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Postado em 28 April 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

…E uma das coisas que mais me chamaram atenção foram as páginas H/P/C/V, que era o acronímio de “Hackers, Phreakers, Crackers e Virii“. Caso você desconheça a língua inglesa, isso são os plurais de hacker (malandrinhos do mundo eletrônico), phreaker (malandrinhos do mundo telefônico), cracker (malandrinhos mal-intencionados do mundo eletrônico) e virus (precisa explicar?).

Naquela época dourada, havia muitos sites com essa temática. Suas similaridades não se limitavam ao assunto das páginas: Todos eles tinham fundo preto, eram hospedados no Geocities, e tinham como entrada uma página (também com fundo preto) com GIFs animados randomicamente espalhados pelo corpo do site, e uma grande mão esquelética animada no centro. Lentamente, o dedo indicador da mão se movia, convidando a parar o mouse em cima dela e tascar um cliquezinho.

Clicando na mão cadavérica, entrei no perigoso mundo das raqueadas infantis.

E encontrei uma página 404 logo de cara. Aparentemente o Geocities tem políticas de uso que não aprovam o roubo de senhas de banco através da internet. Bundões. O lance era procurar alguma outra página.

Nem demorou muito para que eu fosse atraído para o “lado negro” da internet. Primeiro foram os sites “anarquistas” – se bem que tava mais pra terroristas -, que ensinavam a fazer bombas nucleares com palitos de dentes e cascas de bananas. A evolução natural foram os sites de raqueagens “simples”, ou, pra quem viveu nessa época gloriosa, Back Oriffice e NetBus. Esses dois programinhas estiveram tão presentes na minha infância quanto os Playmobils que herdei do meu pai e as notas baixas em português.

Graças aos trojans, esses programinhas de invasão “receita de bolo” (como eles eram chamados pelos VERDADEIROS raquers) é que aprendi sobre protocolos de internet, IPs, conexões, portas, maçanetas e outras coisas do mesmo gênero alimentício. Antigamente esses programas eram mais fácil encontrar na internet do que doenças venéreas em prostitutas tailandesas. Fui procura-los recentemente – com exclusiva finalidade de pesquisa ou pra foder com alguém, não lembro mais – e não achei uma única página sequer. Vai ver os “hackers” arrumaram algo mais interessante para fazer – como sexo – , ou aceitaram a Jesus, e decidiram parar de aloprar com os computadores alheios.

Mas na época, era muito fácil encontrar os programinhas nocivos aos computadores alheios, e frequentemente nocivos aos nossos próprios computadores. Sim, porque não raro acabávamos infectando a nós mesmos com o programa que deveríamos mandar pra vítima. Aprender a mexer com trojans era praticamente uma roleta russa, uma atividade mais perigosa que um cego tentando raspar as bolas.

Eu explico.

Um trojan consistia em X arquivos, sendo um deles o CLIENTE, o outro o PATCH, e X-2 são os arquivos de sistema/readme.txt que você jamais abrirá ou notará a existência, o que no futuro significará que, ao escrever um texto sobre eles, você terá que enumerá-los com uma incógnita simplesmente por não lembrar quantos eram. O CLIENTE era a parte principal do programa, o cockpit, digamos. Era nele que você digitava comandos ou clicava em botões que provocariam efeitos no computador do indivíduo. O que eu chamo de “Efeito Enter”, um análogo do Efeito Borboleta (o que antes era apenas de conhecimento de físicos e matemáticos, e agora por causa do filme de mesmo nome, qualquer mané sabe o que significa): Você aperta um Enter no Ceará, um HD é formatado em São Paulo.

Então, após algumas idas e vindas entre sites pseudo-ráqueres, eu já tinha todo o aparato necessário para causar alguma destruição em larga escala. O único problema é que eu não sabia como encontrar vítimas.

Se quem tem boca vai a Roma, quem tem IRC deve pelo menos conseguir invadir um computador de lá. Pensando nisso, entrei na rede de bate-papo em busca de um mestre que pudesse me auxiliar na difícil tarefa de encontrar otários que não dessem muita atenção à segurança virtual.

Não foi muito díficil. Em pouco tempo, entendi todo o funcionamento do submundo ráquer nas redes de IRC. Havia canais cujos OPs já estavam um passo à frente de nós, ou seja, já tinham saído do patamar de ráquer iniciante e sabiam usar programas que localizavam IPs infectados com trojans. Sendo os ráqueres generosos que eram, a diversão desses era liberar os IPs infectados na sala lotada de iniciantes, todos ávidos por causar alguma destruição online.

O que se seguia era uma corrida desembestada para conseguir logar no IP doente. Aquele que entrasse primeiro poderia “trancar” o hospedeiro, impedindo que mais de um usuário mal-intencionado penetrasse as profundezas da máquina invadida (o que acontecia frequentemente, provocando tragicômicos resultados).

Uma vez dentro, as possibilidades eram infinitas. Lembro-me da emoção de ter conseguido entrar no primeiro computador infectado através de trojan. Senti-me como um garoto numa loja de doces, cuja vidraça eu quebrara para poder entrar. Os clientes tinham opções diferenciadas: o BackOriffice era bom para roubar senhas, já o NetBus era um programinha mais “user-friendly”, mais gráfico, que tinha como finalidade basicamente aloprar o computador do infeliz. Você podia mover o mouse, tirar printscreens, mandar janelas de aviso, abrir páginas, fuçar o HD… praticamente qualquer coisa que você poderia fazer se estivesse sentado na cadeira do cara com a vantagem de não levar um murro, como aconteceria se você estivesse fazendo todas essas putarias estando ao lado do invadido.

Minhas primeiras experiências foram com o BackOriffice. O programa era menos intuitivo (em outras palavras, demorei pra caralho pra aprender a usar), mas em compensação era de longe o mais útil: ele me possibilitava ver qualquer coisa que o usuário digitasse no campo de senhas…

…Incluindo senhas erradas. Como alguém consegue errar a própria senha QUATRO VEZES, eu não sei. O que sei é que isso complicava minhas transações. Eu era obrigado a tentar todas as quatro/cinco/seis senhas que o mané digitava errado, até achar a correta.

Sim, transações. Assim que percebi que estava com trocentas senhas do UOL na mão e vários amigos pobres cujos pais não podiam pagar acesso à internet, descobri que as raqueadas poderiam ser rentáveis.

Começou muito inocentemente. Abordei um colega e perguntei se o pai dele já tinha deixado de ser um miserável e já tinha pago acesso à internet na casa dele. Tristonho, ele respondeu negativamente com uma meneada de cabeça. Vale lembrar que nessa época, computadores já vinham “de fábrica” com a bendita placa fax modem; o que faltava aos meus amigos favelados era grana pra pagar o acesso ao provedor.

Puxei um papel do bolso, onde eu havia anotado um nome de usuário, uma senha e um número telefônico (surrupiados de algum pobre coitado). Expliquei para o moleque que era uma senha válida pra acessar a internet através do UOL. Vendi pro guri por cinco reais, todo o dinheiro que ele tinha no bolso, com a garantia de que eu apanharia no dia seguinte se a senha não funcionasse.

E funcionou. Em pouco tempo, expandi meu mercado negro de senhas do UOL para guris de outras salas. Moleques que até então eu nem conhecia chegavam a mim por indicação de colegas de sala.

Ah, bons tempos.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)