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Postado em 19 May 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Cenas dos últimos capítulos

Agarrei a porta lateral da van e puxei pro lado. Lá estava ela, meio encolhida no lado oposto do banco. A patroa, que estava olhando pela janela do outro lado, virou então o rosto pra minha direção. Senti um arrepio na espinha.

O rosto foi a primeira coisa que chamou minha atenção. Estava bastante inchado, e havia adquirido em algumas áreas uma coloração arroxeada que não deixava dúvidas sobre a violência com a que a calçada (ou talvez um poste? Eu ainda não sabia) espancou minha namorada. Havia ao redor da boca dela sangue semi-coagulado, proveniente de um corte de uns dois centímetros acima do seu lábio superior. O sangue descia até o queixo, encontrando-se com outra ferida menor, mais próxima ao pescoço. Aquela “barba de sangue” conferia a ela uma aparência cadavérica.

A sua blusa azul estava empapada de sangue. Seus braços ostentavam rasgos de alguns centímetros de comprimento que, apesar de não serem ferimentos graves, deviam doer como o inferno. A pele em algumas partes havia sido arrancada, revelendo a camada inferior, sanguinolenta e extremente sensível. Em uma das mãos, um paninho que ela segurava junto ao rosto, tentando futilmente estancar o sangramento.

Os joelhos estavam pretos. Na hora, não consegui definir se era sujeira do asfalto, sangue ou uma asquerosa (embora provavelmente nutritiva) mistura de ambos.

O olhar da coitada era de tristeza profunda. Em meio a uma mistura de suor, sangue e lágrimas (que dariam inveja a Churchill*), a acidentada estendeu os braços, como que me pedindo auxílio, e murmurou, com voz chorosa, “Hunny, I’m hurt“. Mais algumas lágrimas escaparam, e percebi horrorizado que um de seus dentes da frente havia sumido.

Se o complicado jargão médico do meu diagnóstico confundiu você, fique com a versão para leigos:

Ela se fodeu. Feio. Ou bonitamente, que dependendo do contexto político e do fuso horário, são a mesma coisa. Ainda não aprendi a ler mentes, mas sei exatamente o que a gringa esfolada estava pensando nesse momento: “Eu devia ter ouvido o brasileiro!

Os braços esfolados continuavam estendidos em minha direção, uma das mãos segurando aquele paninho lá. Saltei pra dentro do Ford Venture da mãe da patroa – que, curiosamente, é o mesmo carro que meu pai possui…


Esse aí.

… – e fechei a porta atrás de mim. Em seguida, voltei-me pra gringa e dei-lhe o abraço que ela esperava. Tomando o cuidado, claro, de evitar aproximação das áreas esfoladas, sabendo de antemão que o contato provocaria mais dor que ser atingido na cabeça por dois tijolos voando em direções contrárias logo após receber a notícia de que sua mãe morreu atropelada por um caminhão de lixo.

A véia pisou na tábua e em poucos minutos chegávamos ao Oshawa Central Hospital. Ou alguma coisa nesses parâmetros, porque na verdade não lembro o nome do hospital e inventei essa alcunha aí. Vai ver era Oshawa Hospital for People Who Got Fucked Up Beautifully. A patroa saltou do carro, mancando com bastante dificuldade. Apesar de comprovadamente fodida, se recusou a aceitar uma cadeira de rodas – O que muito me chateou, pois sempre quis empurrar alguém em alta velocidade pelos corredores de um hospital numa cadeira de rodas. Lá se vai mais um sonho meu, daqui a pouco alguém vai me dizer que não posso ser astronauta, ou que preciso estudar pra ser alguém no futuro.

Demos entrada ao setor de emergência, sempre andando devagar os passos lentos da patroa. Esta, por sua vez, ia deixando um rastro de sangue por onde passava, que pingava copiosamente do seu rosto. Aquele paninho, que nas minhas melhores suposições devia ser azul originalmente, estava completamente encharcado de sangue gringo.

O setor de emergência deve ser um dos lugares mais interessantes onde alguém pode arrumar um emprego. Eles são uma janela para a parcela burra da sociedade, aqueles indivíduos cujo baixo QI impede de dominar as técnicas necessárias para manusear martelos, pregos, facas, enfim, equipamentos que exigem um certo carinho e respeito.

(Ignorem, claro, o fato de que essa crítica vem de uma pessoa que conseguiu se cortar com uma faquinha de manteiga ontem, ao tentar amanteigar um mini-croissant.)

Aparentemente, aquele foi um dia de azar para os habitantes dessa roça canadense chamada Oshawa. Poucos minutos após chegarmos ao SE, três amigos da patroa apareceram, um deles sendo carregado pelos outros dois. O que, em retrospecto, não faz o menor sentido – o moleque tinha apenas machucado o dedão. O grupo se aproximou da gente, e os acidentados começaram a trocar informações sobre seus infortúnios. Collin, o garoto que estava sendo trazido pelos outros dois, tinha um grampo enfiado no polegar direito. Após uma inspeção mais cuidadosa, percebi que o grampo não estava apenas penetrando a pele – o negócio estava TOTALMENTE ENCRUSTADO no dedo do infeliz, com apenas uma pontinha metálica do lado de fora. Como o menino conseguiu grampear o próprio dedo, e com tanta destreza que ninguém na escola conseguiu remover o grampo, é uma dúvida que assombrará minha existência até o dia em que eu zerar Enter the Matrix. A patroa ensanguentada e o moleque com o dedo grampeado sentaram-se e passaram a esperar o atendimento. A namorada, num arroubo de falta de consideração, apoiou a cabeça no meu ombro. Minha camisa ficou instantaneamente manchada por lágrimas e sangue, então dei-lhe um cruzado de esquerda no nariz para ensina-la boas maneiras.

Esse não foi o único encontro naquele dia hospitalar.

Continua nos próximos capítulos.

*Acho que menos de 5% dos leitores do blog são cultos o bastante pra entender a referência, mas tá aí.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)