Hbdia
  • Feed do Hbdia
  • Twitter
  • Youtube

Postado em 14 April 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Não sei se vocês já perceberam, mas existe um inerente fascínio infantil por violência.

Quando eu era guri e ia a uma locadora, o primeiro lugar que eu ia era à sessão de terror. Terrores sobrenaturais não era o que me atraía, o que eu queria mesmo ver era sangue. Procurava entre as fitas a capa cujas imagens tivessem a maior quantidade do líquido vital. Achava o maior barato ver aquelas maquiagens que simulavam cortes e buracos na pele, que nos filmes invariavelmente esguichava plasma suficiente pra abastecer dois bancos de sangue em algum país africano.

Não sei se isso acontecia com todo mundo, mas era assim comigo. Se todos somos vítimas dessa estranha atração, está explicada a origem dos estranhos jogos infantis que envolvem violência gratuita entre moleques de treze anos.

Sem dúvida você já deve ter visto uns joguinhos desse tipo, onde dez ou mais crianças decidem duas ou três regras que apenas “legalizam” a troca de sopapos, dando algum tipo de pretexto para o ato. Se não, os meus amigos eram uns doentes que devem estar até hoje pagando por ajuda psicológica.

Quando eu era criança, havia duas brincadeiras (se é que posso chamar aquelas demonstrações de ódio de brincadeiras) que atraíram minha atenção muito mais do que o pega-pega ou esconde-esconde – com exceção às ocasiões em que a Fernanda, uma irmã gostosa de um dos amiguinhos do bairro, brincava com a gente. Não me entendam mal, ser agraciado com o direito impune de encher um desafeto de porradas (ainda consentindo em ser sujeito ao mesmo tratamento) é uma beleza, mas não se equivale à diversão se se espremer pra caber num lugar apertado junto com a Fernada, sob a convincente alegação de que “esse é o melhor lugar, eles nunca vão achar a gente aqui, hihihihi!

Mas então, as porradas.


Uma das brincadeiras se chamava, inocentemente, “Castanha”. Os mais ingênuos de vocês poderão supor logo de cara que o jogo se tratava de arremessar castanhas uns nos outros, mas isso apenas prova que sua criatividade para violência é muito limitada, ao ponto de aceitar sugestões por causa do mero nome da brincadeira. Castanha era muito mais profundo que arremessar hortaliças (não sei se uma castanha é uma hortaliça, mas direi aqui que é pois nunca pude usar essa palavra num texto) no olho de um coleguinha.

Castanha era um jogo simples, a despeito de que para algo ser considerado um “jogo” deve haver algum sistema de pontuação ou competição real. Por definição, Castanha não era um jogo muito mais do que era um método de tortura. A brincadeira era simples e consistia de apenas duas etapas simples:

– Localizar alguém que acabou de se sentar na sua cadeira.

– Correr até o indivíduo que acabou de se sentar e enchê-lo de porradas.

Só isso. Incrível como algo tão simples conseguiu mandar tantas pessoas pra diretoria da escola. Havia variações nas regras básicas, mas a idéia principal nunca foi alterada: corra pra cima de quem se sentou e projete partes do seu corpo (mão, pé, cabeça, bunda, vai ao gosto do freguês) com violência contra o infeliz.

Ninguém estava imune, pois o privilégio de participar da brincadeira era dado a para todos todos, quer eles desejem brincar ou não. Era praticamente uma emulação da democracia adulta a qual nos acostumaríamos um dia, como o voto obrigatório.

A única forma de se excluir do jogo era sendo portador de alguma deficiência extremamente debilitante, (o que o salvaria das porradas mas não das piadas extremamente maldosas) ou não ir à escola. Sendo impossível passar um dia inteiro sem se sentar na cadeira, aqueles que optavam participar das aulas tinham uma única forma de se salvar das bordoadas: qualquer pessoa que desejasse sentar a bunda na cadeira deveria dizer, em alto e bom som para que todos ouvissem, “castanha” (daí o nome do jogo).

Nunca saberei por que escolheram essa palavra. O que sei é que esse verbete mágico salvou os órgãos internos de muita gente. Digo isso porque em algumas ocasiões, o som resultante de um murro nas costas dava a impressão de que os pulmões do sujeito foram atingidos pela mão cruel do indivíduo que administrou a punição naquele que foi burro o bastante pra esquecer de “pedir permissão” pra sentar (que frase longa, que horror).

Nenhum momento era sagrado. Você poderia estar emprestando uma fita de SNES pro seu amigo que senta atrás de você, e logo em seguida sentar-se sem pronunciar a palavra redentora (por esquecimento ou pela ilusão de que prestar um favor ao amigo o livraria do espancamento); levava porrada a despeito de qualquer coisa.

Eu estudava no Colégio Adventista; lembro-me de uma ocasião em que um garoto entrou na sala durante o momento da oração diária (eles nos obrigavam a orar no começo do horário letivo). Todos (ou quase todos) de cabeça baixa, falando pra Deus algo que ele supostamente já deveria saber mesmo, quando o moleque sentou-se na cadeira. Alguém estava de olho na situação e não perdoou o erro. Um baque surdo ecoou na sala, seguido de vários outro, menos potentes mas mais numerosos. A classe inteira abriu os olhos; o moleque recém chegado na classe estava debruçado no chão, e seus cadernos e livros espalhados pelo piso da sala. O carrasco voltava silenciosamente pra sua cadeira, com um olhar de “missão cumprida” no rosto, provavelmente pensando em contar vantagem sobre o fato de que ele foi o único a ver o menino que sentou sem dizer “Castanha”.

Ah, tinha outra brincadeira. Mas esse post tá grande demais, conto no futuro.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe sua opinião aí. Você não tá fazendo nada mesmo!

comments

Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)