em qualquer massa de pixels que estivesse se movendo.

Ouvi barulhos de tiros que pareciam estar vindo logo atrás. Ao me virar, dou de cara com um terrorista que corria em minha direção, empunhando uma AK 47. O azar dele é que ele gastou o resto do clipe tentando me alvejar de longe, e no momento estava recarregando o fuzil. Mais no susto do que na habilidade, pressionei o R1 com toda força que me foi possível, pensando “será que esse filho da puta conseguirá recarregar a tempo?” O coice da minha recém adquirida sub-metralhadora jogou a arma pra cima. A rajada pegou o terrorista desprevinido, bem do lado do nariz. Em êxtase, vi o corpo do maluco sendo jogado pra trás, mais ou menos da mesma forma que aconteceu com o Matt. Fiz minha primeira vítima no jogo.

Claro que, até fazer a segunda vítima, tive que comer muito feijão. Lembrei-me do tempo em que jogava Unreal, ou Quake, ou Soldat, ou CounterStrike, ou seja lá qual for o jogo, em que sempre hav
erá nerds que jogam há pelo menos dez vezes mais tempo que você e irão te matar mais ou menos na mesma proporção.

Morri de praticamente todas as formas possíveis e até mesmo impossíveis, quando um bug (ou um cheat?) fez uma bala atravessar uma pedra de uns dois metros de largura e acertasse minha inocente cabeça que passava pelo outro lado. Em várias ocasiões, dei dois passos pro lado e peguei tiros, ou servi de pista de aterrissagem para granadas, ou caminhei em minas terrestres. Após cansar de ver meu bonequinho voar sem vida pra todo lado, me comprometi em aperfeiçoar minha habilidade na porra do stick analógico. Mirar com aquela desgraça é um esforço miserável e frequentemente pouco (ou contra)produtivo (se algum companheiro tiver o azar de cruzar sua alça de mira enquanto você persegue um inimigo pela tela).

Legal é que tem uns caras que se envolvem mesmo com o jogo. Frequentemente sou abordado pelo headset por sujeitos que, gritando tal qual um sargento, pedem que eu me “identifique”, avisam que “têm contato visual com o inimigo”, ou que ele está às “nove horas”, que “necessitam de cobertura” ou (por causa da sua falha em seguir as instruções deles), mandam você “se foder”.

Normalmente eu acharia isso uma puta nerdagem, mas o resultado disso é uma curiosa experiência imersiva (que soma com o resto do pacote que o jogo oferece). Os caras são apenas crianças grandes brincando de polícia e ladrão. E sejamos francos: videogames são nada além de um brinquedo para crianças crescidinhas. Não posso julgar aqueles malucos apenas por vestirem a fantasia. E, na real, é realmente divertido.

“Mas Quide”, você me pergunta, “se esse jogo é tão legal, por que você está aqui escrevendo sobre ele ao invés de ir joga-lo?”

Por que, realmente. Vou expulsar o Trunks do aparelho e dar uns tirinhos virtuais.

Acho que vou inovar e jogar com o volante da próxima vez.

(Àqueles que tiverem um PS2 e o jogo: meu nome lá é IzzyNobre e costumo frequentar o server US East)

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)