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Postado em 1 May 2005 Escrito por Izzy Nobre 1 Comentário

Estávamos eu e o Trunks indo pra uma festa na casa de amigos neste último fim de semana e do nada começamos a discutir sobre o problema do tráfico no Brasil. Esqueci qual foi o motivo que desencadeou a conversa, provavelmente alguma notícia envolvendo violência relacionada ao tráfico. Invariavelmente, o papo acabou tocando na delicadíssima discussão sobre legalização de entorpecentes. E eu cheguei a uma conclusão bastante simples, cuja simplicidade certamente implica que muitos de vocês já devem ter pensado no mesmo que eu.


O alarmante problema do tráfico no Brasil – mais precisamente, o fato de que os traficante mandam e desmandam na porra daquele Rio de Janeiro – se deve exclusivamente ao fato de que os filhinhos de papai que querem tirar uma onda de malandros e sustentam Fernandinhos Beira-Mares com a mesadinha do papai advogado.

Agora, eu não sou apto a criticar um indivíduo julgando o que ele faz com o próprio corpo, ou como gasta o próprio dinheiro. O escopo do meu raciocínio não vai por aí. Ou seja, aqueles que são chegados num baseadinho ou uma cheiradinha de vez em quando e que já iam gritar “seu filho da puta, eu faço o que eu quero“, contenham-se. Não tou jogando a culpa em vocês.

O problema do tráfico em larga escala – e estou me referindo aqui especialmente à situação do Rio, que é a mais dramática – é que essa porra está aí, na cara de todo mundo há umas três décadas (senão mais), mas ninguém resolveu encarar essa merda da forma como ela deveria ser encarada. Já faz uma porrada de tempo que a explosão demográfica das grandes metrópoles forçou os menos fortunados a apelar pra formas “alternativas” de ganhar o pão de cada dia, como comércio ilegal de drogas. Não é nenhum problema novo, imprevisto. Não é possível que depois de tanto tempo, ninguém apareceu com uma boa idéia contra a situação.

Os poucos esforços dedicados a acabar com o problema acabaram naufragando vergonhosamente. Claro, há umas três ou quatro ONGs que tentam resgatar moleques traficantes dessa vida miserável, mas que diferença isso realmente faz no quadro geral? Nenhuma. Centenas (milhares, talves talvez?) de pessoas continuam morrendo todos os anos por causa da violência relacionada ao tráfico. E ao meu ver, há uma solução pra isso. Uma solução que daria certo em vários níveis diferentes, não apenas acabaria com a violência mas com a própria máquina do tráfico.

Deixando claro logo de início: Não sou nenhum economista, nem cientista político, nem advogado. Tenho tanto conhecimento no assunto quanto qualquer um de vocês. Obviamente, deve haver algum problema com meu plano. Mas uma coisa é certeza absoluta: a situação não melhorará se a abordagem ao problema não mudar. Arriscar é necessário. E quem sabe, meu plano fenomenal seria justamente a solução pra um problema que já passou do nível da esculhambação generalizada há muito tempo.

“E que super plano é esse, Kid?”

É muito simples, na verdade, embora as implicações sejam, a curto e longo prazo, revolucionárias. A lógica é bastante simples.

O negócio é o seguinte: Tráfico é uma indústria. É uma empresa. Qualquer pessoa que entenda uma coisa ou outra sobre economia sabe que não se derrubam empresas matando funcionários de pouca importância ou prendendo um ou dois líderes. É com concorrência.

Acompanhem meu raciocínio. Notem que toda a solução envolve encarar o tráfico como um negócio, um empreendimento, uma empresa.

E levem em consideração também o fato de que estou escrevendo este post super apressado, porque tou de saída pra assistir Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, que estreou ontem.

Imaginemos aqui que o congresso brasileiro decidisse seguir o exemplo do governo holandês e liberasse o uso e comércio de entorpecentes como cocaína, crack e maconha. Claro, seria uma dificuldade infernal fazer um projeto desse passar pelo crivo dos parlamentares ultra-convervadores (ainda por cima com aquela infeliz bancada evangélica), mas vamos aplicar uma suspensão de descrença e supor que essa lei passasse.

Mas a mera legalização não seria suficiente. O mote do plano é provocar uma concorrência ao comérico (outrora) ilegal de entorpecentes. Sendo um empreendimento legítimo, não dou nem três meses para empresas farmacêuticas – ou qualquer coisa similar – comece a produzir drogas em grande escala, pra filar com força no mercado recém-aberto.

Ou seja, nesse futuro hipotético, neguim que quer cheirar um pó ou fumar um cigarrinho do diabo vai à farmácia.

Aqui é que entra o golpe de mestre, embora eu não saiba se seria auto-sustentável economicamente (o ideal é que fosse, mas deve haver alguma saída): tornar as drogas ultra-baratas. Estou falando aqui de algo na ordem de, digamos, 5 vezes mais barato que o preço imposto pelos traficantes. O que é bastante plausível, se você encarar tudo no âmbito empresarial: traficantes vendem caro simplesmente porque eles monopolizam o mercado. Outro culpado do preço alto das drogas ilegais é que elas envolvem uma produção artesanal, ou seja, mais demorada e portanto mais onerosa. Drogas industriais seriam produzidas aos lotes, rapidamente, e assim bem mais baratas.

Então, beleza. Supondo que tudo isso fosse possível (não parece lá tããão improvável, ainda por cima considerando os potenciais resultados…), as primeiras reações aconteceriam em pouco tempo: os traficantes simplesmente perderiam clientela. Um playboy optaria pela segurança e economia de comprar alguns gramas de cocaína num balcão de farmácia ao invés de subir ao morro pra ser extorquido por bandidos e se arriscar a comprar drogas de qualidade e procedência duvidáveis. Se o cenário se mantesse, imagino que em pouco menos de um ano – ok, talvez dois – toda a indústria traficante seria desmantelada.

É muito simples. Se o tráfico deixa de ser uma atividade rentável – uma consequência óbvia da legalização -, moleques de favela deixariam de adotar esse estilo de vida. Sem mão-de-obra e sem o capital dos playboyzinhos, Fernandinhos Beira-Mares da vida não teriam a força para impôr o medo nos morros. Como já disse, não sou nenhum especialista no assunto, mas imagino que fica bem difícil lutar contra (ou subornar) a polícia sem dinheiro. Falta de dinheiro significa falta de armas, falta de soldados e, mais importante, falta de estoque. A longo prazo, os traficantes não teriam o que vender. Que lucro haveria em importar drogas do exterior (ou financiar a produção clandestina) se qualquer farmácia venderia o mesmo produto muito mais barato? O tráfico se tornaria inviável, e as bocas de fumo simplesmente iriam à falência. É curioso pensar que, como o consumo e venda seriam legais, tecnicamente os traficantes não estariam mais traficando – seriam apenas comerciantes de menor porte levando uma surra de cadeias multinacionais, que ofereceriam os mesmo bens por menor preço.

Um detalhe paralelo (mas igualmente importante) é que, como qualquer surgimento de uma nova indústria, a regularização de drogas geraria empregos E mais coleta de impostos aos cofres do Estado. Veja bem, isso é apenas um resultado PARALELO.

Obviamente há algum erro na lógica. Não consigo aceitar que uma solução tão fácil, que até um moleque que não entende praticamente nada de política, economia e legalidades, consiga teorizar.

Mas eu continuo achando que é melhor tentar algo novo que continuar sempre na mesma merda.

[ Update ] O Frost leu esse post e me mandou esse link pelo MSN. O autor do texto abordou exatamente os mesmos pontos que eu expressei nesse post, com adição de alguns que eu não pensei. E vejam que o texto é de uns cinco anos atrás.

É, acho que minha idéia não é tão sem sentido assim.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)

Um comentário \o/

  1. Patricia Motta says:

    Post antigo mas assunto muito pertinente.
    Só fico achando que descriminalizar na cabeça da sociedade é que é difícil. Então não sei até que ponto isso causaria impacto no tráfico, visto que muitos consumidores ficariam constrangidos em comprar o produto oficialmente e continuariam procurando os traficantes.
    Mas a idéia tem fundamento, sim!