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Postado em 23 May 2005 Escrito por Izzy Nobre 0 Comentários

Cenas dos últimos capítulos

A namorada, num arroubo de falta de consideração, apoiou a cabeça no meu ombro. Minha camisa ficou instantaneamente manchada por lágrimas e sangue, então dei-lhe um cruzado de esquerda no nariz para ensina-la boas maneiras.

Esse não foi o único encontro naquele dia hospitalar.

Pouco tempo depois, Andy – o garoto-suicida-mascote da turma – entra apressado no Setor de Emergência. Ele estava ladeado pelo pai (um imigrante irlandês com um sotaque que provoca explosões intestinais provenientes de gargalhadas incessantes) e a mãe (uma adepta do esporte do consumo de prozac, e que passa maior parte do seu tempo em um torpor etílico). Ambos seguravam cada um de seus braços firmemente, aparentemente com medo de que eles cairíam dos ombros do moleque caso eles não cravassem suas unhas nos antebraços dele. O guri, cabisbaixo, foi arrastado pelo SE, dando-nos tempo suficiente apenas pra dizer “Hey, Andy” e imaginar o que ele tinha tentado dessa vez. Em fevereiro foram as pípulas; cortar os pulsos foi a do mês passado. Essa comitiva, formada pelos indivíduos mais promissores da sociedade canadense, entrou apressada na sala de um dos médicos de plantão, que já devia ter sido avisado previamente por telefone.

Negócio sem sentido. O pessoal que se fodeu contra a própria vontade tem que sentar na recepção, ler revistas de dois anos atrás e aguardar um médico disponível; já aqueles que estão tentando pôr fim na própria vida recebem atenção imediata.

Pouco tempo depois, o menino grampeado foi atendido – o que ratificou a suspeita de que a noção de prioridade nos hospitais canadenses foi bolada por um macaco com síndrome de Down. O caso dele era de longe o mais simples de todos, bastava puxar o grampo pra fora com um alicate. Já a namorada continuava sangrando do meu lado e murmurando expressões incoerentes, visivelmente enebriada pela dor. Dei uma cotovelada no olho dela, pra ela deixar de ser frouxa.

Quase quatro horas depois, fomos finalmente levados à uma salinha, onde uma médica iria limpar os ferimentos e tudo mais. Havia duas mesas na sala; a patroa sentou-se numa, enquanto eu e a sogra esperávamos em pé diante dela. Instantes após a nossa chegada, um molequinho negro acompanhado por uma menina branca entraram na sala e sentaram-se na mesa ao lado. O guri trazia um pano ao queixo. Uma conversa informal com a dupla revelou a causa do machucado: o menino levou um taco de golf na cara. Sem dúvidas, uma experiência não muito agradável. Alguns segundos mais tarde, uns médicos passaram a movimentar pacientes de outros quartos. Um deles, que foi deixado no corredor durante o tempo que levava os médicos a reorganizar o quarto ou algo assim, começou a gritar reclamando de uma suposta “diarréia explosiva”. Uma enfermeira correu ao auxílio do pobre cagão, injetou alguma coisa no catéter do cara, e em poucos instantes o maluco tava dormindo. Eu, naturalmente, estava rolando no chão de rir da cena, algo que o pessoal em volta aparentemente não aprovou.

E a médica finalmente chegou. Competentemente, a doutora apanhou os produtos lá, borrifou alguma coisa num pedaço de pano e começou a limpar a namorada. A essa altura, ela já estava beirando o limite da inconsciência. Passa o medicamento aqui, passa ali, e machucados que eu não tinha sequer notado eram tratados. A namorada, pobrezinha, esmpremia os olhos e cerrava os dentes firmemente sempre que a médica se aproximava de um ferimento, como se ela estivesse tentando morder uma rapadura invisível. Suponho que o produto milagroso tem alucinações como efeito colateral.

Ao fim do procedimento, a médica pegou uma pomadinha transparente cujo nome esqueci e passou a “selar” os machucados, pra ter certeza que eles não abririam. Mais alguns minutos e a patroa tava “consertada”.

Ou quase. Ainda faltava o rosto. Como mencionei, havia um rasgo no lábio superior, e um de seus dentes havia sumido. Após uma inspeção mais criteriosa, percebemos que o dente estava ainda lá, embora inclinado pra trás num ângulo estranhíssimo. A médica explicou que não poderia fazer porra nenhuma enquanto não tirassem um raio X da cabeça da coitada, pra ter certeza que tudo tava direitinho e tal. Toca a levar a menina pra sala de raio X, que ficava convenientemente ao lado da lanchonete. Esperei que a namorada fosse atendida e então, com habilidade, joguei um verde pro lado da sogra. Esta prontamente abriu a carteira, sacou uma nota de dez pilas e me dispensou à lanchonete.

Uma Sprite e dois pacotes de Ruffles depois, a namorada ainda não havia saído da sala de raio X. Sentei-me na recepção e peguei uma Readers Digest que tinha na reportagem de capa uma foto do atentado terrorista do World Trade Center (e acreditem, essa era a revista mais recente da pilha) e pus-me a esperar.

Pelo jeito, as peculiaridades daquele dia não haviam cessado de me entreter. Um cara chegou à recepção com um sanduíche na mão e a própria virilha na outra. Andando de um lado pro outro, ele parecia aflito para ir ao banheiro, a despeito da mancha de urina que cobria toda a parte da frente das suas calças. Uma boa alma indicou-o o banheiro, que de alguma forma o cara não conseguiu achar até então (a porta do lavatório se escondia a dois centímetros à direita dele). O doidinho (devia ser um doente mental genuíno) agradeceu com expressões ininteligíveis e correu como uma criança pra dentro do banheiro. Sem doentes cagões ou retardados mijões pra me distrair, voltei minha atenção à reportagem que prestava luto às vítimas do WTC.

Do nada, a namorada aparece na minha frente. Ela já havia sido dispensada do raio X, e não, não havia nada de errado com a cabeça dela – ao menos, nada que médicos possam consertar. Apanhei meu casaco, dei um cutucão na sogra (que cochilava na cadeira ao lado) e fomos embora do hospital.

O dia não estava acabado, entretanto. O aparelho da Becca estava fatalmente avariado, tínhamos que ir no dentista dela pra ajeitar o arame e fixar aquele dente fodido no lugar. O trabalho foi feito em tempo recorde; em menos de meia hora tava tudo consertadinho.

E já se passou uma semana desde o acidente. Os pontos no lábio já foram removidos, deixando apenas uma cicatriz no lugar. Quase todas as feridas nos braços, mãos e pernas se fecharam sem mais sequelas. E, apesar de há chances de que aquele dente tenha que ser removido e substituído por uma prótese, por ora tá tudo ok.

Mas por algum motivo ela não quer mais andar de patins comigo.

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Categorias: Geral

About Izzy Nobre

Oi! Eu sou o autor desta pocilga. Tenho 30 anos, também sou conhecido como "Kid", moro no Canadá há 10 anos, e sou casado com uma gringa. Geralmente perco meu tempo na internet atualizando este blog, batendo papo no twitter, produzindo vídeos para o youtube, e conversando sobre videogames antigos no podcast 99 Vidas. Se você gostou deste texto, venha me dizer um alô! Adoro conversar com os leitores :)