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Postado em 5 May 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Independente do hemisfério onde você mora, certas coisas nunca mudam, mais ou menos como as meias que estou usando – que coloquei nos pés no dia que embarquei pro Canadá. Uma dessas coisas é o fato de que pessoas loucas têm uma misteriosa aversão por carros/motos/bicicletas/skates/triciclos/qualquer tipo de veículo particular, e só se deslocam de um lugar pro outro usando ônibus.

Mais especificamente, os ônibus que eu pego.

Estava eu sentado na parada de ônibus do lado da escola, quando notei a aproximação de duas velhacas. Pessoas cujas idades batem na casa dos três dígitos não costumam chamar minha atenção – com exceção notável de um idoso que foi atropelado perto da minha casa, embora o crédito não pertença a ele e sim aos seus intestinos espalhados pela calçada -, mas essas veiotas que se aproximavam não podiam ser ignoradas – a opção não estava sob meu controle. Isso se deve em parte ao fato de que uma das anciãs, que a partir de agora será nomeada “Vovó #1”, conversava com a outra em um volume vocal que dava a impressão de que ela estava tentando se fazer ouvir por alguém em outro continente.

Bem que eu queria que eu estivesse inventando isso; não é o caso. Já ouvi turbinas menos barulhentas que a Vovó #1. Ela ainda estava a uns 20 metros de distância, mas a sensação era de que ela estava bem do lado da minha orelha, berrando algo sobre um novo modelo de fraldas geriátricas ou alguma coisa assim. Senti pena quando conclui que ela sofre de um mal incontrolável que faz o doente acreditar que o mundo à sua volta se interessa em ouvir o que ela tem pra falar (ou berrar desesperadamente como era o caso). A moléstia, conhecida como blogueirite aguda linfática, não tem cura e também deixa suas meias fedendo como um ovo podre chacoalhado trinta vezes e em seguida enterrado em esterco de porco.

O segundo detalhe foi dolorosamente registrado pela minha retina quando olhei pra trás, tentando identificar a fonte da gritaria e quem sabe silenciá-la com uma pedra precisamente colocada entre os dentes em alta velocidade. Ao estabelecer contato visual com a Vovó #1, deduzi automaticamente que ela não pagava sua conta de luz a pelo menos 18 meses. Apenas a combinação da falta de energia com a súbita vontade de se vestir à meia noite explicaria racionalmente a roupa que a véia usava. Talvez isso, ou a múmia caminhante fosse cega, o que explicaria tanto a sua falta de estilo, quanto o fato de que ela estava aparentemente tentando se vingar do destino cegando o resto do mundo vestindo uma excêntrica combinação de cores.


Não tou aloprando.

Já vi paraquedas menos coloridos que a roupa que a velhaca usava. Lá estava eu, sentado na parada de ônibus, enquanto as Vovós #1 e #2 se aproximavam, a primeira cegando e ensurdecendo o mundo à sua volta.

Parei de desenhar casinhas no palm pilot (um dos meus novos passatempos) e coloquei os fones de ouvido. Infelizmente, descobri que meu mp3 player não tem potência suficiente para abafar uma véia coroca se comunicando no idioma das turbinas. Vou mandar um e-mail pro fabricante, sugerindo que as próximas versões emitam sons que ultrapassem os 347292 decibéis que alguma velha esteja produzindo próximo ao usuário do aparelho.

Mas as múmias canadenses ainda são um pouquinho melhores que seus equivalentes brasileiros: aqueles vagabundos que abordam os coletivos e incentivam você a sustentá-los, enfatizando suas louváveis qualidades que envolvem por exemplo o fato de que ele está te fazendo um favor em não roubar/matar/estuprar. E que, por causa disso, você deveria dar um real (talvez dois?) a ele. Claro! Afinal, se ele vai estuprar alguém, poderia muito bem ser a sua mãe, não? A segurança da sua mãe sem dúvida vale um real. Até dois.

Puta que pariu. E ainda tem gente que fica chateada quando eu uso o termo “País da Putaria”.

E da próxima vez, volto pra casa correndo.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)